Clue to Kalo
Ana Garcia em 10.04.2005
Se fosse alguns anos atrás Mark Mitchell poderia estar gravando as suas músicas tristes sozinho no seu quarto com um gravador tascam e uma guitarra acústica, mas nos dias de hoje, sem saber tocar um instrumento, um laptop e alguns amigos que sabem fazer um pouco de barulho é o necessário para criar o belo pop eletrônico que ele anda fazendo. De Adelaide, Austrália, Mark tem lançado os seus três primeiros discos como Super Science - Don't Say Yes When You Want To Say No [Splashdown 1999], Calculated Steps Towards A Better World [Splashdown 1999] e Love Like Life In Miniature [Surgery Records 2000] – mas antes de conhecer o coletivo americano de hip-hop Anticon. Desde então, ele começou a compor e a produzir uma mistura de eletrônico melódico com letras apaixonadas e vocais lo-fi sob o nome de Clue to Kalo. O seu álbum de estréia, Come Here When You Sleepwalk, saiu pela Mush Records na América do Norte e The Leaf Label na Europa, no início de 2002. Desde então, Mark tem feito turnês pelos EUA e Europa com a sua banda que inclui mais dois músicos ou tem simplesmente tocado como artista solo com o seu laptop. Também continuou a trabalhar na sua tese sobre arte e começou a gravar o seu novo disco que ele clama ser bem menos meloso que o seu primeiro lançamento.
9:00 – Brasil
21:00 – Austrália
Um encontro com Mark Mitchell
"Eu acho que é mais divertido mostrar o máximo da sua personalidade que você pode"Oi Mark. Acertei o horário! Tudo bem com você?
Sim, que bom! Pode quebrar a cabeça às vezes. Eu estou bem. E você? Como foi a sua viagem?
Muito trabalho – praia, comer, praia… Estou estressada.
Nossa! É, eu sofro de estresse também. Eu acho difícil dormir às vezes por causa disso...
Sério?
Sim. Eu tenho insônia. A minha mente não pára de trabalhar.
Mas isso pode ser bom.
Claro, mas não quando são 6 horas da manhã.
Sei, mas isso não é pra ser o melhor horário para trabalhar?
Bem, eu trabalhava dessa forma durante anos. Eu dormia muito tarde, acordava à tarde, vagabundeava o dia inteiro até todo mundo dormir, e aí trabalhava até quase o sol nascer. Mas depois de um tempo isso pode foder com você. Eu estou num período de transição onde estou tentando concertar os meus horários de sono, acordar mais cedo, aproveitar a luz do sol...
Talvez as suas músicas serão mais felizes assim? Estou escutando Come Here When You Sleepwalk agora e as músicas são tão melosas.
O próximo [disco] não será tão meloso.
Como será?
Um...é mais compacto. Tem distorção. Muitos instrumentos ‘reais’. Ele soa muito maior, eu acho. Tem menos brincadeiras. Estou passando muito tempo nisso.
Você vai cantar e fazer tudo sozinho?
Sim, tem muito vocal. Muita harmonia também. Mas eu tenho pegado muitos sons dos meus amigos, muitos instrumentos diferentes, e tenho tentado evitar sintetizadores no geral. É ótimo porque a reação que eu tive quando eu toquei a última vez ao vivo foi muito positivo, e o meu amigo comentou como ele acha que soa como uma banda grande.
O que você quer dizer com pegado muitos sons dos seus amigos?
Bem, o meu amigo Vic coleciona instrumentos exóticos, então temos passado tardes no seu porão gravando sons dos seus instrumentos, apenas batidas isoladas e texturas. Eu depois levei essas gravações de volta pra casa e incorporei-as dentro das músicas.
Você aprendeu a tocar um instrumento?
Não exatamente, mas a tecnologia do computador significa que você pode falsificá-lo. Então eu toco guitarra nessas músicas novas, mas não tem como eu poder reacriar o que eu estou fazendo ao vivo com a guitarra. Eu não tenho o conhecimento. Você pode tocar coisas simples, juntá-los, para conseguir o que você quer.
Então você é uma inspiração para as pessoas que não sabem tocar, mas ao mesmo tempo conseguem fazer músicas bonitas?!
Bem, essa é uma forma com elogios de colocar. Eu sempre pensei no meu computador como um instrumento. Como a cena eletrônica tem ficado mais irrelevante para mim eu esqueço às vezes que a forma como eu escrevo, com um software, significa inevitavelmente que isso pode ser sempre recebido como música eletrônica. Mas eu não sinto mais isso. O que eu faço agora é pensar na música antes de sentar e realizá-la no computador. É apenas uma forma de fazer se você não sabe tocar música mas consegue escutá-la claramente na sua cabeça. Eu não acostumava pensar nas músicas anteriormente, mas agora sim. Pelo menos grande parte das músicas.
Então você não usa nenhum outro instrumento quando você compõe uma música?
Melodia, estrutura, arranjo...todas essas coisas normalmente chegam a mim antes de eu sentar. Então o que eu faço é manter um gravador por perto e canto nele ou descrevo o som ou movimento da música quando ela chega a mim. Então são tudo idéias na minha cabeça.
Como isso funciona ao vivo?
Bem, com o show ao vivo, tem partes saindo do computador, mas eles são incorporados dentro da performance ao vivo. Então os vocais são feitos ao vivo, e eu toco um pouco de percussão e às vezes um acordeom ou glockenspiel. Quando tocamos com uma banda de 3 pessoas tem guitarra, harmônica e bateria também.
Você falou que a cena eletrônica é irrelevante para você, por quê?
Eu não sei. Eu apenas não estou mais interessado. De trabalhar numa boa loja de discos ficou claro para mim que existem décadas de música inacreditável para escutar. Por dois anos no colegial eu escutei praticamente nada além de música eletrônica. Claro, ainda existem artistas que eu gosto, e música que às vezes eu escuto, mas como muitas outras coisas de hoje eu apenas não escuto tanto. Eu não sinto que faço parte de uma cena musical eletrônica, mas falando isso, se as pessoas querem me contextualizar dentro disso, é tudo bem também.
É difícil definir o que é e não é música eletrônica porque todos os gêneros estão se misturando...
Claro. Mas então se isso é verdade, por que usar o termo ‘eletrônico’ quando muitas bandas sendo gravadas estão usando o mesmo software que eu uso? Parece ser uma palavra que é normalmente a descrição de um som da música. Então é quando a música eletrônica é usada para descrever um estilo ao invés do processo que eu me sinto distante dela.
É porque tem muitos sons eletrônicos misturados com outras coisas...
O meu primeiro disco? Claro. Isso é eletrônico. Mas eu não irei fazer esse disco novamente. Eu quero fazer outras coisas, talvez usando os mesmos instrumentos em formas diferentes, mas sempre me puxando para frente, continuando.
Então o que você está aprendendo musicalmente desde o seu último lançamento? Ou até mesmo desde Super Science?
Parece brega, mas eu sinto que eu tenho mudado muito como pessoa. Eu tenho uma idéia melhor daquilo que eu quero fazer. As minhas idéias parecem com mais definições na minha cabeça. Claro, o mais específico que essas idéias são, mais dificuldade eu tenho em realizá-las. Mas eu sinto como eu aprendi o que é que eu quero fazer (pelo menos no momento), e eu acho que estou mais bem equipado para ter capacidade de fazê-lo.
Você já tem um nome para o novo disco?
Não, nenhum nome ainda.
O novo disco terá batidas?
Quando você fala batidas, você quer dizer de bateria eletrônica, ou batidas de hip-hop, ou...
Eu não sei, eu sinto que no seu primeiro disco têm batidas. Eu posso quase dançar para elas, sabe?
As coisas do novo disco ainda são na sua maioria rítmica. Tem muita percussão por cima, como tem no primeiro disco. Umas das diferenças é que a maioria dos sons são feitos por mim no meu quarto. Tem batidas de palmas, estalos de dedos, batidas de pé, batidas de bongo e tamborim.
Você normalmente grava tudo em casa ou entra em algum estúdio?
Não, é tudo feito em casa. Às vezes eu posso sentir os meus próprios defeitos como produtor/engenheiro chegando quando estou tentando descobrir como fazer algo soar de uma certa forma, ou tem uma certa presença, e simplesmente não consigo solucioná-lo. Mas essa forma de se fazer é divertido. Eu não consigo imaginar trabalhando em um estúdio profissional. Iria me dá medo. Eu descobriria todas as coisas que eu tenho feito de errado todo esse tempo.
Você normalmente faz turnês com grupos de hip-hop, verdade?
Bem, a única turnê internacional que eu fiz tem sido com um grupo de hip-hop. Isso é porque eu fui assinado por um selo que, até o momento, praticamente tem lançado hip-hop experimental. E a banda com quem eu fiz a turnê eram amigos meu. Um dos integrantes, Doseone, foi que conseguiu eu ser assinado. Então a conexão com hip-hop é mais pela circunstância.
Você tem alguma histórias insultantes que aconteceram durante os shows?
Histórias insultantes? Bem, uma vez aqui em Adelaide um cara na audiência pensou que eu era um jerk-off (masturbador) e ficou tão emocionado que ele estava se masturbou para a sua namorada para provar o seu ponto.
Que nojo!
Isso vem com tocar ao vivo. Eu estava atuando no palco, fazendo piadas ruins, dizendo histórias estúpidas. Eu gosto de fazer isso, eu acho que é divertido ser você mesmo no palco ao invés de adotar um personagem de palco. Mas aconteceu dele não gostar das minhas piadas ou das minhas histórias. É tudo bem.
Então você está normalmente contando histórias estúpidas e piadas ruins?
Entre as músicas, claro. Quando fizemos a turnê pelos Estados Unidos eu escrevi uma pequena música para cada cidade principal em que tocamos. Eu cantava a música antes de cada show. Algumas bandas vêem tocar ao vivo como algum tipo opressor de personalidade. Eu acho que é mais divertido mostrar o máximo da sua personalidade que você pode. É mais divertido para mim, de qualquer maneira.
Você lembra de alguma?
Das músicas, você quer dizer? Sim, elas estão todas no meu livro de anotações. Eu ia escrever uma música sobre a América usando essas passagens. Não consegui ainda.
Doseone não pensou “com quem estou fazendo uma turnê”?
Não, Doseone não assim. Ele gosta de muitas coisas diferentes, e eu não sei se você já assistiu ao show dele, mas ele é ótimo em fazer os shows em verdadeiras performances. Costumes, palavras faladas, objetos. Eu acho que shows de hip-hop podem se tediosos que só, mas ele faz ser muito atrativo. É tudo que eu quero fazer. As pessoas estão pagando dinheiro para ir assisti-lo tocar. Por que não fazer dele algo mais que você? Tocar as suas músicas com as suas costas para o público? Por que não fazer disso uma performance? Você já assistiu ao show do Flaming Lips recentemente? É disso que estou falando. Apesar, claro, que não temos o dinheiro para fazer algo dessa escala. Mas Manitoba é um outro bom exemplo. Dan decidiu que ele queria fazer algo mais do que um show de um homem-com-um-laptop, e então ele agora faz como 3 pessoas com máscaras de urso e moletons vermelhos com capuz.
Eu entendo, o pior show que eu fui foi no ano passado aqui no Brasil de John McEntire com o seu laptop. Era um festival apenas para atos solos chamado Solitude e foi uma merda.
Exatamente. E enquanto eu nunca assisti ao Tortoise tocar, as pessoas estão sempre dizendo para mim como os shows ao vivo são ótimos. Se alguém fizesse uma escolha entre eles, quem iria escolher o show de laptop? Você sabe, às vezes eu ainda toco com apenas o laptop. É fácil, é portátil. Eu entendo porque as pessoas fazem isso. Mas para a minha própria satisfação eu quero fazer algo a mais. Sim, certo, com as coisas solo podem ser enganosas, mas ainda um cara com uma guitarra acústica cantando pode ser atrativo. Então quando eu toco solo eu ainda quero fazê-lo interessante para as pessoas.
É, mas Mark Eitzel estava arrotando o tempo inteiro, mas eu admiro todos que participaram do festival.
Isso é muito engraçado. Mas, você sabe, pelo menos ele estava arrotando. Pelo menos era algo. Melhor do que o rosto viajante do laptop.
Então como é a Austrália para fazer música?
Austrália é legal para fazer música. Eu tenho muitos amigos aqui fazendo coisas legais. Eu nunca me senti limitado.
Você discoteca aí?
Sim, eu toco discos em um bar aqui em Adelaide todo sábado à noite. Não muito discotecando, apenas tocando umas músicas que eu gosto.
O que você toca normalmente?
Qualquer coisa que eu gosto. Eles são muito bons comigo. As pessoas com quem eu trabalho são muito boas, e eu acho que eles estão sob a falsa impressão de que eu sou algum tipo de celebridade, então eles me dão muita liberdade para tocar. Rock, psicodelia, eletrônico, folk, hip-hop...
Ah, você não é uma celebridade? As pessoas não te reconhecem nas ruas? Você não recebe presentes de fãs?
Não, ninguém quer saber de mim aqui. Todo mundo assume que eu devo ser famoso fora do país, o que claramente eu não sou. Eu tenho essa grande coisa onde as pessoas fora do país acham que eu sou famoso aqui, enquanto as pessoas aqui acham que eu devo ser famoso fora do país. Meio que dá um efeito de fama, enquanto na verdade ninguém me conhece. Eu recebo CD-Rs e coisas nos shows.
Qual é a sua motivação? Ela varia?
Isso é uma pergunta difícil, mas essencialmente eu faço as coisas porque quando eu não faço, eu fico infeliz. Tem tornado uma parte tão integral da minha vida, a forma como eu interajo com tudo. Quando eu comecei eu apenas queria ver se eu podia fazer música que era como a música que eu gostava. Eu queria fazer música desde criança, e depois quando o meu amigo teve o software para fazer, eu pensei em tentar. Agora é mais sério. É uma forma importante de reagir ao mundo. Se eu não fizer me sinto mal.
Por que você não pensou em aprender um instrumento, como a guitarra, quando você era jovem? Por que um software?
Porque eu era preguiçoso. Quando eu comecei a aprender piano, sentia como não tivesse nada a ver em fazer a minha própria música. Então eu mudei para a guitarra, e era a mesma coisa. Mas realmente, eu apenas não tive a dedicação. Com software, apesar de que você tem que aprender o básico, você está fazendo música desde o começo. Você está apertando play e escutando para essa coisa que você fez. Tinha isso...esse sentimento instantâneo de que você tinha criado algo.
Você lembra da sua primeira música? Como era?
Eu lembro da primeira música que eu escrevi no computador com o meu amigo do colegial. Eu não lembro muito. Eu lembro soando épico e mijado ao mesmo tempo.
Qual é a diferença entre o Super Science e o Clue to Kalo?
Super Science era o nome que eu dei para as coisas que eu estava fazendo no momento. Não foi muito uma mudança de estilo de Super Science para Clue to Kalo, pelo menos não conscientemente. Eu estive trabalhando com um selo com Super Science, e as coisas ficaram ruins, então mudar o meu nome me deu uma sensação de estar começando tudo de novo.
O que significa Clue to Kalo?
É baseado numa história em quadrinho chamado ‘It’s A Good Life If You Don’t Weaken’ de Seth. É uma autobiografia ficcional. Ele sai procurando por uma cartunista de Nova Iorque chamada Kalo, e é muito importante para ele. Encontrar Kalo é encontrar o significado da sua própria vida. Eu gostei de Clue to Kalo como referência para procurar o significado.
Você ainda está procurando? Tem alguma idéia do que é?
Bem, tudo é. Música é. A procura pelo significado pode ser uma forma de viver a sua vida.
Você ainda está estudando? Você não estava escrevendo uma tese?
Sim, sobre a idéia da arte e como ela funciona na cultura. Então eu estou falando sobre isso em referência a HQ, filme, literatura, artes visuais, música... Estou focando especificamente na cultura contemporânea ocidental. Estou discutindo uma idéia da arte oposta ao capitalismo.
Você chegou em alguma conclusão ou ainda é muito cedo?
Eu acho que é um pouco cedo. Eu ainda estou tentando colocar os meus pensamentos em ordem. Mas por exemplo, com HQ, durante uma parte significante do século vinte eles não eram considerados arte, produtos desenhado para fazer dinheiro. Mas nos anos sessenta, com pessoas como Crumb, tudo isso mudou, e logo você tem Art Spiegelman ganhando o Pulitzer por Maus. Nesse sentido eu estou falando sobre como HQ eram recontextualizados como arte por subscrever as diferentes narrativas reconhecíveis, como a narrativa subversiva, a narrativa do artista de fora, e por aí vai. Esses cartunistas se chamavam de artistas, e viviam como artistas, acreditando neles mesmos em terem os direitos e responsabilidades que vinha com um sendo artista, e por viver essas narrativas significa que outros poderiam contextualizá-las dentro de uma história da arte institucionalizada
Para finalizar a entrevista você poderia contar umas das suas piadas ruins?
Eu amaria. Mas elas são todas contextualizadas. Tem que ser sobre o momento. Mas se você quiser colocar uma piada ruim qualquer, eu não me incomodo em tomar a culpa.
De forma alguma!
[Risos] Tudo bem.