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Os Poetas Elétricos
Palavras: Viviane Menezes | Foto: Giovanni Sérgio em 22.10.2006



Carito e Edu Gómez são dois artistas de Natal – RN, que já vêm trabalhando desde a década de 80 em alguns projetos musicais como, por exemplo, o da extinta banda Modus Vivendi. Em 1995, eles resolveram dar inicio ao que foi chamado de “Poemas Eletri-Ficados & Outros Que Foram Embora”, que consiste fundir música com poesia. Carito é o homem da palavra e Edu Gómez da melodia e juntos fazem canções que passeiam principalmente pelo universo do rock.

Em meados de 2004, com produção própria, eles registraram o trabalho em estúdio. O nome do disquinho saiu do projeto original - “Poemas Eletri-Ficados & Outros Que Foram Embora” e foi lançado pelo selo potiguar Mudernage Discos. Logo eles concorreram ao prêmio London Burning (RJ) em duas categorias: Melhor Disco de 2004 (ficaram em terceiro lugar) e Revelação Brasil. Confira agora a entrevista que fiz por e-mail com Carito.


"A composição pode partir de um arranjo de Edu e ele 'chamar' o poema, que por sua vez pode já existir ou ser criado naquele momento. Noutras vezes o poema inspira Edu a criar uma atmosfera sonora para o personagem, para a história... "

Como surgiu essa proposta de mesclar poesia e música?
Eu e Edu fazíamos parte de uma banda de rock em Natal, nos anos 80 e 90, chamada MODUS VIVENDI. Em 1995, começamos a fazer um trabalho paralelo misturando poesia e música de forma experimental mesmo... Sem saber no que ia dar. O Modus Vivendi já tinha uma veia poética, performática e teatral, mas eu e Edu sempre tivemos muita cumplicidade, uma afinidade musical maior e uma química de criação muito forte, e resolvemos "enlouquecer" mais, brincar mais com as palavras e sons, transcendendo a estética rock vigente ou qualquer outra estética musical. Mas sem grandes pretensões. Era algo muito simples e louco ao mesmo tempo, como todo exercício de liberdade criativa.
Eu já fazia trabalhos de poesia, participando de livros, fanzines, jornais, etc. E Edu já tinha claro uma necessidade de experimentar cada vez mais e mais sons, buscando novas texturas, timbres, efeitos, grooves... Criando, inclusive, um "brain storm sonoro" de trilhas e coisas afins, às vezes sem nem saber onde ia usá-las. Edu já tinha toda uma paixão por trilhas sonoras. Na época ele fazia também jingles e trilhas publicitárias. Ele também fez cursos no IAV (Instituto de Audio e Video) em São Paulo, e partir daí passou a ter uma boa experiência em gravações, estúdios, essa coisa toda. Então criamos o projeto "Poemas Eletri-Ficados & Outros Que Foram Embora".
Começamos a gravar no estúdio que Edu tinha na época. Na maioria das vezes na madrugada, quando o estúdio estava livre. Não notávamos o tempo passar e era comum sairmos do estúdio de manhã, ainda tendo que ir trabalhar cedinho... Passávamos a noite inteira experimentando e no final tínhamos uma peça de 2 minutos. Era algo viciante, extremamente prazeroso. Não sabíamos se as pessoas iam gostar, mas nós adorávamos fazer aquilo.


E como fizeram os primeiros registos oficiais dos Poetas Elétricos?
Os primeiros trabalhos vieram dessa época. Em 1997 participamos de alguns recitais, saraus e afins. Mas ainda de uma forma bem simples, meio minimalista em vários sentidos, além de, claro, sempre experimental. Com uma bateria eletrônica, a guitarra, a voz, a cara e a coragem. Depois a coisa toda ficou meia em "stand by"... Em 1999, o Modus Vivendi acabou. Pouco tempo depois Edu também deixou a outra banda que ele participava (a Mad Dogs). Ficamos fora da cena um tempo, mas continuamos amigos e sempre trocando idéias artísticas. Em dezembro de 2003, depois de tantos telefonemas e alguns encontros "in loco" ficamos "in loucos" de novo e de velho, e resolvemos voltar à cena, ou pelo menos ao re-fazer artístico. Sentimos que o que mais sentíamos falta e verdadeiramente nos importava era o trabalho experimental de "poemúsicas".
Edu procurou a fita DAT com os primeiros rascunhos gravados, a qual estava perdida. Entramos em um novo estúdio para recuperar o material encontrado e oficializar o registro no novo formato de gravação. Ao escutar o trabalho, fomos imediatamente seduzidos por ele, como se não fôssemos os autores... E de maneira muito espontânea e também muito visceral, fomos novamente criando e recriando... Resgatamos as peças antigas, criamos peças novas, nos intitulamos "OS POETAS ELÉTRICOS", e resolvemos dar o nome do projeto original ao título do primeiro CD: "Poemas Eletri-Ficados & Outros Que Foram Embora". O CD foi magicamente aparecendo, tomando forma, meio que nos mostrando sua existência como uma conseqüência natural do que estava acontecendo. Ficamos viciados outra vez na criação. E a criatura, como sempre, tomou vida própria.


Quais seriam as grandes influências de vocês na música?
São muitas. E as influências não aparecem assim de uma forma tão direta. Consideramos influências tudo que escutamos que lemos que assistimos que vivemos. Em música, o rock sempre foi nossa nascente comum. Mas nessa correnteza, muitas águas rolaram, pois sempre tivemos um pé no "clássico" (do underground) e outro no (quase) novo. Então sempre bebemos da fonte do hard, progressivo, rock and roll, punk... Muito anos setenta como base... Rita lee, Mutantes, Terço, Casa das Máquinas, Joelho de Porco, Led Zeppelin, Pink Floyd... E muita vivência nos 80, quando estivemos atuando fortemente na cena "pop-tiguar" com o Modus Vivendi. Então vivemos na pele toda a onda Cazuza, Lobão, Barão, Hanói Hanói, IRA, Titãs...
Mas também éramos muito atraídos pela coisa mais undigrudi: Mercenárias, Fellini, Violeta de Outono, Arrigo Barnabé... São muitas referências e reverências. Edu já tem também uma ligação forte com o blues. E como guitar man, com os seus guitar heroes: Joe Satriani, David Gilmour, Jimmy Page, Jimmy Hendrix, Van Halley, Robert Fripp, The Edge, Steve Ray Vaughan, Steve Morse, Steve Vai... e por aí vai.. E vem! Já eu tenho um namoro antigo com... Para usar uma expressão Arnaldiana... Com a "estranhaleza"... A estranha beleza... A melancolia mineira de Lô Borges e cia, a coisa meio dark do Cure, as sensações provocadas pelos trabalhos do Mercury Rev, Arnaldo Baptista, Portishead, John Frusciante... A psicodelia regional da Nação Zumbi, o realismo fantástico e épico de Zé Ramalho, o lirismo de Chico Buarque...


E na poesia?
Nessa alegria triste, o rio deságua num oceano de poesia: Cecília Meirelles, a cena francesa que "aRimbaud" a festa... Fernando e outras Pessoas que já brincam com as palavras de uma outra forma - Arnaldo Antunes, Walter Franco, Tom Zé, Itamar Assumpção, Paulo Leminski, os irmãos Campos... e sem falar nos não falados: gosto, por exemplo, de um poeta de Mossoró (cidade do interior do RN) chamado Gustavo Luz - um beatink do sertão!!! E eu e Edu também gostamos de coisas não só passadistas, mas também mais contemporâneas, e principalmente atemporais: Bjork, Massive Attack, Durutti Column, Pepe De Luxe... E se rolar de gostarmos de coisas mais novas e mais pops como Pitty e Los Hermanos... Então estamos sempre abertos à música e à poesia de atitude!!! Estamos sempre escutando, reescutando, falando por telefone, jantando música, ensaiando vida misturada com arte... Na vida imitando a arte e vice-versos...

Qual o primeiro contato que vocês tiveram com música? Imaginaram algum dia fazer o que estão fazendo agora?
Meu primeiro contato foi com uma banda natalense chamada Fluidos, no início dos anos 80. Foi uma das primeiras bandas de rock do RN. Eu me orgulho muito de ter participado dessa banda. Foi minha descoberta enquanto artista... a coisa do palco, da performance, e da criação coletiva. Tinha toda aquela magia adolescente: "Porra! Eu faço parte de uma banda de rock". Já Edu começou logo depois. Ele fazia parte da galera que tava lá nos ensaios do Fluidos, nos shows, nos bastidores. Edu começou em bandas de rock de garagem. Mas ele já tinha a inquietude desde cedo e partiu logo para uma coisa mais modernosa na época: criou uma banda que misturava guitarra pesada com funk, chamada Banda Z. Nessa época eu já participava do Modus Vivendi e aí o convidamos para entrar no Modus, em 1988. A partir daí nos tornamos parceiros e amigos. Mas não imaginávamos que íamos fazer esse trabalho dos Poetas, embora naturalmente caminhássemos para isso. Na verdade, acho que nunca imaginamos o que vamos fazer. Agora já "suspeitamos" mais o que "pode" acontecer. Mas deixamos "o que vai rolar" rolar da forma mais espontânea possível. E se a criação nos surpreender... Melhor ainda!

Como é o processo de composição? O que é mais difícil de fazer na hora da composição, a poesia ou a música?
O prazer de "estar fazendo" acaba norteando o processo. Se estamos tendo prazer, a coisa naturalmente rola. E pode ser de várias formas. A composição pode partir de um arranjo de Edu e ele "chamar" o poema, que por sua vez pode já existir ou ser criado naquele momento. Noutras vezes o poema inspira Edu a criar uma atmosfera sonora para o personagem, para a história... Ou para o sentimento que a peça vai passar... ou simplesmente o texto sonoro realça uma sensação iniciada pelo texto literário agora oralizado... Ou provoca essa sensação! Aí a coisa se mistura num jogo lúdico de sons e palavras. Acho o Edu genial. Ele fabrica sons fantásticos e é um verdadeiro poeta da guitarra, de onde sai sons inusitados. Além disso, ele gosta muito do que eu escrevo se identifica com a linguagem, com os personagens... Somos fãs um do outro e nos respeitamos muito. Isso, com certeza, se reflete no processo de criação.
Deixamos sempre abertas as portas da percepção. Porque também nunca fechamos o processo de criação. Às vezes fazemos uma peça, digamos "de primeira". Mas mesmo assim deixamos ela aberta para o refazer artístico. Edu sempre cita um produtor que diz que um disco não se termina, se abandona. Então chega uma hora que abandonamos a criação, para poder seguir. E ainda assim ela continua nos fornecendo novos elementos, mesmo depois de um tempo de aparentemente finalizada.


Vocês também costumam entrar em estúdio unicamente para criar e ver um novo resultado?
Tanto podemos ir gravar já tendo uma idéia do que queremos fazer como também podemos ir gravar sem nem saber o quê. E é muito legal também isso: chegar no estúdio sem noção do que vai acontecer e sair de lá com uma "poemúsica" nova. Entendemos o processo de criação de uma maneira mais ampla, e podemos criar num telefonema, falando sobre uma idéia, produzindo uma estrutura para uma "poemúsica" enquanto conversamos. Andamos sempre anotando coisas, e também com um gravador portátil vomitando as idéias. E também conseguimos desenvolver uma certa disciplina e racionalidade para o processo de composição: marcamos dia e hora para compor e aí rola. É espontâneo e provocado ao mesmo tempo. A inspiração e a transpiração caminham de mãos dadas numa grande piração. E como dizia o Chico Science: "eu me organizando posso desorganizar".

Alguns artistas como Fagner, Chico Buarque, Secos e Molhados, entre outros, já musicaram poema de poetas consagrados. Mas inicialmente são poesias que se transformaram em música. Como funciona com vocês?
Acho que acabamos provocando essa nossa química particular entre a poesia e a música, na medida em que criamos ou buscamos nos nossos bancos de dados esse diálogo. Intuitivamente escolhemos uma linha poética cúmplice da linha sonora. Sabemos que existem os conceitos de poesia declamada (que é o mais convencional), poesia musicada (os casos que você citou acima), poesia sonora (que é mais experimental, cujo texto poético/sonoro não segue a lógica dos casos anteriores) e a própria música experimental. Acho que fazemos, de forma intuitiva e espontânea, um pouco de tudo. Temos peças que podem estar associadas mais a um ou outro conceito, e outras que misturam os conceitos sem "pré-conceitos".

E os shows como são?
Fizemos o show de lançamento do CD no Papary Jazzy Festival em Natal, em agosto de 2004. Nesse show fizemos algumas versões no formato banda, que transcenderam ao original do disco, algumas vezes quase que se transformando em novas peças. Em outros momentos buscamos a sonoridade do CD, do estúdio, trabalhando também com bases pré-gravadas.

E a reação da platéia?
Muito legal! É mágico porque as pessoas que vão assistir esse tipo de trabalho estão muito abertas e fazem questão de estimular a continuidade do projeto. E sentimos que todos sentem prazer junto conosco. Isso acaba gerando também improvisos e um clima de celebração que tem tudo a ver com o espírito poético e performático dessa multlinguagem.
Tem toda uma linguagem teatral e multimídia: projetamos imagens, há interferência de outras artes (nesse show o artista plástico potiguar Flávio Freitas pintou a parede de fundo do palco enquanto os artistas gráficos da agência de publicidade Pandora projetavam um vídeo no teto, criado especificamente para o show). Houve um momento desse show que procurei reproduzir um efeito vocal de uma "poemúsica" de forma artesanal e improvisada, que foi fruto também de uma reação daquele momento, enquanto assistia as imagens projetadas no teto, que por sua vez estavam ali de forma aleatória...


Existem outras bandas semelhantes a vocês na cidade ou fora dela?
Em CDs não conhecemos muita coisa. Em Natal, sabemos que existe um trabalho também experimental do poeta Carlos Gurgel que faz uma espécie de recital com muitas percussões. Há também uma banda potiguar chamada Rosa de Pedra que faz apresentações poético-musicais, dentro de um espírito mais regionalista. Há O Cordel do Fogo Encantado em Pernambuco, Cid Campos em Sampa... Arnaldo Antunes que é o caso de maior projeção... E os resultados são todos diferentes do nosso e também entre si. Deve haver mais. Principalmente em termos nacionais. Mas ainda não conhecemos. Esse trabalho dos Poetas Elétricos, na verdade, não só nos devolveu à cena, como também ao consumo poético-musical. Tem rolado muita coisa nova que só estamos conhecendo agora ou que, como falei, ainda nem conhecemos. Mas com a internet, a comunicação se torna mais rápida e democrática. É só uma questão de tempo.

O que vocês esperam da banda no futuro? Você, particularmente, não tem medo que a fórmula se desgaste?
A partir do momento que o CD passou a ser aceito de forma significativa, começamos a nos cobrar uma espécie de continuidade do compromisso considerado por várias pessoas como inovador. Então às vezes rola uma inquietação nesse sentido, quando pensamos no segundo CD, por exemplo. No entanto, o mais importante é a vontade, o prazer, a honestidade com nós mesmos. Se gostarmos do resultado, então estamos satisfeitos. Não importa se é inovador ou convencional. Pode ser experimental, pode ser pop... Pode ser até uma "poemúsica" para dançar ou tocar no rádio. Ou uma coisa ainda mais louca do que o que já fizemos até agora. Não queremos nos amarrar em nenhuma fórmula.

Uma mensagem para o público do Coquetel Molotov...
Vamos fechar ex-citando Leminski: distraídos venceremos!

Website:
http://www.ospoetaseletricos.com.br