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Carlinhos Dias - Polara
Ana Garcia em 02.06.2006



Louco ou verdadeiro?
Poser ou natural?
Você já viu algum show dele?
Você não sabe nada de rock`n'roll mesmo...

"Gosto de me divertir... e acho engraçado ver como me levam à sério. Mas às vezes é para levar mesmo "

Como você descobriu a música?
Acredito ser a música a única arte que não necessita do homem para existir. Existe a música das esferas, o som do universo. Não sei de quando veio o meu primeiro contato com a música. Nessa encarnação, acredito ter sido através do meu pai, que é músico em Porto Alegre. Ele nunca teve muita paciência para me ensinar nada além de uns acordes e “Angie”, dos Rolling Stones. Nessa época eu gostava de Blitz. Aí, veio o AC/DC, Ozzy, Kiss e Iron Maiden e foderam com tudo. A dedicação headbanger me fez dedicar e aprender a tocar. Depois eu desaprendi um pouco para equilibrar. Sou autodidata e toco mal pro tempo que toco. Mas gosto do meu estilo (tocando guitarra).

O seu pai tocava o quê?
Meu pai tocava e toca baixo... violão e piano um pouco. Canta também. Sempre tive orgulho e sempre gostei dele ser diferente dos outros pais... na escola os outros sempre eram médicos, arquitetos, coisas assim... meu pai me mostrou muita coisa... Stones, Renato e Seus Blue Caps, Frank Zappa, Almann Brothers, Ten Years Afters, John Mayall, principalmente Cream e West, Bruce & Laing.

Mas você não toca mais guitarra no Polara e no Againe, por quê?
Sei lá. Foi assim que aconteceu... é mais difícil arrumar alguém pra cantar do que pra tocar guitarra... fora que ao vivo eu sempre fui um desastre com lance de afinação e tal... já até esqueci a guitarra mais de uma vez.

Quando você escreveu a sua primeira música?
Eu queria montar uma banda com meu avô Morvan. Fiz duas músicas na época. “O queijo ralado”, que era sobre dor de barriga e uma outra sobre um rei corcunda, que eu pensava ter duas bundas. Era de uma peça de teatro. Mas mais sério, foi com a primeira banda de verdade que tive, o Spektro, quando eu tinha 11 anos em Porto Alegre. A gente chegou a tocar em uns colégios por lá... o primeiro show foi sem bateria numa churrascaria, festa do Dia das Mães do Colégio Vera Cruz. A letra era assim: Caminho perto do cemitério / ao lado de casarões / tenho medo, mas nada provado / há alguma coisa de errado / vejo um vulto, ouço um ruído / estou sendo perseguido / sinto alguma COISA no ar / há spektro no lugar / spektros no lugar.

... e eu achava isso aterrorizante...hehehe.


As mães não se assustaram?
A minha mãe achava graça... meu pai tinha um pouco de medo que eu virasse músico... e não foi isso que virei. Só toco. Só isso. Amo a música, mas não me considero músico nem fodendo.

Como você era na adolescência? Algum trauma?
Minha mãe me trouxe para São Paulo aos 15 anos, em ‘88, meio que para me afastar de Porto Alegre. Vários amigos morreram, outros estão no tráfico... normal... sei lá de trauma. Não me arrependo de nada que fiz, mas não tenho por que ficar relembrando. Tive uma adolescência feliz e turbulenta. Não queria trocar por outra não. Sempre fui muito romântico e muitas vezes me fodi com isso. Tanto com as meninas quanto com a vida em geral.

Como foi a sua transição para São Paulo? Demorou pra se acostumar?
Sim, demorei. Mas hoje em dia sou feliz por ter vindo. Foi bem difícil no começo. Essa cidade parece que vai te engolir o tempo todo.

Como você conheceu os seus amigos e os integrantes das suas bandas?
Sei lá. Conheci por aí, na rua, nos bares, nos cafés, em brigas, nas casas de garotas e de outros garotos... muito forte pra memória lembrar isso, além de que ia levar umas 100 páginas. Sou lerdo para contar histórias.

Você cresceu escutando o quê? Que bandas você gostaria de ter escutado quando jovem?
Cresci escutando metal, hardcore, punk, new wave e suas variações... a música brasileira foi depois de mais adulto. Queria ter escutado o que escutei. Ozzy pra mim foi Deus.

Nunca fez uma cover dele?
A gente fazia Crazy Train, do Blizzard of Ozz... e do Sabbath incontáveis covers e vezes.

Poderia contar um pouco da sua trajetória musical...
Toquei em diversas bandas. Aqui em São Paulo, no Megaforce, Tube Screamers, Againe, Diluentes, e Polara. Toco no Againe e no Polara agora. Teve outras coisas sem tanta importância.

E qual é a importância que essas bandas têm na sua vida agora? O que ela ocupa exatamente em você?
Sou parte delas e elas de mim. Tanto que acredito nelas apesar de não tirar um tostão. Gosto de tocar. E é isso. Dedico parte do tempo a isso. Gostaria de dedicar mais tempo à arte. Mais e mais.

Como era crescer dentro da sua família, rígido?
Não. Minha mãe me teve com dezesseis anos. Separaram quando eu tinha onze... sei lá. Foi na boa.

Eles já assistiram ao seu show?
Minha mãe costuma ir e gosta. Meu pai faz muito tempo que não.

E você fica diferente no palco?
Claro que não. Minha mãe é demais.

O que o palco é pra você? O que você está pensando enquanto toca?
Palco é uma coisa suspensa, às vezes de metal, às vezes de concreto e às vezes de madeira. Fico tentando tomar cuidado pra não cair. Penso nas pessoas que vejo... se aquilo está dizendo algo pra elas. Penso na Marina... e às vezes não penso em nada. Essas são as melhores vezes. Pra não confundir...

E já caiu do palco alguma vez?
É claro que sim. Já cheguei a tomar mais de doze pontos. Caí no próprio palco. Quase sempre caio. Mas meu santo me protege sempre que pode.

Existe alguma diferença entre o Carlinhos no palco e fora?
Uma coisa é extensão da outra.

Nunca pensou em lançar uma gravação só das suas falas enquanto está no palco? Você fala com quem?
Eu nem sei o que falo. Vai saindo. Não teria paciência pra escutar... É tão difícil gravar e lançar um disco... quanto mais de fala... seria muita ego trip eu fazer isso... falo pra quem tá ali na hora... nunca pensei que fosse causar tanto. Gosto de me divertir... e acho engraçado ver como me levam à sério. Mas às vezes é para levar mesmo.

Estava brincando! Teve algum show que você sentiu intimidado?
Certa vez em um outro plano, onde a platéia eram só gansos gigantes.

Que outros artistas você gosta no palco?
Gosto do Flavinho do Forgotten [Boys]. Gostava do Xan e do Fred no IML. Gosto do Dan Lilker do Nuclear Assault, da Clara Nunes com aquelas roupas da umbanda, do Cartola Bonitinho, da Aracy de Almeida (cantando), da Maysa, da Luredz da Luz do Mamelo Sound System... Outro dia vi uma mina que é dançarina e faz umas paradas com fetiche, que foi a única coisa de bom gosto no mundo mais próximo ao pornô que vi nos últimos tempos, não sei o nome da mulher... Mas ela é chamada de Betty Page de os dias de hoje e namora o Marilin Manson. Sei lá. Tem uma pá de gente boa.

Dita Von Teese é o nome dela. Ela vai lançar uma nova marca de lingerie e um livro sobre fetiche e coisas assim. Você gosta?
Tenho meus fetiches. São meus e já não exponho eles assim publicamente. Senão perde a graça. Já de lingerie, só no corpo da minha mulher.

Existe algum músico que te inspira?
Têm os que gosto. Nunca tive muito isso não. O show do Make Up em São Paulo foi legal. Bob Marley é legal. Outkast é legal. All é ótimo. Acho que o Ozzy é o mais foda. Ah, sim, Ace Frehley....

Como são as groupies do Polara e do Againe?
A gente não tem groupie. Quem tem groupie é o Forgotten Boys. Nossos fãs são os amigos, gente da noite, e agora o povo mais jovem... mas não acredito ter um nicho mais classificável. Para os jovens é mais legal de tocar...tu sabe que o cara tá ali pra te ver, e não pra pegar um papel, uma mina, uma cerva e vomitar apenas... não tem problema nenhum nisso... mas tocar pros jovens é melhor. Tem que prestar atenção no que fala pra não dar mau exemplo... hehehe.

E você se considera um bom exemplo?
Depende da entidade regente.

Qual foi a última letra que você escreveu?
Escrevi uma letra pro Polara que não tenho aqui e não decorei ainda. Mas fala sobre perder a cabeça, assumir a culpa por ser mais fácil, socar a parede, não saber o que fazer depois de ter feito toda essa merda.

Como é um dia na vida do Carlinhos?
Qualquer coisa que tente fugir a porra da rotina. Café todos os dias. Observação. Tentar falar menos e ouvir mais. Amor. Paranóia. Café de novo. Dor de estômago. Insônia. Tentar comer comida de verdade. Comer porcaria quase sempre, comer legumes no pensamento. Às vezes vira verdade. Beber álcool nos fins de semana e quase sempre quebrar essa regra. Mexer no computador. Amor à minha musa e mulher. Se fazer de coitadinho. Fazer as vontades dos outro para vê-los felizes. Amor aos amigos. Álcool. Café. Arte. Desenhar. Pensar num som. Escutar som. Andar na rua. Cansaço. Fugir das tentações e bad vibezinhas. Insônia.

Onde você escreve? Existe alguma diferença de compor para o Polara e para o Againe?
Escrevo em qualquer lugar. Costumo sempre ter um caderno ou bloco... escrevo e depois vejo. É meio diferente sim... mas não muito. Sinto-me um no Polara e outro no Againe. O Polara é bonzinho, o Againe não. Mas é mais pelas bandas.

Você tenta evitar certas coisas na hora de compor as suas músicas?
Não, acho que não... escrever em português é difícil... pra virar Capital Inicial é um, dois. Evito palavrão. Mas não descarto. Ao vivo falo bastante.

Elas falam muito sobre drogas e amor também, verdade?
Acho que sim. Falam sobre o meu dia-a-dia. Sei lá de drogas. Drogas são chatas. Sabe aquele amigo chato que tu sempre dá um oizinho? É isso pra mim.

A gravação é capaz de passar o verdadeiro músico Carlinhos?
Gravação? Acho que com a guitarra era mais fácil. Mas fico feliz com o resultado... auto-critica é foda, fia!

E você não é auto-crítico?
Não. Sou artista.

Que outro tipo de arte você gosta? Algum evento tem mudado a sua vida recentemente?
Gosto das fachadas de loja (tipo aqueles de Aeroesol), gosto de imagens religiosas, menos de krshna, (os santinhos e umbanda)... Gosto de andar na rua, e isso me evolui diariamente.

Coleciona alguma coisa?
Rótulos, revistas antigas (praticamente de qualquer assunto...), lixo em geral... Não levo nenhuma a sério... só gosto. Perco tudo todo o tempo.

Você é religioso?
Religioso? Pode assim ser chamado. Sinto as coisas faz tempo. Energias, tal... Coisas que não se explicam. Tive alguns problemas que acabaram por me aproximar de Deus. Mas isso é uma coisa minha. Não prego nada. Só acho que os ateus e agnósticos só têm a perder. Cada um na sua.