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Konono Nº1
André Maleronka | Foto: Divulgação em 03.07.2006



Formada há mais de 25 anos em Kinshasa, capital da treta que é a República Popular do Congo, a Konono nº 1 foi descoberta agora graças ao disco Congotronics (Crammed Records). O som do grupo é um ritmo tradicional chamado bazombe em uma versão distorcida, graças às suas kalimbas amplificadas.

Uma kalimba (ou likembe) é um piano de dedo: teclas de metal e uma caixa de ressonância (como o corpo de um violão). Eles usam três, com afinações grave, média e aguda, todas ligadas em um sistema de som construído com o que podia ser encontrado nessa verdadeira zona de guerra. O resultado foi comparado com o rock e a música eletrônica de vanguarda e as percussões brasileiras.

O líder, Mawangu Mingiedi, desenvolveu o equipamento: amplificadores caseiros, baterias de carro, megafones, panelas e pratos de metal. A história da banda diz muito sobre o passado recente da África, e mais ainda sobre seu futuro, como você pode conferir no papo a seguir, travado com a ajuda imprescindível do empresário deles, Michel Winter, já que o pessoal só fala em um dos vários idiomas bantus.


"O que dá ao Konono Nº1 esse som é como ele é amplificado: pegamos elementos de motores velhos de carros, essas coisas. Usamos o que tinha, porque dinheiro não havia nenhum. "

Quando vocês começaram a tocar na Europa?
K: Há três anos atrás teve um festival em Bruxelas focado no som do Congo. Vincent Kenis, o maior especialista em música congolesa do mundo sabia sobre o Konono, mas todos achavam que o velho Mingiedi tinha falecido, até que alguém descobriu que ele era porteiro em um prédio, há três anos atrás. Foi maravilhoso! Desde que o disco saiu, jornais dos Estados Unidos e da Europa estão pirando no som! Pra mim é um prazer de verdade mesmo, eu amo essa música e agora to descobrindo que todo mundo também ama!
M.W: Quando eu fui pra Kinshasa havia um cara, Buaku Ningulu, auto-intitulado ‘Presidente’, que era meio que o dono da banda, tipo um ditador. Ele dava pro grupo um pouco de dinheiro, mas só o suficiente pra sobrevivência, e mantinha todos morando na casa dele. Assim ele controlava a banda. Quando eu cheguei lá, tentei acabar com isso porque eles não estavam satisfeitos. Quando eu falei quanto dinheiro eles ganhariam, ficaram felizes e entenderam que provavelmente o dinheiro não ia pra eles com esse cara na parada. Aí eu falei pro tal Presidente: ‘você não vai à turnê, você não é um músico, não sabe ler ou escrever, você não vai poder ajudar em nada’. Por conta disso, tivemos muitos problemas. Quando eu voltei de Kinshasa a gente já tinha tudo combinado. Mas aí, o cara pegou todos os instrumentos e escondeu. Duas semanas antes de eles virem pro Brasil eles não tinham mais nada. Eu tive que mandar US$1.000 pra eles. Assim, o velho pôde descolar outra casa e construir todos os instrumentos de novo: as timbas, as kalimbas e os alto-falantes, tudo!


E onde tem shows marcados?
K: Agora tivemos três meses de turnês na Europa. A primeira parte foi com o Tortoise. E em setembro fomos para os EUA, depois Japão e Austrália.

Vocês tocaram com o The Ex também.
K: Fizemos dois shows juntos na Holanda, dessa primeira vez em Bruxelas. O povo do The Ex quer continuar o trabalho conosco, e o pessoal do tecno underground de Detroit tá organizando algo, alguns remixes talvez.

O estilo de vocês foi comparado ao kraut rock e a música eletrônica. Vocês chegaram a escutar esse tipo de coisa hoje em dia? Acham que tem alguma semelhança?
K: Eu só escutei música congolesa em minha vida inteira. Acho que são as pessoas da cena eletrônica que vêem as semelhanças, mas até agora eu não sei nada a esse respeito.

Esse ritmo é do Congo?
K: Antigamente não existiam fronteiras entre Congo e Angola. No antigo Reino do Congo, essa era a música feita para o Rei dançar. Depois foram construídas as fronteiras, mas você ainda encontra os mesmos ritmos em toda essa área. Essa é a música tradicional do Baixo Congo, que vai da fronteira até Angola.

Existem outros grupos como o Konono no Congo?
K: O que dá ao Konono Nº1 esse som é como ele é amplificado: pegamos elementos de motores velhos de carros, essas coisas. Usamos o que tinha, porque dinheiro não havia nenhum. No Congo, especialmente em Kinshasa, existem muitos grupos diferentes, que vêm de todas as partes do Congo pra lá, com suas próprias tradições, cada um com seu próprio lugar pra tocar, e existem muitos estilos diferentes. A rumba era muito popular lá, mas hoje em dia está em baixa. A nova geração da rumba não é interessante de verdade. Por sorte, agora todos esses grupos estão em ascensão, e isso é uma coisa boa.

Como vocês começaram a usar essa amplificação?
K: Nós queríamos ser escutados por todo mundo, e Kinshasa é uma cidade muito barulhenta. Começamos usando transmissão por rádio, mas o sinal não funcionava bem. Aí achamos uns captadores de guitarra, que estavam começando a aparecer no Congo. Isso foi em 1965.

Como se aprende a tocar a kalimba?
K: Eu aprendi sozinho, aí ensinei pros meus filhos, meus netos e para os outros.

As letras falam do quê?
K: "Kule Kule" conta a história de uma garota que quer se casar apesar da desaprovação do pai, que responde: ‘ok, você pode ir com ele, mas depois não reclame’. Outra é sobre um marido que fala pra esposa: ‘se você vai embora, leve as crianças junto, porque não quero te ver voltando’. "Lufuala Ndonga" é sobre a morte de um monte de gente e também sobre uma pessoa que morreu sozinha.

O que significa o nome do grupo?
K: É difícil de explicar, não existe tradução. Mas é a posição que você faz quando está com muito medo de alguma coisa, acuado e se protegendo como um feto. É isso que Konono quer dizer.

Mais informações: www.crammed.be/konono