The Dead Superstars
Tathianna Nunes | Foto: João Z em 27.06.2006
Se a música de alguma forma é a extensão da alma, não há dúvidas que Orange Girls in the Blue City (Bazuka Discos, 2006) reflete os sentimentos de João Ramos (guitarra e voz), João Pena (guitarra e voz), Poliana Ojima (baixo e voz) e Rafael Oliveira (bateria) que, juntos, formam The Dead Superstars. Não estou falando de sentimentos complexos frutos de vidas complicadas. Na verdade, é o contrário. Tudo é simples no twee pop distorcido, e ênfase no distorcido, que eles inventaram. As letras e as melodias não têm segredos, mas chamam atenção exatamente na simplicidade e na sinceridade que são moldadas. The Dead Superstars é uma banda recifense de quatro amigos de colégio que descobriam que fazer música pode ser divertido. Orange Girls in the Blue City é um disco que fala apenas do lado bom do céu azul do Recife e de poucas garotas. Por enquanto a vida dos quatro amigos continua boa e simples como seu disco. Conversei com Rafael, que graças ao tempo livre, toma a frente do lado burocrático (marcar ensaios, shows, etc) do grupo. Falamos das poucas, mas boas influências dos meninos, da convivência e de Recife.
"Essa coisa de relacionamento, corações quebrados, é abordada por nós em apenas uma música "Por que montar uma banda?
Porque é fácil e mais divertido se expressar musicalmente com uma banda. Contar com seus amigos ali por perto, ter outras cabeças pensando para encontrar o melhor jeito de tocar determinada nota. Na verdade, tocar sem uma banda é muito solitário. É legal uma, duas ou três vezes, mas não dá pra agüentar fazer por muito tempo.
Diz a idade de vocês... Todos parecem tão novos.
João Pena, 21; Poliana, 21; Rafael, 20; e João, 20. Somos todos bem novos mesmo.
Durante o showcase na Saraiva, vocês falaram bastante de relacionamentos, corações quebrados. Vocês são tão novos para já terem vivenciado tantas experiências nesse sentido. Será que é algo mais a ver com a profundidade que se vive cada experiência? E até que ponto reflete na musica?
Em primeiro lugar, queria pontuar uma coisa: existe, por incrível que pareça, um afastamento da gente em relação ao que cada um dos integrantes faz. Todos os quatro estão sempre criando isoladamente, sozinhos, e não ficamos explicando o porquê delas para nós mesmos. Eu, por exemplo, faço coisas e não digo um "a" sequer a respeito. Odeio explicar as coisas. Então acontece o seguinte: existem coisas sobre as quais a gente não pode falar muito bem sem o próprio autor. Como sou amigo íntimo de João Eduardo (guitarrista e vocalista, um dos compositores mais assíduos), compreendo algumas coisas das quais ele fala musicalmente. Essa coisa de relacionamento, corações quebrados, é abordada por nós em apenas uma música (a segunda do disco, Electrotank). Compreendo como normal essa abordagem. Ele é um menino saudável que já amou e quebrou a cara (e o coração). Mesmo sendo muito jovem. As demais músicas, não falam sobre amor. Tenho um péssimo hábito, em particular. Péssimo hábito não: não sei escrever. Nem gosto, mas escrevi uma das musicas.
Você disse que sua verdadeira inspiração é o ambiente a sua volta, o Recife. Até que ponto Recife está realmente na sua música? O que é essa cidade para você?
Hoje, tudo que escrevo, é muito influenciado por Recife, por suas belas paisagens, pela sua alvorada, da qual eu tenho uma visão privilegiada todas as manhãs. Já compus varias músicas na varanda da minha casa, na cobertura. É sempre lindo e emocionante. Tem mais: como novos prédios vão sendo construídos, a paisagem vai se transformando. Isso é uma coisa que me fascina. Tenho uma colagem de fotos da minha vista, desde que eu cheguei aqui, em 99, até hoje. Tanta coisa já mudou viu. Li uma determinada frase uma vez, que dizia: “se você colocasse fones de ouvido e saísse por ai, passeando, você transformava a vida num videoclipe das musicas que você ta ouvindo”. O vídeo clipe desse disco que a gente gravou é recife. Mas, isso é pessoal. Se alguém pegar esse disco em Belém, Belém pode ser a trilha sonora do disco pra essa tal pessoa. No meu caso, é Recife.
Você falou apenas de um lado do Recife... O da tentativa cosmopolita, das belezas naturais. O outro lado não interfere na sua inspiração, criatividade?
É isso. O outro lado não interfere, e sou bem honesto ao dizer isso. Fiz vestibular pra Sociologia na UFPE, em 2003. Pensava ser sociólogo. Alguns desses outros lados de Recife, que a gente pode citar, são as favelas. Cresci ao lado de uma favela, a da Borborema, ali perto do interior de Setúbal. Outra favela que sempre chama a minha atenção é aquela que fica do outro lado do viaduto que passa em frente ao fórum Rodolfo Aureliano. Isso não me toca? Toca sim. Eu sou fascinado por essas coisas... Só não sinto vontade de fazer músicas.
Como falamos, vocês ainda são muitos novos. Há todo um processo de construção de identidade, aqui no caso musical, a caminho. Como está sendo esse processo para vocês?
Está sendo delicioso, porque cada dia é mais fácil tocar e fazer músicas, mas me sinto meio preso pra falar a esse respeito.
O que você está escutando?
Cat Power, mas eu ainda não ouvi o disco novo dela, The Greatest (Matador, 2006).
Chan influência você?
Sempre influência. Ninguém consegue decidir de maneira absoluta o que influencia ou não (mesmo que de maneira subjetiva) sua forma de fazer música.
Fora ela, o que mais?
Fora Cat Power, tenho ouvido American Analog Set, Yo La Tengo, Chaves. Por sinal, Chaves é muito bom.
Eu gostava, mas faz tempo que não escuto.
Eu também. Fazia muito tempo.
Mas, de alguma forma, tudo o que você citou faz parte de um mesmo grupo. Você nunca pensou em ir atrás de algo diferente para ampliar os horizontes?
Em primeiro lugar, eu não os acho tão parecidos assim. Aliás. Não os acho parecido mesmo. O que o ocorre é que são todos da Matador, né?
Não estou falando de pertencerem ao mesmo selo. Não é questão de ser parecido musicalmente, é está no mesmo lugar.
Respondendo de maneira pragmática sua pergunta: não. Não sinto nenhuma necessidade de ampliar meus horizontes. Sou hedonista, gosto de ouvir aquilo que me faz sentir bem. Fatalmente descubro algumas coisas novas, mas raramente corro atrás.
Concordo que é bom escutar o que nos faz bem, mas acho que existe algo em quem trabalha com música, principalmente em quem produz música, que aguce a curiosidade e desperte para ir sempre um pouco além.
Eu adorei aquele show do Berg Sans Nipple. Adorei o fato de ser uma coisa nova e de ter sido tão natural. Também ouvi, por muito tempo Jorge Drexler. Aquele sujeito que compôs a trilha de “Diários de Motocicleta”. São coisas diferentes, de diferentes lugares. Do Arcade Fire, eu corri atrás e peguei tudo que pude e adorei. Eles vão para o hall de coisas que escuto muito no momento.
A recorrente comparação com o som do Sonic Youth incomoda a banda?
Sim, incomoda. Na verdade, acho que sou o único incomodado. Os outros três brincam com quase tudo que acontece, então eles acham massa ser comparados ao Sonic Youth. Mas, eu, por outro lado, acho um reducionismo. Passeando pela Internet, não lembro se foi em um fórum ou em alguma matéria, li uma coisa que achei muito engraçada. Que jornalista tem tique de comparar bandas, e sempre tem aquele "modelo padrão". Quantas vezes tu não leu alguém dizer que uma banda X parece Los Hermanos? O fato em si de ser comparado com qualquer banda é indiferente.
Sei que existe uma certa preguiça da imprensa em geral, mas, às vezes, para apresentar uma banda nova, acaba citando referências...
Absolutamente. É isso que acontece com a gente.
Falando do disco, agora com ele nas lojas, recém-lançado... Para onde a banda vai? Qual é o próximo passo?
O segundo passo é o mais interessante, na verdade. Porque o primeiro vai ser pro estúdio, fazer música. Nós passamos MUITO tempo sem criar. Pré-produção, gravação. Aí, adoeci, só voltei a ensaiar agora para o lançamento. Estamos loucos para fazer música. O segundo passo vai ser tocar. Tocar mais do que nos tocamos nos anos passados. Organizar mais festas, tocar com bandas que a gente gosta, promover mais eventos, mais lances interessantes etc.
Isso é ótimo. Recentemente vocês fizeram dois tipos de shows: uma festa na ocasião do lançamento do disco e uma apresentação a la pocket show na Saraiva. Qual foi o formato que você se sentiu mais à vontade?
Mais à vontade foi no show. Não tocava desde o inicio de março, num show muito chato, burocrático, lá na Macuca, em Garanhuns. A gente viajou, pegou um dilúvio, esperou horas num posto. Cheguei morto lá, e, para piorar o show foi ruim. Por isso, pela vontade que estava de tocar, para o show de lançamento, na sexta, eu tava numa instiga muito. Sábado, na Saraiva, foi lindo. Tantos amigos compareceram, eu estava super descansado, o ambiente era muito confortável, mas eu tive que tocar como eu nunca toquei: bem fraquinho... por causa das características da sala e acabei errando muito. Mas, gostei tanto que estou doido pra voltar a fazer um show naquele esquema. As pessoas que viram também gostaram muito da clareza e da definição das coisas. Do modo que ouviram bem os arranjos, essas coisas.
Sobre a banda, o que cada um faz da vida?
João Eduardo estuda Física na Universidade Federal de Pernambuco e dá aulas pra algumas turmas. João Pena estuda Direito (coitado) na Aeso e trabalha numa vara da família. Poliana estuda Ciências ambientais na UFPE e é estagiaria num laboratório de lá mesmo. Já eu não faço nada da vida, por enquanto. Vou estudar áudio no inicio do ano que vem e vou fazer faculdade de alguma coisa. Provavelmente rádio e TV.
Sei que é difícil responder pelos outros membros, mas como vocês eram no colégio? Pode responder só por você mesmo, mas se souber de um que apanhou conta...
João Eduardo e Poliana eram os maiores nerds. Nunca iam pra recuperação, nem matavam aula. Nós quatro estudamos no mesmo colégio, mas Poliana era um ano na frente. Eu e João Pena estudamos na mesma sala, junto com Daniel e Marcio (Retrovisores). Era a maior festa que você pode imaginar!
Bolinha de papel? Puxar a cueca? Essas coisas?
João era o mestre da bolinha de papel. Ele grudava bolinhas de papel no teto. Eu ficava mais dormindo mesmo, os professores não gostavam muito não. Mas, o legal mesmo era matar aula. A gente ficava horas a fio conversando, fazendo planos.
Bom, para terminar: caldo de cana ou maltado da galeria?
Maltado, claro.