Hell on Wheels
Ana Garcia e Tathianna Nunes em 07.07.2006
Em setembro do ano passado, eu, Tathianna Nunes, fui convidada para jantar na casa de Johan e Åsa. Como não sabia andar pela cidade, Rickard foi me buscar em uma estação de metrô e lá denunciou o prato principal: Alce ao molho de pimenta acompanhado com batatas amassadas. Ui. Chegando lá, havia duas garrafas de pitu sobre a mesa e mais dezenas de garrafas de vinho, licor, vodka, entre outros destilados. Na verdade foi um alívio! Só assim teria coragem de comer carne de Alce... Pobre Alce. Na casa deles, encontramos pilhas e mais pilhas de discos entre sandálias havaianas e bandeiras de Pernambuco e do Brasil. As sandálias haviam sido um presente de Thiago (ex-Coquetel Molotov) e Luciana Veras (grande amiga e jornalista do Diário de Pernambuco). Já, as bandeiras foram compradas pelo casal em turnê no Brasil. Durante o jantar, relembramos o show de Recife, os passeios em São Paulo e Curitiba. Ao fundo, estava tocando “The Odd Church” ainda não masterizado. A impressão era que eles estavam melhores que nunca. A voz de Åsa nunca havia soado tão angelical, o estilo único de Rickard de cantar e tocar estava mais presente e a bateria de Johan estava mais livre, embora bem moldada nas melodias e vocais. Porém, depois de tanta bebida, pensei na possibilidade dos sentidos poderem me enganar. Tanto que no outro dia fui acompanhar os retoques de "Heard You on the Radio" e "Come On", mas a impressão continuava a mesma. O Hell on Wheels encontrou sua melhor forma no disco The Odd Church. Recentemente, Ana Garcia conversou com a banda sueca mais querida pelo Coquetel Molotov sobre o novo disco e a mudança de produção, selo e outras coisinhas.
"A nossa intenção sempre foi sentir o mais “ao vivo” possível, por isso que gravamos a bateria, baixo e guitarra juntos "A última vez que nos encontramos foi no Brasil, o que tens feito desde então? Tocando muito?
Åsa: Sim! Tocar e estar no Brasil foram a melhor coisa do mundo! No final de 2004 fomos para o Japão, os EUA pela segunda vez e fizemos alguns shows pela Europa antes de começarmos a gravar The Odd Church. Rickard e eu começamos a treinar alguns esportes e começar a tomar conta da nossa nova vida saudável, mas continuamos a fazer caipirinhas em casa. Na verdade, eu tive quatro caipirinhas bem preparadas na nossa minivan que pudemos beber quando chegamos em um festival que tocamos nesse sábado.
E o que está acontecendo na Suécia?
Åsa: Você quer dizer com a cena musical? Tem tido muitas duplas eletrônicas com laptops e/ou utilizando Ipods. Principalmente dois homens, como The Embassy. Ou bandas de indie pop com muitos integrantes, como I’m From Barcelona. Hell on Wheels passou a maior parte de 2004 fora, 2005 no estúdio ensaiando e 2006 na estrada pela Suécia e Dinamarca, mas ainda desejamos sair daqui para visitar o Brasil novamente.
Vamos falar do The odd Church. Por que esse título?
Rickard: Quando fizemos o primeiro álbum pensamos muito no que ele deveria se chamar. Então, decidimos bem cedo como esse disco deveria se chamar. O nome é inspirado pela igreja da capa, a igreja St. Botvids da nossa cidade. Parece uma construção estranha e foi desenhada como um marco para os navegadores. Oxelosund é uma cidade na costa, que eles esqueceram de bombardear. Venha Armageddon, venha!
A banda parece que se acalmou um pouco, vocês concordam?
Åsa: Prestamos mais atenção as melodias do que nunca, não estamos mais calmos ao vivo, a não ser na forma que aparentamos, eu acho... Mas talvez isso seja no disco. É muito difícil dizer. Não queríamos tantas guitarras no disco e queríamos que soasse como um grupo com três integrantes, mas é legal ter outros sons como o de órgão de vez em quando.
Vocês acham que amadureceram?
Rickard: Não, estamos mais infantis!
Você parecem ter expandido as suas influências, pode falar um pouco sobre isso?
Åsa: É tão bom escutar isso! Na Suécia eles continuam escrevendo Pixies, Pixies, Pixies, na hora de escrever sobre o disco, mas uma resenha americana citou pela primeira vez a banda The Go Betweeens. Sempre escutamos tipos diferentes de música, então se isso não estava óbvio antes talvez nos mudamos ou é o resultado do fato de que produzimos esse álbum muito mais que os anteriores.
Vocês estão soando muito bem! Åsa está com a voz tão linda!
Åsa: Muito obrigada, eu amo cantar!
Também achei o disco mais bem produzido. Acho que os outros pareciam mais cru, vocês concordam?
Rickard: Pelo nosso ponto de vista, esse é o disco menos produzido, pelo menos é assim que sentimos já que pudemos tomar as nossas próprias decisões. As músicas guiaram o caminho, o foco foi completamente nas músicas, nas melodias e harmonias dos cantos entre Rickard e Åsa. É difícil para nós analisar depois que o disco saiu. A nossa intenção sempre foi sentir o mais “ao vivo” possível, por isso que gravamos a bateria, baixo e guitarra juntos. Cantamos também, mas isso nunca guardamos. Tentamos manter o calor e a emoção de um show ao vivo. Também tentamos colocar a música numa fita o mais rápido possível depois que ela é feita, com menos tomadas possíveis para manter a intensidade. Nunca gravamos uma demo antes de entrar no estúdio e nunca gravamos mais músicas do que as que aparecem no álbum. Não gostamos de gravar músicas que não estão 100% antes de entrar no estúdio.
Mas eu acho que Oh My God soa mais cru que esse, ele foi produzido por Pelle Gunnerfeldth (Fireside, The Hives, Randy, Sahara Hotnights).
Como tem sido trabalhar com o seu produtor?
Åsa: Desde o começo ele era apenas um engenheiro de som, mas não demorou a querer produzir todos os quatro. Tivemos muitas brigas no começo, mais do que estamos acostumados, mas tudo se resolveu bem. Marcus Ingberg é o nosso engenheiro de som quando tocamos ao vivo desde 2003 e utilizamos o seu estúdio pequeno. Ele é parte da família e muito fácil de lidar. Chamamos Marcus de bebe Jesus, mas isso é uma longa história...
Alguma música saiu de alguma forma inesperada?
Åsa: Não esperamos muita coisa, na verdade, mas o piano de Elvis Costello/Abba e o choro russo na música “Alexandr” foi uma surpresa. A serra na música “Stealing Notes” também... E quase não ensaiamos a música “Tuesday” antes de gravá-la, então a música em si foi uma surpresa.
Sobre o que vocês estão cantando na maior parte do tempo?
Rickard: A maioria são sobre eu entrando em encrencas.
Parece ter muitos adeus, as letras estão mais escuras...
Rickard: Não foi a minha intenção fazer letras mais escutas, acho que foi a forma que aconteceu. Eu escrevo letras como um conceito todo. O que sai é o que sai, é uma terapia para mim. Eu ainda acho que tem um lado humorístico, sempre tem muito humor na depressão. Com relação a adeus, é, eu sinto que o meu trabalho nesse planeta terminou. Eu vou voltar para Krypton. É muito difícil encontrar um bom café aqui na Terra.
Como vocês sentem que estão crescendo como artistas?
Åsa: Eu acho que estamos simplesmente melhorando, mas sempre nos desenvolvemos bem devagar... A rotina pode ser perigosa também, eu espero que a energia continua no futuro.
Quais são as suas motivações? Elas variam?
Åsa: Quando começamos não tínhamos motivações além de ensaiar duas vezes por mês, depois começamos a fazer alguns shows e Johan começou a sonhar muito em lançar um 7”. Percebemos que mais entramos nesse mundo, mais queremos algo. Depois do maravilhoso ano de 2004, decidimos querer fazer mais shows fora do país. Claro que queremos que a música se espalhe, queremos muitos fãs e queremos receber de volta o dinheiro que gastamos na gravação, pagar o estúdio também.
Vocês poderiam educar os nossos leitores e indicar alguns artistas que são importantes para vocês?
Åsa: Pixies, Neutral Milk Hotel, Arcade Fire, Essex Green, The Shins, New Order, The Go-Betweens, Soft Boys, Elvis Costello, Patti Smith, Os Mutantes, OMD, Housemartins, is what I think about right now.
Rickard: Elvis Costello, Shellac, Rufus Wainwright, Jesus Lizard, The Go-Betweens, Kurt Vonnegut, Dead Kennedys, Gladys knight & The Pips, Hot Chip, Mary Poppins, Mates of state, Mission of Burma, The Monochrome Set, Prefab Sprout, Richard Hell And The Voidoids e THE SPARKS!!!