Por que assistir ao show do Dinosaur Jr?

Dinosaur Jr (Divulgação)

Por Amauri Stamboroski Jr

O primeiro disco do Dinosaur Jr. que eu comprei foi o “Where you been”. Acho que já era 2000, ou talvez 1999 ainda. Era o resto do resto do espólio de uma loja de locação de CDs que existia em Cascavel, no interior do Paraná, que foi parar na mão de uma amiga minha. Ela ficou com o “13 Songs” do Fugazi, eu fiquei com o disco do Dinosaur. Paguei R$ 5, se bem lembro.

Poucos discos mantiveram o mesmo impacto emocional na minha vida ao longo dos anos. Eu ainda adoro muito do que eu ouvia na virada do século, mas o Dinosaur Jr. é quase o único que traz uma resposta quase fisiológica quando eu ouço – é angustiante, ensolarado, esperançoso, sombrio, enérgico, apático, é único e de uma forma muito particular, não pode ser reproduzido por terceiros.

Enquanto a música de outros grupos da época me lembra momentos específicos de uma adolescência nem sempre divertida, o Dinosaur Jr. me traz sempre o mesmo sentimento, que isola tudo à sua volta e demanda toda a atenção para seu próprio som.

Uma das características mais notadas e celebradas do grupo (ou quase-projeto-solo-de-J-Mascis, como era à época de “Where you been”) era uma certa apatia na voz de Mascis, em contraste com a paisagem sonora abundante e sua guitarra sempre a centímetros da farofa, mas de um jeito matadoramente cool.

Para mim, esse jeito estranho de Mascis cantar sempre pareceu estranhamente emotivo – assim como eu, aquele era o ponto máximo de expressão sentimental para aquele sujeito, e eu não o sentia distante, mas alguém sem a capacidade de se expressar do jeito convencional, e que acabou incorporando o “defeito”, transformando ele em virtude, em característica singular, em seu ponto forte.

Mais tarde, com a internet, fui ouvir outros álbuns, aprender sobre a banda, suas trocas de formações, o começo no punk, a influência de Peter Frampton, os nomes dos efeitos de guitarras, os discos mais emblemáticos, os projetos paralelos. Mas antes da internet, da Amazon, do mp3, tudo o que eu tinha era um CD, um pedaço de plástico que equivalia a uma hora de música – música que eu ouvia do começo ao fim, naquela ordem, sem playlist, sem favoritos.

Quando eu conheci o Dinosaur Jr., a banda nem existia mais. Mas nesse tempo o grupo voltou, gravou dois discos excelentes (incluindo “Farm”, um dos melhores álbuns de 2009) e, milagre dos milagres, vai tocar no Brasil. Eu nem sei o que sentir a respeito disso, como nunca soube direito o que sinto a respeito deles. Só sei que de novo eles me fazem lembrar que tudo está bem.

* Amauri Stamboroski Jr. é jornalista do G1, colabora para as revistas Vice e +Soma e mantém o blog After The Gold Rush (www.afterthegoldrush. wordpress.com)

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5 comentários

  1. Herick disse:

    Legal o texto, legal a banda, vou pro show e tenho certeza que será foda, mas em relação aos cds eu ainda prefiro o 13 Songs do Fugazi. kkkkk

  2. Fábio Rogério disse:

    Também comecei com o “Where you been”, principalmente com a música “Get Me”. Mas o primeiro contato mesmo foi com o VHS “The Year Punk Broke”, onde o Dino Jr aparece tocando “Freak Scene” no Reading. Nunca havia visto nada como aquilo, um vocal desleixado, um som pesadíssimo, uma guitarra com efeitos mezzo psicodélicos, mezzo pegadas punks… O que era aquilo? Quase 10 anos depois, aqui estou eu, com os 2 ingressos para os 2 dias em que verei o Dino Jr em São Paulo.
    Caracas… Sou fã!

  3. Leo Walk disse:

    Poxa, só pelo texto que vc escreveu eu já estou enpolgado com esse evento!!! Conheci a banda através de um amigo meu que me passou o primeiro cd deles. E concordo com cada palavra que você escreveu!!! Realmente a banda tem uma atmosfera diferente das demais!!! Não é a toa que essa banda chamou a atenção de figuras consagradas como o nosso eterno Kurt Cobain. Eu tenho uma banda de punk/hard core e posso disser com todas as palavras que já estou recebendo boas influências por parte desses caras. Sim, o nome da minha banda é Cabeças Podres. Aguardem, pois vocês vão ouvir muitos comentários sobre essa banda aqui de Vitória de Santo Antão. Um abraço!!!!

  4. Juca Rocha disse:

    Eu conheci o Dinosaur Jr numa salada de bandas que tocavam na virada dos anos 90 mas principalmente atraves de um colega que tinha toda coleção e tenho certeza que vou encontra-lo no show…rs…o Where you been até hoje é um dos mais tocados da minha coleção e acho um som visceral, necessario para entender o guitar rock! Que bom que Recife volta a trazer boas bandas!

  5. Takeo disse:

    For the love of God, keep writing these aritlecs.

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