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Plástico Lunar
Viviane Menezes em 12.10.2005



Plástico Lunar é de Aracaju, capital de Sergipe. Um Estado do Nordeste que não é muito comentado em termos de música. Se eu pedir pra você citar uma banda ou artista de lá não será muito fácil, não é? Mas isso acontece, principalmente, pela dimensão territorial do nosso país, conseqüentemente, a informação não circula como deveria. E verdade seja dita, a forte concentração das mídias em outros Estados do país (leia-se Sul e Sudeste), dificulta também a comunicação entre bandas/público. E quando o assunto é o mundinho alternativo, aí que a coisa complica. Ou você vai atrás das informações, zines, sites, ou meu velho, vai morrer sem saber que em Aracajú existe uma das melhores cenas do rock setentista, jovem guarda, psicodélica, do país. Só pra te deixar com água na boca, citemos: Snooze, Rockassetes, Os Verdes e, claro, o Plástico Lunar.

Mas a nossa função é essa mesmo, apresentar propostas legais para vocês. Então se você está lendo isso, parabéns, você é uma pessoa interessada. Antes de tudo, é importante que se diga, que essa entrevista já tinha sido preparada há algum tempo, não sei precisar quanto tempo, mas a coisa meio que morgou p’ra mim. Até que em agosto, após o festival No Ar 2005, vejo em minha caixa postal o subject: ‘entrevista da banda plástico lunar - finalmente’. Foi uma grata surpresa! O Bicho-Grilo, baixista e vocais, e Léo Airplane, órgãos e sintetizadores, resolveram falar.

A Plástico Lunar é uma banda muito comentada por aqueles que entendem de psicodelia e rock tradicional em nosso país. O Senhor F, Fernando Rosa, Luis Calanca da Baratos Afins, são alguns entusiastas desse grupo. Registrado, os meninos possuem a música “Meu Jardim” na coletânea ‘Brazilian Pebbles, Vol. 2’, um EP batizado de 'The Plastic Rock Explosion' (a canção “Formato Cereja” é uma das que mais gosto) e agora prometem gravar o primeiro disco com 13 faixas até o final do ano.

De onde vem essa ligação da banda com o rock do final dos anos 60 e dos anos 70?
Bicho-Grilo: Coisas da alma... Lá em casa sempre rolou muita Jovem Guarda, Os Pholhas, Raul e outras velharias. Existe uma identificação muito forte com a sonoridade daquela época, e mais, não só com o rock, mas com todo aquele momento! O período de 1966 a 1972 representou uma época sem paralelos em toda história da humanidade. O mundo ocidental presenciou uma série de movimentos simultaneamente. Uma verdadeira revolução de comportamento e na forma de pensar das pessoas acontecia. Uma revolução musical, social e ideológica. Houve a quebra de vários tabus e um novo conceito de comunidade foi erguido e o melhor foi que não ficou só no papel. As pessoas, de fato, praticavam a harmonia, a paz e o amor. Aconteceu na Inglaterra e se espalhou pela Europa... Paralelamente acontecia nos EUA o movimento Hippie, e da América para o resto do mundo! Foram anos mágicos. Pensadores da época chegaram a afirmar que uma nova ordem havia surgido e os hippies iriam dominar o mundo (apesar de não ser isso que se pretendia). Claro que não aconteceu! Mas os reflexos daquele movimento influenciam os jovens atuais e continuará por gerações e gerações. Também quero ver meu filho cantando "All you need is Love”.

Qual o grande barato de vocês em relação à banda? Fazer esse tipo de som que vocês fazem é mais que música, mas talvez uma filosofia de vida?
Bicho-Grilo: De fato, o rock não é apenas um tipo de música. É um estilo de vida... Mexer com psicodelia é ainda mais profundo. O rock psicodélico tende a afetar outros sentidos além da audição e convidar o público a uma visita no jardim do psíquico, seja com ruídos e microfonias, letras reflexivas ou com uma complexa combinação de acordes, porém não nos importamos muito se as pessoas conseguem ou não entender a viajem de nossas músicas. Não importa! Gostamos de está na noite tocando e nos divertindo. A Plástico Lunar foi formada com o propósito inicial de diversão, queríamos apenas encher a cara em dias de shows e fazer rock’n’ roll sincero, desapegado a modismos e tendências impostas pelas rádios. Hoje, já esperamos algumas coisas a mais de nossa arte. Afinal, tenho 23 anos e já percebi que não sirvo para trabalhar em um escritório, porém as pretensões não influenciam no som da banda. Gostamos de tocar e tocamos o que gostamos!

Entendo. Mas é muito complicado fazer esse tipo de música no Brasil, onde muitas vezes o pop mais acessível é que tem vez na grande mídia...
Bicho-Grilo: No nordeste a complicação ainda é maior! Êta cultura de pandeiro que sufoca qualquer outra manifestação artística! Mas no Brasil como um todo, até que as coisas estão melhorando. Claro que existe a chamada “indústria da arte” que serve para vender produtos independentemente de sua qualidade. Mas isso não rola só no Brasil, é uma tendência global, faz parte do capitalismo. Porém existe a mídia alternativa (é aí que entra a Coquetel Molotov, por exemplo) que desempenha um papel importantíssimo na divulgação da arte com poucas máscaras. Hoje no Brasil, os selos independentes já são responsáveis por mais de 50% da produção fonográfica, a Internet está quebrando as grandes gravadoras. E Sandy & Júnior continuam no Faustão que fiquem por lá mesmo!

Você já falou um pouco do que te influenciou quando pequeno, mas você poderia citar mais alguma coisa?
Bicho-Grilo: Por opção própria de pegar uma fitinha do meu pai e colocar no som, eu escutava Beatles pra caralho. Perdi (ou ganhei) muito tempo da minha infância só escutando Beatles, depois vieram os Stones, Pink Floyd e Doors. Aí eu virei adolescente! Meu pai gostava muito de música, então eu cresci escutando, por tabela, Caetano, Novos Baianos, Chico Buarque, Zé Ramalho, Toquinho. Rolava também coisas, como ele mesmo dizia “da pesada”, tipo: Creedence Clearwater revival e Chuck Berry...

E o que você escuta hoje? Será que mudou?
Bicho-Grilo: Não mudou! Apenas se expandiu. Apesar de ter me afundado em bandas garageiras toscas dos anos 60 tipo "Iron Butterfly" e "Love", eu atualmente tenho escutado mais "roque" do que "rock". Curto psicodelia nacional dos anos 70: O som nosso de cada dia, Casas das máquinas, O Terço, Ave Sangria, A barca do sol entre outras coisas desse tipo.

E o que você pode me falar de Aracajú? Nunca estive aí...
Bicho-Grilo: Apesar de existir uma cultura rocker já instituída na cidade, a mídia não enxerga isso, não há incentivo público, por que os órgãos que eram pra está promovendo a cultura, estão lotados de vermes que desviam o dinheiro para uma panela que está aí há anos mamando nas tetas do governo e sem produzir nada de realmente relevante para fazer a coisa acontecer. O velho jogo dos interesses pessoais e apadriamentos!

Léo Airplane: Aqui ainda tem um agravante, o povo daqui tem o mal-costume de nunca querer pagar pra ver artistas locais. Sempre reclamam q não rola nada aqui, mas quando a gente cobra míseros 3$ de ingresso, fica todo mundo na porta da casa e não entra.


Mas vamos falar de outras coisas. Alguma história engraçada ou interessante sobre os palcos?
Bicho-Grilo: Várias... Já entramos em tantas frias tocando...

Léo Airplane: Mas por isso toda banda iniciante passa; tocar em som tosco, palco com goteira, bêbados que sobem no palco pra cantar com a gente... As Histórias engraçadas são sempre protagonizadas por nosso baterista Marcos Odara. Às vezes ele inventava de fumar um cigarro durante uma musica! Era cigarro numa mão e baqueta em outra, e leva assim a musica. Ele também é mágico, no intervalo entre duas musicas, ele sempre materializa um copo de cerveja ou um cigarro aceso...


E a inspiração para as roupas? Já copiaram algum modelito de algum artista daquela época?
Bicho-Grilo: Roupas? Sei lá... Jeans? Curto cores, de vez em quando rolam uns óculos psicodélicos ou um paletó colorido!

O que inspira vocês na hora de compor?
Bicho-Grilo: Reflexões e experiências mentais, principalmente!

Alguma outra vertente do rock ou fora dele que está no som da banda e ainda não foi percebido pelo público ou imprensa?
Bicho-Grilo: Dentro do rock, a Plástico passeia por várias vertentes: o progressivo, o hard rock, o mod, entre outras. Fora dele, mas não tão fora assim, tocamos jazz, blues e outros estilos mais exóticos. Eu, particularmente, gosto muito de ritmos circenses e de música celta. Também me amarro em rock rural mineiro com aquelas pegadas "güarânias"!

Quais outras bandas semelhantes à de vocês estão fazendo um trabalho interessante?
Bicho-Grilo: Tem uma rapaziada aí no país fazendo "rock retrô". Criaturas (PR), o Júpiter Maçã (RS), Mordida (PR), a Laranja Freak (SC), Cachorro Grande (RS)... Estamos muito bem servido de som!

Léo Airplane: Tem também a Volver (PE) e Rockassetes (SE) que seguem uma linha retrô / Jovem Guarda...


Como são as gravações e o trabalho de divulgação do EP de vocês? É verdade que está fora do catálogo?
Bicho-Grilo: Nossas gravações são simples, Léo Airplane tem um laboratório sonoro em casa. É lá que ficamos horas explorando ao máximo os ruídos de nossos equipamentos! A divulgação é feita na cidade por amigos e em shows da banda, para fora, as pessoas podem solicitar nosso EP "The Plastic Rock Explosion" via net: plasticojr@hotmail.com. A prensagem é feita de pouco em pouco dependendo da demanda.

Se você pudesse entrar em uma máquina do tempo, para qual época e qual momento você iria? Eu iria para Paris dos anos 60...
Bicho-Grilo: Que legal! Posso escolher o local! Então vamos lá! Uns 400 a.C. na Grécia Antiga, talvez! Ta bom! É mentira! Não queria ser condenado a tomar uma dose de cicuta por viajar demais. Eu iria mesmo era para o subúrbio de Londres em 1966, procurar alguma boate bem tosca ou, quem sabe, para São Francisco em agosto de 67, ficar fazendo bolhinhas de sabão durante todo aquele verão do amor!

Poderia citar com comentários os cinco discos mais bacanas para você?
Bicho-Grilo: Putz! Que injusta essa pergunta? É difícil listar 5 discos sem sacrificar outros 100 clássicos indispensáveis pra mim, mas vamos lá:

Que tal começarmos pelo “The Piper At the Gate of Down" e toda aquela trip hipnótica "Syd Barrettiana"? Então, lançado em 1967, esse foi o primeiro disco do Pink Floyd e na minha opinião o melhor, o disco é cheio de climas mágicos, aborda temas mitológicos lisérgicos. É possível ir pra longe com esse disco, altamente chapado!

White Álbum – sendo Beatles não há muito que comentar, esse disco é lindo, profundo, melancólico e caótico!

Casa de Rock (Casa das Máquinas) – disco clássico do rock nacional, há momentos de puro hard rock curto e grosso, e alguns momentos mais reflexivos e progressivos.

Their Satanic Majest Request (The Rolling Stones) – o álbum mais psicodélico dos Stones, lançado em 1967, ele foi a resposta da banda para o Sgt. Peppers Lonely Heart Club Band.

Snegs (O Som nosso de cada dia) – um dos melhores discos de rock progressivo da história foi gravado por brasileiros. Apesar de ser pouco conhecida por aqui, essa banda é extremamente cultuada na Europa e demais centros “cult”. O “Snegs” é um disco viajado, virtuoso, muito bem arranjado e executado. Nele, seus 3 integrantes passeiam por compassos complexos e climas reveladores.