Karine Alexandrino
Jarmeson de Lima em 08.10.2005
Não é todo dia que se encontra uma diva techno-neo-pop-romântica por aí. Durante o Curitiba Rock Festival tive a alegria de conhecer pessoalmente esta figura que atende pelo nome artístico de Karine Alexandrino. Seu nome havia chamado a minha atenção quando ouvi certo estardalhaço em torno do lançamento de "Querem acabar comigo, Roberto", um disco cuja capa e título já chamam bastante a atenção. E fora isso, as músicas dela são um capítulo a parte, com grandes toques de glamour, irreverência e kitsch.
E a entrevista que fiz com esta diva, que mora em Fortaleza, e que poderia pertencer ou não a uma cena musical de qualquer parte do mundo. E como ela costuma escrever em seus blogs: "Chega de terra rachada e mandacaru!".
"Pode-se afirmar que o meu trabalho tem um quê de brega e da música sentimental popular. Considero este, o estilo universal. Acho desnecessário esta salada musical para exportação que está se tornando a atual cena brasileira."Para começar, quem vai responder às perguntas: Karine ou Producta? Quando teve início essa dupla personalidade artística? No que uma é diferente da outra?
Pouco antes de gravar meu primeiro disco me veio como solução fazê-lo como uma outra pessoa. Então criei Producta, uma versão de mim mesma (risos).
Seu estilo é ser provocante ou a provocação na música é uma conseqüência da música?
Não há muito isso de provocar, ou consequência. Existe a representação de estados alterados do sexo feminino. A música funciona como trilha para estes estados emotivos da personagem. Nem considero isso como provocação. O que tento expor no meu trabalho são questões mais profundas.
O bom humor está presente, como nos clássicos da história da literatura, quando a comédia era tida como uma arte maior. A música "Complexo de Épico" do Tom Zé desafia esse pensamento classe média que de alguma forma instituiu que as coisas têm que ser "sérias". A ignorância é um dos maiores perigos para artistas que não se encaixam nas regras de "qualidade" criada por críticos sem intuição.
Como a música chegou em sua vida?
Cresci numa cidade no interior do Ceará. Comecei a cantar muito pequena nos espaços da cidade (colégio, Igreja, festinhas). Aos cinco anos fiz uma música que foi adotada na minha escola. Cantamos essa música durante anos. Talvez ainda seja cantada lá até hoje (risos).
Foi mais ou menos nessa época que eu decidi que seria uma artista. Com oito anos eu já estava sendo paga para tocar nos eventos da cidade e de lá pra cá tudo foi acontecendo naturalmente. E aqui estoy.
O que existe de kitsch e o que existe de glamour em Karine Producta? Ou esses conceitos não se aplicam mais?
Kitsch, são os meus sapatos e glamurosa, minha cabeça - Afinal, é como diz Shakespeare "só é um bastardo do seu tempo, o que não se vale da conveniência".
O que você acha de se mostrar através de palavras, em entrevistas, letras de músicas e depoimentos?
Uma necessidade natural. Também gosto de confrontar isso com minha imagem no espelho.
O que você acha de ser uma diva? Ou anti-diva?
Como uma diva anti-diva não preciso achar nada (risos).
Como escolheu um repertório de estilos musicais tão variados para trabalhar?
Na verdade, não existe tantos estilos assim. Tenho um gosto e o priorizo. Pode-se afirmar que o meu trabalho tem um quê de brega e da musica sentimental popular. Considero este, o estilo universal.
Acho desnecessário esta salada musical para exportação que está se tornando a atual cena brasileira. Cantoras num ano cantando MPB, no outro Drum´n bass, no seguinte jazz-world-music-com-maracatu (risos) enfim, esse tipo de loucura pelo sucesso.
Como a banda que toca com você foi formada?
Procuro pessoas as quais gosto do trabalho. Claro, pessoas que têm afinidade com o meu trabalho. Por outro lado existem músicos que eu adoro, mas que nunca trabalharia junto por pura falta de afinidade intelectual. Pra mim isso é o mais importante.
O que você acha que Roberto Carlos acharia de seu trabalho?
Como assim, acharia? Ele tem meus dois discos. Eu tenho todos os discos dele. Nós dois somos românticos (risos).
A capa do disco tem chamado bastante a atenção das pessoas. Gostou do resultado? Era exatamente como deveria ser ou tinha outras idéias em mente?
Antes de fazer o disco, eu já queria que a capa fosse assim.
Como é a escolha das covers para seus discos e pros shows? De que forma você mexe e reinventa essas canções?
São músicas que gosto desde pequena. Sempre tive um jeito particular ao cantá-las. Isso é algo que eu faço - Ter o meu jeito de cantar. Desde pequena sempre tive isso muito claro, a importância em se ter um estilo ao fazer as coisas. Isso em qualquer forma de arte.
Nem eu, nem você vivemos os anos 60, mas aparentemente ele se mostra mais interessante em estilo, música e comportamento do que foram os anos 80. O que mais você pode falar das referências à década de 60 no disco?
Pode-se acrescentar o visual do cinema desta época, a estética da Nouvelle Vague, filmes como Blow Up... enfim, são referências fortes. A música Francesa, Italiana. A revolução nas artes provocada por Warhol, Velvet Underground. Todo o design da época. É uma década de ideais românticos em todas as acepções que a palavra romântismo possa ter.
E dos shows que você já fez em Fortaleza, o que o público que te conhece acha dos shows?
Aqui em Fortaleza tenho um público que vai de crianças, passa por adolescentes e chega até a senhores e senhoras de cabelos brancos. Acho isso fantástico. Depois de anos de trabalho consegui escapar dos modismos e hoje fico contente em ter um público fiel que entende a música que faço.
Você pensa no sucesso? Como?
Sucesso é ter a certeza que está fazendo o que realmente gostaria de estar fazendo, como havia planejado nos últimos dez anos. Mesmo que não seja bem isso, se você acordar sem dor de cabeça já tá ótimo (risos).
Sempre me disseram que jornalista não consegue ficar quieto e quer sempre ser mais coisas do que é. Você consegue conciliar bem todas suas outrasatividades de atriz, cantora, cineasta e jornalista?
O meu trabalho enquanto cantora e atriz funcionam dentro de um mesmo universo. Um completa o outro. Posso dizer que no programa que tenho na TV faço entrevistas do jeito que sei fazer, sem padrões jornalísticos.
Quando penso nesse assunto só me vem como exemplo alguém como o Millôr Fernandes, que tem o seu jeito de fazer seus textos, desenhos etc. Não saberia fazer nenhuma dessas coisas de outra forma. Apesar destes muitos afazeres durmo bastante.
Você demora muito tempo escolhendo um figurino?
Não.
O que você mais gosta de ouvir atualmente? Que tipo de música não desgruda de seu ouvido?
Adoro a " Você Vai continuar Fazendo Música?" do Rogério Skylab. Ele é sempre ótimo.
O que você acha da presença de uma cantora como você em meio aos estereótipos que criaram sobre a música de Fortaleza e a própria cidade de Fortaleza?
De certa forma eu sirvo como exemplo para a quebra desses estereótipos. Mas entendo o que você quer dizer. O que posso garantir, até por experiência própria, é que se você tiver um trabalho e se concentrar nele esse tipo de problema passa a não existir. Ou, se você perde seu tempo preocupado com isso, é porque você não tem certeza do que é. Este é o meu trabalho. É isto que eu quero continuar fazendo, não importa se aqui em Fortaleza, aí em Recife, ou em outro país...
Trata-se de uma necessidade individual e só. Ainda assim, Adoro que as pessoas gostem. Sinto-me honrada em fazer parte desse processo.