David Pajo
Ana Garcia em 03.10.2005
Quando decidi entrevistar David Pajo eu estava em casa escutando alguns singles do Papa-M, pensando como ele é maravilhoso e como dever ser uma pessoa complicada de entrevistar. Na época, nem havia rumores de que Slint tinha voltado a tocar e que eles seriam os curadores do festival ATP (All Tomorrow’s Parties) esse ano. Ele realmente foi difícil e nem se quer mencionou uma palavra sobre a volta do Slint. Então, quando tentei fazer uma segunda rodada de entrevista, ele mudou o seu tom irônico para o mau humor e chegou a falar “você está começando a encher o meu saco”. Eu terminando a entrevista com “quem você pensa que é?”.
Isso é provavelmente o tipo de coisas que você pode esperar de um artista como ele, eu acho. Afinal, ele é conhecido pelo seu mau humor. Mas isso me faz querer ainda mais entrevista-lo. Ele não quer saber de entrevistas. Ele quer saber apenas da sua pela música, namorada e filha. Mas, recentemente, eu perguntei quais eram as suas cantoras favoritas de todos os tempos. Ele gentilmente respondeu: “Jennifer Herrema (Royal Trux): Quando eu estava na Royal Trux, eu aprendi muito com Neil Hagerty, mas Jennifer me mostrou o valor de executar idéias come estilo. Paz Lenchantin (A Perfect Circle, Zwan, Papa M): Eu estive em duas bandas com Paz e ela se dedicava completamente nos dois, todos os dias com ela era um presente. Drinking Woman: Isso era uma banda pequena só de meninas de Louisville, Kentucky. Ela tinha Greta Richter, Tara Jane O’Neil, Erica Bricking e Heather Cantrell. Elas tocavam instrumentos tradicionais, mas de uma forma que eu nunca escutei antes e desde então. Karen Elson: Karen tem uma voz perfeita, mas falta confiança musical para fazer as coisas da sua forma. Ela sem querer me ensinou a importância de não tocar música e apenas continuar vivendo uma vida muito humana”.
"Para aqueles que não sabem David Pajo já fez muita história. Como parte do seminal Slint, em bandas como Stereolab, Royal Trux, King Kong, For Carnation, coadjuvante em diversos projetos de Will Oldham, gravando álbuns clássicos como Millions Now Living Will Never Die, do Tortoise, e é só o começo. Claro que sua fase no Zwan deixou saudades dessa época, mas no meio-tempo ele criou o Papa M. Ou, se você preferir, M is the Thirteenth Letter, Aerial M ou simplesmente M. Obcecado por singles, David Pajo gravou e continua gravando incontáveis canções para inúmeros selos. Hole of Burning Alms coleta algumas pepitas surgidas entre 1996 e 2000, quando ainda não havia se deixado dominar pela música folk. Sua incrível desenvoltura lhe permite ir e vir entre gêneros: o pós-rock que ajudou inventar, as improvisações geradas de experiências em estúdio, a música eletrônica descaracterizada, uma simples banda de rock. Mas realmente impressionante é perceber que apesar de um histórico desses, ele poderia ter feito tudo sozinho" (Guilherme Barrela, 4 Hearts in A Can).
"Eu não sei se entendo a sua pergunta. Não existe um público. Existe apenas eu contra o mundo."Poderia se apresentar?
O meu nome é Pablo Pi-Ajo. Eu nasci em um barco no rio de Ohio chamado The Belle of Louisville. A minha primeira lembrança é relacionada com a minha mãe jogando o meu pai fora pela janela, porque ele não a amava corretamente.
Por que você escolheu a música como forma de expressão?
Música nunca foi uma escolha de careira; eu sou um músico por erro, não recebo por isso. A única coisa que me fazia sentir humano era a música, filmes de horror e fazer a coisa errada.
Mas iniciou cedo a sua carreira musical?
Ai... Sabe, 6 de setembro foi o meu aniversário. Eu já fiz 36 anos! Eu ganhei o meu primeiro kit de bateria quando tinha treze anos e a minha primeira guitarra quando tinha quatorze. Eu estudei na Berklee College of Music durante o verão quando tinha dezesseis anos, mas logo abandonei
Qual foi a sua primeira música?
Eu tinha 14 anos quando escrevi a minha primeira música. ‘I Hate Elevator Music’ (Eu Odeio Música de Elevador) era o nome. As mudanças das cordas mudavam de acordo com as bolinhas da guitarra
Qual é a sua motivação?
Quando eu acordo de manhã – e tem sido pela manhã ultimamente – eu começo a minha luta com a minha insegurança, autodestruição, desejo sexual e começo a fazer as minhas escolhas.
Você é obcecado com a morte?
Sim, mas mais obcecado com a vida.
Quais têm sido algumas das melhores colaborações que você tem feito?
Eu tive a sorte de tocar com tantas pessoas maravilhosas: Britt Walford, Todd Brashear, Brain McMahan, Matt Sweeney, Paz e Ana Lenchantin, Will Oldham, Ethan Buckler, John McEntire, Neil Hagerty, Tim Gane, Laetitia Sadier... é uma educação.
Você tem aprendido algo com eles?
Eu aprendi com cada e todo músico com quem eu já toquei. Eu sempre tive muita sorte por estar arrodeado por músicos tão incríveis.
Como você conheceu a Christina Rosevinge?
Eu a conheci no festival All Tomorrow’s Parties. Temos alguns amigos em comum.
E como você digere a música pop?
Com uma pitada de sal.
Qual é a moral depois de ter flertado com o mainstream com a Zwan?
Não confie em Billy Corgan.
Você se preocupa com o seu público?
Eu não sei se entendo a sua pergunta. Não existe um público. Existe apenas eu contra o mundo.
Um amigo meu sugeriu que sem Slint bandas como Mogwai, Godspeed e a brasileira Hurtmold nunca teriam existido. Você tem idéia de como Slint tem sido uma grande influência?
Estou começando a colocar todas as evidências juntas.
Gostaria de conversar sobre a volta do Slint?
Não.
Tudo bem. O que você acha de Stuart, do Mogwai, sempre usar você como referência?
Eu preciso do apoio. Ele sabe que eu sou pobre e talentoso.
Você quer que as pessoas se relacionem a alguma idéia cultura específica?
Não. Se eu posso juntar alguns sons e palavras que é atraente para mim e para os meus amigos, é mais ou menos o que importa. Não tem nada didático sobre Papa M ou David Pajo.
Mas você quer passar algo com as suas músicas?
Sim, um estado de graça.
Incomoda quando as pessoas não reagem?
Incomoda muito quando as pessoas não reagem.
Já teve uma reação extrema?
Uma reação extrema... Apoiando a Tenacious D no House of Blues, em Chicago. Mais de 1500 pessoas gritando "Fuck you! Fuck you! Fuck you" e jogando coisas.
O que você pensa quando está no palco?
Eu normalmente estou tentando lembrar as palavras.
O que você tem descoberto de novo musicalmente?
O medo de cantar é incrivelmente insípido. Que teoria musical não dar tanto medo quanto eu pensava que daria. Que sempre tem mais música boa e arte para investigar de cada década, até dessa. Que a música sem o seu companheiro é nenhuma forma de viver.
Que direção musical você está indo? Por que você tem se aproximado mais e mais para folk/country?
Eu acho que a sua segunda pergunta responde a primeira. Eu realmente não sei o porquê... Sempre tem sido uma influência, mesmo quando eu tento evitá-lo algumas vezes. Crescer em Louisville, Kentucky... Música country está em todos os lugares. Eu sempre escutei Hank Williams e Robert Johnson, mesmo quando eu estava tocando bateria em bandas punks e de hardcore. Eu ficava cantando ‘hot tamales and they’re red hot!’ (música de Robert Johnson) dentro da minha cabeça.
Por que você tomou a decisão de cantar e mudar as raízes da sua composição tão drasticamente?
Frustração com a música instrumental.
Por que as mudanças de nomes? É baseado no conceito de Oldham’s Palace para não confundir o público?
Pessoas famosas que mudam o nome como John Lee Hooker, John Cougar Mellencamp e Prince foram as inspirações.
Você poderia falar em algumas músicas do novo Papa M que você gosta?
Eu sempre gostei de ‘Vivea’ e ‘Last Caress’. Essas músicas são tão velhas agora, é como tentar lembrar de um sonho que você teve há uma década. Eu me sinto curiosamente distante das músicas. Elas foram gravadas anos atrás, no fim dos anos 90. Eu já mudei drasticamente desde então que eu nem me reconheço mais.
Então que música com a qual você pode se relacionar agora?
“Walk through the dark
Walk with dark eyes to see
Move through the black
Move with black wings that beat
Dark sounds of night
Running black dark feet”
David Pajo tem um blog: www.pinkhollers.com