Jim Black
Marcelo Garcia em 24.06.2006
A primeira vez que ouvi Jim Black tocar foi num show em Boston com o grupo Human Feel. Nessa época, o seu guitarrista Kurt Rosenwinkel ainda andava com os óculos remendados com fita durex e esses "meninos" ainda eram considerados apenas estudantes recém-formados, apesar de seus professores e ídolos, como Scofield, Metheny e Goodrick, falarem que eles seriam os instrumentistas da próxima geração. Havia um senso de urgência no ar de Boston com esses cabeçudos tocando em esfumaçados botecos da cidade, como o Willow Jazz Club e o Middle Eastern. Junto com eles, Medeski, Martin & Wood, que tocavam inicialmente para uma audiência igualmente cabeçuda, começaram a atingir os jovens que gostavam de acid jazz e música com groove, além daqueles que amavam um bom e longo show de música experimental. O MM&W atingiu o mainstream enquanto o Human Feel continuou a explorar territórios angulares, atonais e riquíssimos, ritmicamente.
Acho que com o grupo AlasNoAxis, Jim conseguiu uma plataforma harmônica e melódica para jazzistas de musica instrumental e vanguarda entrarem um pouco em contato com os seus sonhos de criança: ter uma banda de rock. Mas uma banda que dê espaço de sobra para as coisas acontecerem espontaneamente.
Jim, como baterista, viaja, leva o ouvinte e os músicos que acompanha a lugares inesperados. Explode, fazendo a banda espernear como uma criança mal-criada, mas mantendo o senso de um pulso imaginário que nunca é perdido, e, sempre, desenvolvido, dando a impressão de a banda funcionar como um organismo mutável e, acima de tudo, vivo.
"Eu tocando e escrevendo tem dado um sentido de clareza e precisão que eu não tinha antes"O que aconteceu com Human Feel?
A banda nunca terminou, apenas colocamos o grupo em pausa (por volta de 1994) depois de muitos anos tocando juntos para tocarmos em outros projetos e para realizarmos outros desejos pessoais. Na verdade, tocamos juntos dois anos atrás para fazer dois shows em Nova York e soou melhor do que nunca. Uma das razões por que colocamos a banda em pausa foi porque ficamos cansados de bater as nossas cabeças na parede tentando conseguir trabalho para o grupo – os nossos nomes não eram grandes o suficiente para conseguir promotores fora dos EUA. Com o passar desses últimos 10 anos as coisas mudaram, então o nosso plano é escrever música nova e fazer uma turnê pela Europa com o Human Feel esse ano.
Que tipo de coisa influenciava vocês naquela época?
Quando Human Feel começou, estávamos escutando Albert Ayler, Ornette Coleman, Steve Coleman e Thelonius Monk, só para nomear alguns. Mas essa foi a primeira banda com a qual eu tive a oportunidade de trabalhar e desenvolver música original, então, desde o primeiro dia, escrever músicas e desenvolver o “nosso” som era o mais importante.
Você tem tido bons resultados com o projeto do Human Feel e com os seus projetos solos, em termos de estilo e forma. Quais têm sido os comentários da sua audiência? Eles mudaram com os anos? Qual será o seu próximo passo?
Eu fico feliz em ver que AlasNoAxis tem uma grande quantidade de fãs, muitos que são fãs antigos do Human Feel. Pelo menos com o disco Habvor a maioria dos comentários que eu recebo são a favor ao fato de que a banda está tocando principalmente músicas sem muitas improvisações longas. Eu gosto de escutar improvisações e solistas, mas, como muitos de nós, eu também gosto da forma como o cantor/compositor se relaciona com a música, o que foi o foco do nosso último disco, mas sem voz. Eu estou atualmente em casa escrevendo música nova para a banda, tentando estender a idéia da música enquanto procuro uma forma de expressar as minhas idéias sobre como a melodia, harmonia e ritmo poderiam soar. Eu também gostaria de gravar um disco só de improvisação com essa banda, em algum momento.
Qual é o seu processo de composição hoje em dia? Soa como se a banda se desenvolveu durante o processo, harmonicamente e em termos de estilo, é bem bonito e pessoal, mas também parece que tem uma cabeça principal por trás de tudo.
Basicamente, eu escrevo as músicas e depois junto com o resto da banda e trabalhamos nelas como um grupo. Eu toco com Skuli, Chris e Hilmar há mais de 10 anos e eles são obviamente alguns dos meus instrumentistas, arranjadores e compositores favoritos, tanto quanto amigos. Eu preciso o máximo possível das idéias deles e eu componho com o potencial de som e possibilidade deles em mente. Eu só quero ter a primeira oportunidade de escrever o material.
Você está tentando atingir mais pessoas hoje ou você já chegou a um momento em que não se preocupa? A sua música era mais desafiadora tanto para os músicos como para a audiência.
Boa pergunta. Eu só posso fazer música com amigos que sentem o certo para nós, não importa o quão popular ou não popular, por dentro ou por fora, fácil ou difícil que seja para a audiência. O objetivo é ser honesto comigo mesmo e fazer música que 1) é o que eu quero escutar e 2) que eu acredito ser a melhor música que eu posso produzir naquele momento, não importa como ele é categorizado ou visto depois. Eu sei que algumas pessoas acham que uma banda como AlasNoAxis é muito simples comparada com o que eles esperam de mim depois de alguns anos, então eu só recomendo escutar outros projetos com o qual eu estou envolvido. Toda música diferente que eu quero tocar não cabe em apenas uma banda, o que naturalmente dá para cada grupo que eu tenho uma identidade e som que difere dos outros.
Você faz algum outro tipo de expressão artística além de música?
Não, ou pelo menos não por enquanto, música é o suficiente. Cozinhar conta?
Quais são algumas das suas primeiras memórias musicais?
Tocando guitarra que o meu pai fez pra mim de papelão. Também escutando muito um EP do Jackson 5 que eu ganhei numa caixa de cereal nos anos 70, tocando com a minha bateria de papelão com panelas. Obviamente o papelão foi uma influência importante.
O que levou você a escolher bateria e percussão?
O meu pai dizia que eu estava sempre batendo nas panelas. Então, bateria e percussão encaixaram bem com a idéia. Na verdade, eu nunca pensei em não tocá-los – é estranho. Eu escrevo a maioria das músicas do AlasNoAxis numa guitarra com tons diferentes, mas eu nunca saberia fazer um solo, nem se pagasse. Eu sou melhor no piano. Eu também amo mexer com eletrônicos e passei muito tempo do ano passado fazendo um programa para o meu laptop e bateria eletrônica para usar em improvisação.
Então você já introduziu samples ou algo eletrônico na sua música?
Sim, já usamos alguns desses instrumentos para improvisar e colocar a música nos últimos dois discos do AlasNoAxis. Eu tenho outros projetos que são todos baseados em samples, tento fazer os laptops e coisas do tipo responderem a um ambiente de improvisação utilizando diversos controles – tentando reduzir o tempo entre uma idéia e uma reação. O trio de Hilmar, TYFT, com Andrew D’Angelo, é um bom lugar para improvisar com os nossos instrumentos acústicos e eletrônicos. Eu também quero fazer um duo com Briggan Krauss (saxofone e laptop) e também com Skuli.
Rock parece estar presente no seu passado musical, é verdade?
Eu escutei rock clássico até os meus 13 anos e toquei em duas bandas de rock. Aí, um amigo meu de 15 anos começou a me infectar com jazz e improvisações e eu entrei numa banda de swing com meninos de 14 a 16 anos. Depois eu tive que descobrir como casar todos dentro de mim de uma forma que não houvesse um conflito, no qual eu ainda estou trabalhando.
Qual é a sua motivação? Ela varia?
Eu gosto de acordar todos os dias pensando em alguma questão musical. Nem sempre tem sido fácil, mas me faz procurar algo novo todos os dias. É muito difícil entender porque eu toco, eu decidi aceitar o fato e, enquanto eu amá-lo, irei continuar. Eu realmente gosto da troca e do laço entre os músicos e a audiência. Eu comecei a tocar porque estava procurando por algo que eu pudesse me identificar e expressar, de uma forma que eu me sentisse o mais natural – nunca fui muito bom em esportes.
Como você tem crescido como artista?
Um exemplo disso – depois que comecei a morar em Nova York por alguns anos, eu comecei a me concentrar no que era importante para mim artisticamente como um indivíduo versus constantemente tentando fazer sentido para caber na cena social/musical/mídia que muda diariamente. Eu tocando e escrevendo tem dado um sentido de clareza e precisão que eu não tinha antes. Ficar mais velho parece ser o segredo.
O que você pensa quando está no palco?
É bom quando eu estou apenas escutando e respondendo à música naquele exato momento em que estou tocando, assim não tem espaço para outros pensamentos que possam me distrair. Eu também fico consciente da energia do local e da audiência, e esses elementos me forçam a escutar mais profundamente para criar algo espontâneo e do momento no palco, não importa se estivermos ou não improvisando. Ás vezes pode ser um processo embaraçoso ir tão fundo dentro de você mesmo na frente das outras pessoas, mas eu acho que é isso que eles vieram ver e escutar. Constantemente eu me sinto estranho durante os aplausos.
Que lugares você tem gostado de conhecer nas suas viagens?
Portugal é muito importante para mim, gosto de sempre passar mais tempo por causa da cultura, das cores, da natureza e da velocidade que eles levam a vida. Islândia também pelas mesmas razões, apesar de que devem ser completamente opostos. Japão, Índia, Itália, França – para nomear alguns. Eu amo viajar e, secretamente, a ignorância que eu tenho quando chego a algum local onde nada faz muito sentido – uma dormência temporária do intelecto.
Você tem que deixar certas coisas da vida por causa das suas viagens?
Além do sono, dieta e exercício às vezes, não. Eu acho que quando eu era mais jovem e no colegial, as coisas mexiam mais assim. Sempre tinha algum tipo de sacrifício pelo o que você ganhava. Eu ainda gosto de morar no Brooklyn, mas eu também gosto de sair de lá. Eu tenho feito amigos no mundo todo e eu tenho sorte de voltar para casa para os grandes amigos e amados. A vida na rua pode alternar entre estilos de vida entre os ricos e famosos e inferno. Eu ainda estou curtindo esse estilo de vida.
O que você está redescobrindo?
O como é importante não me deixar pensar e me permitir entrar completamente na música enquanto tocando em qualquer situação. Não tem tempo para se preocupar com algo, se não eu não posso fazer uma outra nota. Eu tenho que lembrar de acreditar em mim mesmo e na minha experiência, assim tudo flui.
* Entrevista publicada originalmente na revista Coquetel Molotov #1