CLIPPING: Jornal do Commercio – 09/09/2009

Milton Nascimento (Foto: Leo Siqueira)


Bituca bem à vontade no Coquetel Molotov

Convite para participar do festival é uma oportunidade para ele se reencontrar com o amigo Lô Borges e reviver os tempos do Clube da Esquina. Milton espera ainda por canja de Naná

José Teles
teles@jc.com.br

Muita gente pode estranhar a presença de Milton Nascimento e Lô Borges num festival rotulado de indie como o No Ar Coquetel Molotov, que acontece de 14 a 19, no Teatro Guararapes, com atrações do pop alternativo nacional e gringas, a exemplo dos franceses Sebastien Tellier e Zombie Zombie, ou as suecas da Those Dancing Days. Estão esquecidos que Bituca (era seu apelido) e sua turma do Clube da Esquina já foram o alternativo da música brasileira no início dos anos 70. Com Lô Borges, Novelli, Robertinho, Márcio Borges e Beto Guedes criaram um som até admirado no mundo inteiro: “Muita gente, muitos estrangeiros vão a Belo Horizonte querendo conhecer o tal Clube da Esquina, que nunca existiu. É só a esquina de duas ruas da cidade”, ri Milton, ao telefone.

Quando se fala do álbum Clube da Esquina, o primeiro, lançado em 1972, vê-se ali a influência dos Beatles. Milton não a nega, mas diz que a inquietação era uma síndrome que existia mundo afora na época. “Os Beatles marcaram a vida do mundo, mudaram muita coisa. Naquele tempo o mundo inteiro estava se modificando, na música, no cinema, na literatura. O que acontecia na Inglaterra, acontecia no Japão. No Brasil acontecia da mesma forma. Agora, pelo fato de ser um país pobre, não se tomou conhecimento lá fora, na época. Hoje a música do Clube da Esquina é admirada em todo lugar”, diz.

Milton Nascimento diz ter aceitado o convite do Coquetel Molotov, por dois motivos: “Primeiro, porque adoro o trabalho de Lô Borges, a música dele. Quando ele começou a compor para o Clube da Esquina estava com apenas 17 anos e fazer show com ele nos remete àquele tempo. Passamos muito tempo sem fazer apresentações juntos. depois porque tenho uma coisa com o Recife. Quando soube que era com Lô e no Recife, não pensei duas vezes. Naquele show que fizemos no Marco Zero, no Carnaval, de repente, no céu aconteceu uma coisa, a lua com as estrelas, não sei explicar bem o que foi, mas foi fantástico.”

Quanto a tocar num festival em que predomina o pop e o rock, para Bituca não é problema algum, pelo contrário. “Comecei com Travessia, tudo bem foi um marco, mas minha música não era só aquela. O lance é o seguinte: nunca tive problema de fazer um tipo de música e ficar naquilo. Participei de um conjunto de baile, e tinha que tocar música de todas as partes do mundo. Tocava rock, mambo, chá-chá-chá, então desde Três Pontas (MG), minha vida é assim”.

Milton conta que no ano passado, quando esteve na França para o lançamento do disco que gravou com os irmãos Belmondo (o saxofonista Lionel e trompetista Stéphane), acompanhado pelas Orchestre National d”Ile-de-France, numa entrevista perguntaram se ele sentia dificuldade em cantar com uma orquestra: “Respondi que já havia cantado com umas vinte orquestras e não via dificuldade alguma em fazer isto. Perguntei se ele sabia que eu havia gravado com Duran Duran. Ele se surpreendeu, mais ainda quando perguntei se sabia que eu havia gravado até heavy metal. E contei de uma gravação que fiz num disco do Angra. O cara então não perguntou mais nada”.

O que liga Milton ainda mais ao Recife é a amizade com Naná Vasconcelos, iniciada quando o percussionista foi morar no Rio, no final de 1968: “Com Naná o lance começou quando fui assistir a um ensaio de um grupo de pernambucanos. Fiquei meio afastado para não atrapalhar. Então Naná, que eu não conhecia, veio até onde eu estava e disse: ‘Vim para o Rio tocar com você’. Foi assim mesmo. No outro dia, ele já estava morando na minha casa”. Isto sinaliza para um possível reencontro no palco, se o percussionista estiver no Recife. “Seria muito bom que isto acontecesse. Sou louco por Naná. Se ele quiser dar uma canja, para mim será uma dádiva divina”.

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