Chambaril
Ana Garcia Foto: João Z em 15.10.2005
GRAVANDO uma série de EPs caseiros, deliciosamente desafiadores, diretamente do seu quarto, Cláudio N. colocou as guitarras da Astronautas de lado e criou uma figura misteriosa sob o pseudônimo Chambaril.
Em 2001, Chambaril consistia apenas de Cláudio sob o efeito de muitas drogas gravando sozinho, ou às vezes com o seu amigo Vinícius em jams no seu 4-track analógico. As demências sonoras registradas passaram a ser editadas com diversos programas de computador e complementadas com samples de cordas, cantos e batidas de artistas obscuros que ele encontrava na internet ou nos sebos. Criando discos que soam como uma invenção virtual presa no tempo entre o psicodelismo dos anos 70 e a era vintage do hip hop dos anos 80. Ao vivo, o projeto se transformou num trio com Cláudio no baixo, Pierre Leite no teclado e Igor Medeiros no sampler, formato que até hoje não foi apresentado. Em pessoa, Cláudio não poderia ser mais real.
Depois de quatro meses entre a clínica de reabilitação e a casa dos pais na Bahia, eu e Viviane conversamos com Cláudio no seu novo lar, durante xícaras de café, cigarros e músicas novas no som.
MÚSICA É A METADE DA HISTÓRIA, NUNCA ACREDITE NO CONTRÁRIO
"Eu chamava de eletrônico de sofá, e não eletrônico para pista. Agora eu estou fazendo um analógico e pista "Quando você começou a tocar?
Eu toco violão desde pequeno. Tocava Ramones, Nirvana, Iron Maiden, Chico Science. Foi um pouco depois que eu comecei a gostar de outras coisas mais sensíveis, digamos, como David Bowie e rock sem ser metal. Porque eu também já fui muito metaleiro. Aí quando comecei a melhorar como guitarrista, fui chamado pra tocar na Astronautas. Eu passei dois ou três anos na banda, mas fui convidado a me retirar, porque não estava mais cuidando do meu instrumento.
Por quê?
Chambaril. Comecei a mexer com botões.
Você lembra da sua primeira música?
Foi “Tutano e Pirão”, ela é um bom exemplo da nossa fase inicial. Na época, era eu e Vinicius gravando no meu quarto. Mas eu cheguei a me encher da Chambaril e até comecei uma nova banda com Vinicius e Carlos, da Profiterolis, chamada Fala Pastosa. Só fazíamos gravar e nunca editávamos porra nenhuma. Só sabíamos fazer jams e nunca estruturávamos uma música. Chegamos a lugar nenhum. Aí continuei fazendo música em casa. Na verdade, sempre fiz música em casa. Em setembro do ano passado, eu fiz a magna opus da Chambaril. É o que estamos escutando agora. As músicas estão mais dançantes, percebe?
Sim, antes era mais esquizofrênico.
Eu acho que são as coisas mais sinceras. O que vamos fazer ao vivo será isso.
Como você conheceu os dois?
Conheci Pierre no estúdio, ele é o engenheiro do Estúdio do Poço, e é meu amigo também da Federal (UFPE). Enquanto ele estudava música eu estudava Rádio, mas ele já se formou e eu continuo lá. Igor eu conheci quando fui fazer um teste para tocar na Dona Margarida Pereira e Os Fulanos. Só que era muito novo e muito metaleiro e não fui aceito, mas Igor continuou sendo o meu amigo.
Quem faz a arte da Chambaril?
Antônio Bob. É um menino novo, um pouco mais velho do que eu, e tem umas coisas bem doentes. Por isso que ele foi escolhido. Faz desenhos sujos e feios. Parece desenho de menino de 10 anos quando escreve pra revista Mad. Vocês conhecem? Parece desenho de leitor da Mad. E Carlos e Cecília fazem a diagramação.
O que você procurava fazer quando começou a Chambaril?
Eu queria fazer música para ouvir drogado. Era música feita por drogado para ouvir drogado. E não pensava em querer mostrar pro povo, era música pra mim e pros meus amigos. Só que todos os meus amigos começaram a ouvir e a gostar. De repente, amigos de amigos ouviram e assim foi. Percebi que poderia começar a fazer coisas para as pessoas e a tendência é essa - fazer música mais abrangente possível e sem drogas.
E o que te motiva?
Antes era sexo, drogas e rock ‘n roll. Agora é sexo e música boa, não só rock. Eu transcendi o rock ‘n roll e as drogas. Agora é cigarro e café. E sexo é a finalidade.
Mas a sua música não é tão sexual assim.
Eu acho. Já escutasse essa?
Acho que já tocamos no programa.
Não, vocês tocaram uma muito parecida chamada "Setembro". Essa é "Setembro 2", tem a mesma coisa do violino, mas a batida é da Antipop Consortium. Eita, estou revelando aí as fuleragens.
O que você está procurando?
Diversão.
Não, em termos de som.
Faz quatro meses que eu não crio, nem quero. Quero trabalhar no que já foi criado, porque passei tempão enfurnado num quarto me drogando, isolado do mundo e criando durante dois meses. Estou meio traumatizado ainda. Agora, eu tenho que conseguir criar sóbrio. Eu não consigo criar sóbrio por enquanto. Eu quero trabalhar o que está pronto e depois vai chegar a hora que vou ter a necessidade de querer criar mais coisas. Aí, daqui pra lá, já vou ter me adaptado a sobriedade.
Eu quis perguntar se você procura algo nos discos que escuta?
Música pra dançar. A Chambaril acabou tendo esse direcionamento. Pelo menos nos shows agente se diverte em ver as pessoas dançando. Antes era uma porra louquice ducaralho. Eu chamava só de eletrônico, na verdade era bem mais eletrônico. Eu chamava de eletrônico de sofá, e não eletrônico para pista. Agora eu estou fazendo um analógico e pista. Escuta essa, tem até algo meio Fernanda Porto.
Você gosta de samplear você mesmo?
Eu sampleio mais jams que eu faço, mas eu acho mais proveitoso samplear outras pessoas do que você mesmo. É muito tempo perdido para você produzir e escolher as partes boas. Acho melhor escutar o disco e escolher as melhores partes. Creditar as pessoas também é bom.
Você credita?
Não.
Quem você mais sampleou?
Acho que Costinha. Costinha o contador de piadas... DJ Malboro sampleei bastante, aqueles Funk Brasil. Mas quanto a ele, eu posso até passar sem creditar porque são partes tão... DJ Malboro não é um criador. Estou roubando de quem já roubou, nesse caso.
Você sempre foi rato de sebo?
Sim. Hoje não posso mais comprar discos, porque deixei a minha radiola na Bahia, mas tenho alguns discos por aí. Olha o Dark Side of the Moon aqui. Gosto muito de Pink Floyd, ele é uma grande influência. Alias, tenho várias influências. Ween é também uma pela coisa de fazer o que quer. Ween não tem um estilo e eu espero que a Chambaril continue assim, preso a nenhum estilo. Algo mais? Frank Zappa pela mesma coisa do Ween, atitude, fazer o que está a fim. O que mais me influência? Mulheres e drogas.
E trilhas sonoras?
É muito bom samplear discos de trilhas sonoras, ajuda bastante. Mas esses violinos que estamos escutando agora são da Ave Maria. Não sei de que Ave Maria, mas é de um disco de Ave Maria que eu tenho.
Alguém da música eletrônica é uma influência?
Quando eu comecei o Chambaril, eu gostava muito de Aphex Twin. Só que eu nunca vou chegar a ser aquilo, teria que ser muito nerd em programas. Nem é o que eu queria... Até queria no começo, só que agora eu quero ser Tony Montana, o cara do Scarface, mas esquece isso... tem nada a ver.
O hip hop também é uma influência, verdade?
É, eu gosto mais de coisas antigas, Bambaata, Public Enemy. Aqueles hip hop que mistura com metal como Bodycount e Biohazard. Mas no ano passado eu estava na onda de fazer rap, rimar, mas eu parei. Eu fazia uns raps e achava que era um rapper já.
Eu lembro. Você chegou a passar 30 minutos rimando no meu ouvido.
É, eu perdi a prática. Eu pensei que fosse lançar um disco de rap esse ano, mas comecei a tomar remédio e... Esses remédios fazem tanta coisa comigo que eu tenho até vergonha.
Como o quê?
Não tenho mais libido, infelizmente. Se eu beijar uma menina fico de pau duro, claro, mas não me masturbo mais, não fico pensando em sexo 24 horas. Tem um lado bom, mas perder o tesão é estranho.
O que mais é influência? Música, mulheres, drogas...
Risadas. Eu gosto de música pra rir e música pra dormir. Música pra trepar. Dormir, trepar e rir.
O que mais?
Café e cigarros.
O que você tem aprendido nesse tempo sóbrio?
Que agora é hora de colocar o Chambaril pra frente. O maior objetivo é ensaiar e tocar ao vivo. Participar de alguma cena. Não a cena mangue, por favor. Sei lá, com bandas amigas. Eu gosto de Mellotrons, Le Bustier en Decadénce, das Barbis, 3 E.T.s, Mombojó, Embuás... Hoje tem o show da Embuás?
Terá Conceição Tchubas no Garagem, mas eu não conheço.
Toda vez que fui pro Garagem estive drogado, agora irei sóbrio. A minha bebida oficial no momento é água tônica com limão, é muito bom. Se você bebe e quer deixar de beber, tome isso. Parece que você está tomando gin ou uma caipirinha, basta colocar limãozinho e gelo. Eu estou vendo graça nas coisas que eu não via antes.
Mais alguma coisa?
Que o amor é o mais importante. Sério. Porque antes eu usava drogas para tornar muitas pessoas mais interessantes para mim, hoje eu vejo que todo mundo é interessante. Eu amo todo mundo agora. Estou falando isso sério. Eu amo vocês.
E o que você aprendeu na época que estava começando a ficar sóbrio?
Que sobriedade é um saco, mas a vida limpa é melhor. Eu estava há três meses sem fumar cigarro, comecei há dois dias. Estou fumando um atrás do outro. Estou tomando os meus remedinhos e indo para terapia.
O que você acha que te levou a essa loucura?
A culpa da minha loucura foi muita ansiedade, solidão e muitas drogas. Hoje em ainda continuo solitário, mas menos ansioso.
Por que tanta ansiedade?
Porra, aquele concurso, Microfonia, me deu uma megalomania ducaralho. Eu estava meio caminhando para o meu fim, à beira da morte. Muitos amigos meus até comentaram que eu estava me matando aos poucos. Eu era muito drogado e estava endividado, fudido. Aí teve esse festival que poderia ganhar quatro mil reais e participar do APR seguinte, com um disco que eu fiz sozinho no meu quarto. Isso me ajudou bastante a pirar. Se você visse a parede do meu quarto... Tinha um monte de asneira. Tinha todas as frases que eu acumulei do conhecimento do rock.
O que você escrevia?
Coisas do tipo "whatever you do, don’t tell anyone", "mad dog different to cat". O que mais? "Ban original". Era tudo frase de músicas. Isso revela bastante as raízes da psicose. Eu não quero mais falar sobre isso