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Catarina
Palavras: Coquetel Molotov | Foto: Marcelo Lyra em 27.12.2008
Catarina Lins de Aragão, Catarina do Amparo, Catarina
Dee Jah. Ou simplesmente Catarina. Olindense, 28 anos,
nascida em berço de artista (filha da artista plástica Iza do
Amparo), mãe de dois filhos, DJ e agora cantora. Sim, isso
mesmo. Catarina, antes conhecida por suas pinturas, agora
canta suas próprias músicas com ajuda de seus amigos, que
estão na pilha de lançar seu disco e mostrar uma nova faceta
dela ao mundo. Ou pelo menos a quem quiser ouvir.
Tivemos a oportunidade de conferir parte dessas músicas
em um momento bem peculiar da cena recifense. Foi durante
o prvojeto União Aurora que trazia a brodagem das
bandas do Recife, ou mais precisamente, aquele pessoal
que mora pelo centro da cidade. Estavam lá músicos do
Mombojó, Negroove, A Roda e Academia da Berlinda, mas
quem roubou a noite foi realmente Catarina. Com um humor
afiado e uma ironia cortante, a ponto de fazer a platéia
rir (in)voluntariamente com pequenas piadinhas entre as
músicas, Catarina fez um tipo “não-tou-nem-aí-se-acharem-
que-não-sou-cantora-profissional” e seguiu cantando
na companhia dos amigos que tinham feito pequenas jamsessions
autorais há alguns minutos antes. Tentar arriscar
o estilo dela é complicado. Até porque na entrevista ela
vai explicar melhor como começou a ouvir tudo isso que
hoje ela está reprocessando.
Conversamos com Catarina em Olinda, no ateliê onde
trabalha e mora com a mãe, seu marido e com seu filho
mais novo. Conhecemos uma Catarina que enfrenta os
problemas de dona-de-casa, preocupa-se com quem vai
deixar seus filhos para poder tocar a noite e, ainda, se pela
manhã vai manter a disposição para cumprir seu papel de
pintora e mãe. Fomos apresentadas a uma mulher forte que
encontrou na música mais uma maneira de se redescobrir
e se divertir. Tanto que está preparando o lançamento de
seu primeiro disco, Cola na Matéria, gravado e produzido
com os amigos China, Filipe S., Chiquinho, Junior Black
e outros. Se você ficou curioso para conhecer a música de
Catarina, pode conhecê-la todas as quintas na festa que
ela organiza na Caverna do Dragão, no Quintal do Rossi,
em Olinda. Ou pode arriscar uma visita em seu atelier, na
Rua do Amparo, que está sempre aberto. Aqui, você será
apresentado às diversas Catarinas na sua busca de se tornar
uma só.
“Eu nasci nesse ambiente artístico, em Olinda, e o ateliê, a
minha casa, sempre esteve aberto. Os meus pais são artistas
formados em arquitetura. A gente sempre teve acesso a
esse mundo e sempre o encarou com naturalidade, sempre
teve um ambiente muito musical. Eu tinha um vizinho que
tinha a Mulher do Dia, uma boneca muito tradicional, e ele
gostava de ir pros inferninhos, os cabarés e quando voltava
ele começava a colocar o som no talo. Então, vinha toda
essa coisa da gafieira, do brega e isso foi me pegando um
pouco. Ao mesmo tempo, o meu pai escutava jazz, Beatles,
MPB, bossa nova”. "Isso é um processo de crescimento. Eu não estou com um
prazo de verão para entregar o disco pronto. As coisas estão
acontecendo naturalmente"Como você começou a ser DJ?
Naturalmente comecei a trabalhar como DJ. O meu irmão
[Paulinho do Amparo] pesquisava muito, ele estudava Eletrotécnica
e fazia pedais, também fez a guitarra dele. Então,
o meu interesse ia crescendo. Ele até tentou me ensinar a
tocar baixo, mas eu não consegui transcender a fase dos calos
nos meus dedos. (Risos) O meu trabalho como DJ não
é uma coisa virtuosa, eu não tenho muita técnica de mixagem,
é meio que um depoimento muito pessoal das coisas
que eu gosto, que eu quero passar através da música. Eu
danço, eu canto também, falo no microfone. Até sou bem
criticada: “Ah, Catarina bebe e faz besteira, pára a música
no meio”. (Risos)
E quando descobriu que era cantora?
Eu tive Joãozinho há pouco tempo e foi um baque para
mim porque eu estava no auge, começando a pegar uns
trabalhos grandes como DJ, era mãe independente com a
minha casinha, segurava a onda de aluguel. O meu marido,
Hugo, é músico, então, viajava muito e eu ficava muito isolada.
Comecei a entrar no processo de depressão... Quando
ele começou a interagir com China e a ensaiar, China começou
a ouvir as minhas conversas, ele dava risada e falava:
“Porra, porque você não grava o seu disco?”. Aí, a gente foi
conversando, eu topei com Junior Black no meio do caminho,
dava uns motes para músicas, de situações e a gente
fez algumas letras juntos.
Eu também tinha uma batida na minha cabeça, eu simpatizo
muito com esse brega novo, não de uma maneira
pejorativa e exótica. Eu consigo ver coisas sofisticadas e
mensagens subliminares ali. A batida me contagia muito,
por questão da sonoridade e por ver que eles pegam som de
fliperama que tem perto da casa deles ou pegam tecnologia
e usam da maneira deles, autentica. Ao mesmo tempo eu
gosto de Kraftwerk, Chromeo, música eletrônica. Aí ficava
esse caldeirão na minha cabeça. Eu comecei a inventar uma
batida na cabeça que é o “raigga”, um pouco de raggae com
brega, uma coisa que Sly & Robbie fazem até hoje. Eles são
uns putas produtores, pegam uns timbres sebosos e fazem
pérolas. Os meninos me reprimiram muito porque acharam
que eu ia ficar muito pejorativa. No começo eu ficava
puta, mas eles ficavam: “Não Catarina, escuta um pouco a
gente”. Agora que está perto do final, o disco está bonito.
Ele não está como simplesmente uma pessoa de classe média
que tem acesso a informação fazendo uma releitura do
brega. O primeiro show que a gente fez eu tive certeza disso,
foi contagiante, eu tive carisma, tirei risadas da platéia. Como você aprendeu a soltar a sua voz?
Não sei, intuitivo. Eu sou autodidata, eu sempre fui avessa
à aula, sempre gostei de destrinchar as coisas sozinha.
Apesar de ouvir muita coisa que me influencia, eu tento
misturar tudo nesse caldeirão, vendo o que vai dar, fazendo
do meu jeito. Mas teve o processo de destrinchar as músicas
gravadas para o palco, mas eu não tinha experiência.
Foi difícil no começo soltar a voz no microfone e aprender
a tratar o microfone, saber o tom certo que se encaixa na
música, interpretar.
Como são as suas músicas?
Divertidas. Tem uma música que chama “Complexo de
Salgadinho” que é falando muito do pessoal que vem aqui
no verão e vai para as oficinas de maracatu como se fosse
uma aeróbica, uma auto-ajuda. Eu digo que tem dois tipos
de visitas no Morro da Conceição: a da Santa e a do
Carnaval, que tem aquele pessoal galego que sobe aquelas
ladeiras com as alfaias de Macaíba pesadas e quando chega
lá o mestre grita: “Errado” e “Presta atenção!”. É um treinamento.
Eu acho isso tudo pejorativo porque muda a essência
do maracatu. Não que eu seja puritana, mas é um pessoal
que tem pouca informação e chega com essa ansiedade
de tocar um tambor, de dar pinta, nem se intera na historia,
não vê a realidade da comunidade. Fica tudo muito exótico.
A música é brincando um pouco com isso, não criticando o
maracatu. É um grito de protesto. Mas é muito engraçada
também, muito leve. Junior Black fez essa letra comigo. A
gente estava um dia conversando e eu falei: “Complexo de
Salgadinho é impossível comer um só” porque às vezes essas
oficinas viram um pretexto pro pessoal se agarrar.
Como foi a gravação do disco?
A gente gravou na casa de Homero, no armário de Filipe
S., olhando as cuecas dele. (Risos) Gravei umas vozes no
banheiro, onde o reverberava um pouco, o som ficava um
pouco agudo, e aí a gente colocou uns tecidos em volta.
Foi legal porque não foi em um ambiente profissional, foi
tudo bem caseiro. Eu me sinto mais à vontade na casa dos
meninos. A gente sampleou Sly and the Family Stone, uma
música do disco Fresh. Eu nem deveria estar contando isso,
os meninos ficam com tanto medo de quando o disco sair
vir processo, mas eu acho que não existe mais isso, só para
Marisa Monte. Eu já falei isso pros meninos, mas eles não
me escutam muito.
Poderia contar quem colaborou e como?
Teve colaboração de Junior Black, China produziu, ele leva
muitas coisas e fica mixando em casa. Eu acabei tocando
aquela bateria de dedo, parece um hambúrguer fritando. Filipe
S. fez uma música linda que é “Toca Te Dentro”, parece
uma música indiana, gravei exatamente como eu queria a
voz. É só uma frase que ficamos jogando de várias maneiras
que é “Toca te dentro e te deixa assim tudo”, só brincando
com isso. São umas 10 vozes sobrepostas, tem um violãozinho,
parece um lual na Índia.
Você sente que isso está funcionando?
Isso é um processo de crescimento. Eu não estou com um
prazo de verão para entregar o disco pronto. As coisas estão
acontecendo naturalmente, vocês virem aqui, por exemplo,
foi um processo natural que veio através de um show,
o show veio através de uma pessoa, Carlota, que colocou
na pauta do Teatro Arraial. Eu estou doida para fazer mais
shows para que o disco cresça mais, as duas coisas vão se
alimentando. Eu queria fazer coisas diferentes, não quero
ter prazos. Quero mostrar que dá para fazer coisas de outra
maneira, sem ter que engolir certas hipocrisias.
Você sente falta de mulheres fazendo coisas aqui em
Pernambuco?
Eu acho que a gente tem muita coisa de província, ranço
de sinhazinha, das meninas que ficam falando miando, andando
em grupinho. Eu sempre fui muito moleca, eu lembro
passar as férias na Bahia e eu vi os meninos brincando
de jogar lama no rio, quando eu ia pular o muro a minha
mãe disse: “Você não pode, você é menina”. Eu chorei pra
caramba. Não que eu não goste de ser mulher, eu adoro ser
mulher e adoro os homens, mas eu sempre estive no meio
dos homens e me identifiquei mais em estar no meio dos
homens, com as coisas que eles tinham de liberdade para
fazer, do que com as coisas pré-afirmadas para as mulheres.
Botar a cara foi natural, sempre interagi com o pessoal de
banda. Os primeiros ensaios da [Academia da] Berlinda
foram feitos na minha casa, o repertório eu guiei muito em
cima dos meus vinis e eles foram criando uma identidade.
Eu sempre tive no meio de produções de festas, participei
de alguns ensaios do Punk Reggae, mas sinto falta das mulheres
se emanciparem mesmo, botarem a cara.
Eu sempre fui muito crítica dos outros e esse trabalho foi
muito bom para me discriminar. Uma coisa meio Clarice
Lispector de liberdade e ao mesmo tempo de me jogar na
cova dos leões para ver no que vai dar. Então, foi meio punk
escutar as críticas dos meninos a primeira vez que eu gravei
a minha voz... Essa hegemonia masculina em volta de
mim. Quais foram as críticas?
“Ah, você está muito presa, puta que pariu, se solta” ou
“Ai, Catarina, não é por aí, você está viajando” ou “Você
está falando muita putaria”. Isso foi me discriminando e
me acrescentando porque eu não tinha experiência. Esse
processo foi muito bom e eu também acho que acrescentei
muita coisa para eles. Homero tinha um puritanismo
de tocar na Sinfônica, no Sagrama e tocar conga e bateria.
Agora ele está pensando em vender a bateria para comprar
um sampler! Não sei até que ponto isso é bom ou ruim,
mas foi engraçado ver ele no show com duas congas e aquele
equipamento do lado soltando as bases e começando a
curtir isso também. Acho que eu também trouxe muita coisa
para China, Chiquinho [Mombojó], como sonoridades
novas, sons que eles não conheciam, para eles seguirem por
outros caminhos. Foi um playground ótimo para eles adquirirem
subliminarmente experiência e coisas novas para
os projetos deles.
Quais são as suas referências musicais?
Eu gosto muito da coletânea Lambadas Internacionais de
um selo de Belém chamado Gravasom que tem música da
Guiana Francesa que vieram aportar em Belém de alguma
maneira, acho que através do povo e das ondas de rádio.
É muito louco porque tem moogs, guitarras, uma coisa
caribenha e o dialeto que eles falam muitos franceses nem
entendem, lembra a sonoridade do português de Angola.
Desde pequena eu escuto isso. Gosto muito de Nina Hagen,
Madonna, MIA, que está me influenciando muito, Serge
Gainsbourg, Jane Birkin e Brigitte Bardot, que eu amo.
Você colabora com o seu irmão?
Comecei a fazer umas coisas juntas com Paulinho no sistema
novo de gravação dele, sempre chamo para tocar lá na
Caverna do Dragão, mas não rola tanto. Chamei para fazer
uns cartazes. A gente passou muito tempo com briga de
irmão, hoje está mais tranqüilo. Sempre o admirei muito,
aprendi muita coisa de música com ele, os nomes dos pedais
que ele fazia, nomes dos efeitos, coisas de sonoridade.
Ele me influencia muito também na pintura. Eu acho que
ele é muito rebelde, não precisava ser tanto e ele é rebelde
leite com Nescau. Não adianta você criticar o mundo e todo
mundo e no outro dia seguinte gritar: “Mamãe, tem leite
com Nescau?”. (Risos) Mas eu adoro o meu irmão, admiro
muito.
O que você toca?
Eu começo de uma maneira e termino de outra totalmente
diferente. Começo muito com essas coletâneas de lambadas
internacionais e aí vou misturando, boto Trio Esperança,
músicas românticas para o pessoal dançar junto, Trio
Irakitan, eu gosto muito de Outkast, Spank Rock, que eu
comecei a curtir há uns seis meses, Amanda Blank.
Como você tem acesso a esses artistas novos?
Pesquisa. É engraçado porque é tudo linkado, através do
MySpace da M.I.A. eu cheguei no Spank Rock que cheguei
em outro e depois eu peço para os meus amigos baixarem.
Como você se vê agora depois de se escutar?
Sem esse papo de auto-ajuda, mas eu acho que cresci muito,
fiquei mais segura, mais consciente de quem eu sou. Essas
criaturinhas caóticas, que tem um lado que às vezes me
oprime por estar parada muito em um canto só, piniqueira
do lar, cuidando de criança, mal dormida, mas ao mesmo
tempo tem um mulherão aqui dentro, apesar de ser baixinha
e magrinha, que toma forma quando eu estou na noite.
Eu quero que as duas Catarinas se complementem.
E de onde vem o nome “Catarina Dee Jah”?
Eu era chamada muito de Catarina Dee Jah quando era
mais nova, fumava muita maconha e andava muito com
Fernando Peres, Luca Barreto e a patota. Era uma fase que
eu curtia muito reggae. As pessoas brincavam que eu era
DJ, mas não tocava reggae, aí eu falava: “Sou Dee Jah, não
sou DJ”.
Existem outras Catarinas?
Tem a Catarina do Amparo, que é a Catarina que pinta. Eu
comecei a pintar ajudando a minha mãe nas encomendas e
naturalmente eu fui criando. Eu sempre fiquei com muito
medo de virar uma Izinha do Amparo, a mini ela. Porque
tem muita pressão que paira em cima dos filhos de artistas,
mas também não dá para negar toda a influencia que
você recebe deles. É muito bonito também ver essa simbiose
no ateliê, tem padronagem que é da minha avó, que eu
faço, e a minha mãe faz, mas cada uma tem o seu traço e a
sua maneira de interpretação. Eu acho que tem o trabalho
comercial que dá grana, esse trabalho mais decorativo, em
tecido, que é para gringo e piruá. Não que isso não me dê
alegria, mas é muito bom trabalhar com escalas de cores, eu
pinto várias coisas ao mesmo tempo. E tem os panos que
forram as mesas onde esses trabalhos estão que vão ficando
com uma densidade muito grande e depois se transformam
em outras telas que não são tão comerciais e agregam um
valor maior.
Às vezes eu fico meio pilhada porque às vezes o
comercial está ligado à hipocrisia. Eu já vendi trabalho para
o mundo inteiro, é bonito receber também uma mensagem
ou uma fotografia de uma pessoa que mora na Islândia,
Noruega, que tem um trabalho meu no ninho dele, aquecendo,
trazendo alegria um pouco para aquela frieza que eu
não conheço ainda.
Nunca saí do Brasil, tenho uma vontade da porra de viajar,
mas aí eu me bato com a coisa da maternidade. Eu lembro
depois do show eu cheguei às 6h da manhã aqui em casa
e a minha mãe estava estressada com João chorando e eu
bêbada, pensando: como irei resolver isso na minha vida?
Esse lado da noite, que eu gosto muito, e de estar em casa
com os filhos.
Website: www.myspace.com/catarinadeejah
* Entrevista publicada originalmente na Revista Coquetel Molotov Nº 4
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