Paulo Floro *
Do JC Online
A escalação de Otto mostra a visão apurada da produção do festival em enxergar o emergente crescimento de um artista como ele

Otto conseguiu atender a todo hype que lhe foi atribuído nesse primeiro dia do No Ar Coquetel Molotov nessa sexta-feira (24). A produção pensou para o cantor um show mais intimista, diferentemente do que estamos acostumados a imaginar de uma performance de Otto. O bom foi que ele desobeceu tudo e aproveitou para fazer do palco do Teatro da UFPE a sua redenção. Seu passe, enfim, para um novo patamar em sua carreira, longe dos aficcionados herdeiros do mangue e mais popular. A visão mais emblemática do show são as meninas gritando enlouquecidamente, driblando os seguranças para dançar com o cantor, cantando as letras decoradas do mais recente disco, talvez empulsionadas pela visibilidade ganha com a veiculação na antiga novela das oito da Globo.
A escalação de Otto mostra a visão apurada da produção do festival em enxergar o emergente crescimento de um artista como ele. Mas também o interesse em agregar nomes mais populares para um festival que passou anos colado ao moribundo adjetivo de “indie”, ou seja, aquelas bandas alternativas que ninguém conhece. O teatro lotado, com todo mundo cantando junto, mostra o quanto o No Ar está consciente da importância de ser o mais relevante festival do Estado. Mas isso não deixa de lado o papel de formador de novas plateias, trazendo novidades do pop atual, como Miike Snow.
Voltando à Otto, seu show teve tudo o que se esperava dele: tirou a camisa, rebolou, jogou água na cabeça. Era difícil acompanhá-lo, estava sempre a correr de um canto a outro do palco e chegou até a ir para a plateia, andando com dificuldade até a metade das cadeiras. Tocou quase todas as músicas do mais recente álbum, Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, como “Saudade”, “Crua”, “Seis Minutos” e “Janaína”. Contou também com uma banda de luxo, formada por Fernando Catatau, do Cidadão Instigado e Pupilo, da Nação Zumbi. A noite ainda ficou marcada pelas memórias de Otto, falando de sua juventude no bairro da Cidade Universitária, romantizando lembranças da linha Rio Doce-CDU, estripulias na Mustardinha e na avenida Caxangá.
Foi um dos shows de maior aclamação pública do festival nesses últimos anos. Antes dele, os suecos do Miike Snow fizeram sua mistura muito bem feita de rock e eletrônica e mostraram que já colecionam hits com tão pouco tempo de estrada. “Animal” e “Silvia” fizeram todo mundo pular, no pequeno espaço entre as cadeiras e o palco. Conhecidos pelos trabalhos como produtores de artistas como Britney Spears e Madonna eles vêm se destacando no mundo por esse rock dançante pensado para as pistas. O show foi tão vigoroso, sem interrupções nem conversa, que quando menos percebemos, já acabou.
A decepção da noite foi Soko, a cantora francesa tida como nova promessa entre as cantoras saídas da cena independente. Reclamou do som, apostou – errado – no carisma para conversar com o público em várias interrupções do público e mostrou um desempenho vocal muito mediano. Cantando sobre decepções com homens, desaforos contra ex-namorados, a cantora fez um show desencontrado. Talvez ainda não esteja madura o suficiente para um show da dimensão que recebeu. Como promessa, Soko até convence, mas precisa amadurecer. O momento alto do show foi quando chamou para fazelr figuração no palco músicos catados nos bastidores horas antes. Bárbara Formiga, Bruno Negaum e as suecas do Taxi Taxi foram subaproveitados gritando e assobiando enquanto Soko, histérica, tocava bateria e cantava.
Neste sábado, o No Ar Coquetel Molotov traz a lenda do rock, Dinosaur Jr., além da surpresa do rap nacional Emicida. Ainda há ingressos à venda. E pernambucanos tem sorte, já que shows do Dinosaur Jr. em outras cidades estão com ingressos esgotados.
* Texto publicado originalmente no site JC Online.


















