Battles
Palavras: Patrício Urzúa (super45.cl) em 01.11.2007
Ian Williams toca guitarra e teclado em uma banda que há alguns anos parecia improvável. Porque no papel, as influências dos quatro membros do Battles vêm mais como um choque do que uma colaboração. O som do disco de estréia, Mirrored (Warp, 2007) contém free jazz, hardcore, math rock, rock progressivo, rock angular... a salada de nomes inúteis não são suficientes para colocar no papel o som do Battles. Logo abaixo, Ian explica que tem que ver a sua banda como uma luta de clases e como compõe a sua música graças ao “post-it”.
"Cada um propõe fragmentos da melodia e colocamos sobrenomes nas partes que cada um faz. Ordenamos a canção no papel. E às vezes um desses nomes cai de posição"Você tocava em Don Caballero, tem o ex-baterista do Helmet e o filho de Anthony Braxton... Como se conheceram?
John (Stainer, o baterista) e eu éramos parte da mesma cena... a música é bastante social, sabe, e nos encontramos diversas vezes. Nos admirávamos. Dave (Kanopka, o baixista), que então estava em Lynx, também tocava em Boston. O Tyondai (Braxton) conhecemos em Nova York, durante uma turnê. E guardamos nossos telefones. Nas primeiras vezes estávamos muito seguros do que queríamos fazer, mas seguimos adiante e em 2004 já sabíamos o que queríamos. E assim foi. Conhecer as pessoas através da música é fácil.
Eu imagino que conciliar tantos sons distintos deu trabalho. Como chegaram a fazer uma mistura coerente?
Houve vários pontos-chave durante a nossa junção. Quando nos juntamos, queríamos evitar criar expectativas. Alguns não conheciam os nossos projetos, outros sim. Não queríamos nos repetir, queríamos manter tudo fresco, não soar como uma prolongação do Helmet ou Don Caballero. Incorporamos coisas novas, como um amplificar de loops, ou os golpes com os dedos na guitarra, sincronizar isso com o teclado e logo de volta a guitarra. Tratamos de encontrar um som novo a partir de pequenas coisas. Mas quando escutam John você sabe que ele estava no Helmet. Tem algo muito de rock alternativo. Com o tempo, fomos nos ajustando com as turnês. Teve um momento em que tocávamos todas as noites. Aí encontramos nossas personalidades, nos demos conta do que cada um podia fazer. Depois gravamos Mirrored, onde desenrolamos as idéias que antes apenas intuíamos.
Entre as fontes do som do Battles está o rock progressivo, um estilo que é constantemente menosprezado por pessoas com quem vocês tocam...
Eu tenho várias críticas contra essa opinião. A maioria do prog veio da Inglaterra, e logo veio a resposta da classe trabalhadora, do punk, e essa ganhou. Hoje parece que todo rock veio do punk. O prog era feito de mal gosto. Mas esse drama da elite contra o proletariado não aconteceu nos Estados Unidos. Onde eu vivia, tinham mecânicos que tinham posters de Rush ao lados das garotas do calendário Pirelli. De repente você ia para a rua, e não sei se aí tinha algo assim, mas de repente você via um tipo de carro, um Camaro, e colocávamos...
Talvez aqui andaria em um carro japonês cromado, mas sim, temos algo parecido.
Bem, os alto-falantes do carro saiam Rush. O que isso tem a ver com Battles é que nos achamos divertido usar o nosso potencial de formas criativas. O prog às vezes se coloca como idiota, mas isso não nos importa. Não nos consideramos progressivos tão pouco, é só a maneira que muitas pessoas percebem a nossa música. Por exemplo, no início dos anos 90, havia tanto hardcore nos EUA que chegava a ser um saco. Várias bandas faziam coisas criativas, mas eram exeções. Faltava senso de humor. As bandas mais desconhecidos dos anos 90 são uma grande influência para nós.
Como compõe a sua música?
Fazemos em conjunto, a cada um ocorre algo. O que acontece é que compomos entre todos em vários pedaços de papel. Cada um propõe fragmentos da melodia e colocamos sobrenomes nas partes que cada um faz. Ordenamos a canção no papel. E às vezes um desses nomes cai de posição. Às vezes colocamos um título de brincadeira e ele permanece.
Alguma vez se juntaram para improvisar?
Claro. Nunca chegamos a compor segundo formulas. Às vezes sai uma frase, e daí algo mais. Alem disso, sempre se pode editar depois no computador. Às vezes começa com algo mais abstrato. De repente mudamos o ritmo, titi-tatata, e aí pode nos ocorrer de voltar para alguma parte, criar novos contrapontos, desfazer o que fizemos...
Ainda sobre os nomes, várias bandas instrumentais buscam palavras distoantes, como se fosse para dar alguma idéia elevada do que trata a faixa, ou para refletir em um nome o som de uma canção. Mas parece que vocês vão para um outro lado...
Você está me perguntando se é um jogo.
Sim, mas um jogo bem amável com o ouvinte.
Na realidade, não levamos isso tão à sério. Temos este sistema nos EPs, porque queríamos que cada tema tivesse mais personalidade, e no disco era ao contrário. Por exemplo, “Rainbow” tem esse nome porque um dos estúdios que gravamos havia um pôster bastante ridículo de um mágico com arco-íris. Colocamos o nome dessa faixa brincando, e no final, foi o nome que ficou.
E de onde vem o seu som? E no que você pensa quando toca?
Um monte de coisas distintas. A mim fascina a idéia de quão impessoal pode ser o som. Quão automático pode soar algo armado. A minha mente funciona de uma maneira oposta. Creio que buscamos criar algo que possa ser interpessoal, que seja um esforço conjunto, onde cada identidade está fundida com algo maior. Obviamente, tem que ser algo natural, uma estrutura não muito rígida.
Website: www.myspace.com/battlestheband
Entrevista publicada originalmente no website Super45 (http://super45.cl)