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Pullovers
Tathianna Nunes em 30.10.2005



Mari, Ana, Daniel e Luis formam o quarteto paulista Pullovers. Desde 1999, a banda, que canta em inglês, era uma das mais fofas do cenário independente brasileiro. O seu primeiro lançamento, Pullovers can´t play covers, foi lançado em 2001 e de lá pra cá muita coisa mudou: eles não gostam mais do álbum de estréia e acumularam uma série de aventuras e desventuras para contar.

Em 2004, quando estavam produzindo o terceiro disco, Carniça, Luiz Venâncio, vocalista, em um desses encontros da vida, convidou a cantora e modelo Geanine Marques (a preferida do estilista Alexandre Herchcovicth e presença certa nos desfiles paulistanos) para participar do disco. Inicialmente, Marques deveria cantar apenas algumas músicas, mas Carniça precisava da graça e da voz da modelo que acabou dominando boa parte dos vocais. Diferente dos discos anteriores, que trazem canções sobre paixões adolescentes, Carniça trata do universo da noite. São 23 músicas sobre traficantes, travestis, gigolôs, garotas de programas, Pullovers. Luiz Venâncio conta tudo.

"Todo recreio eu apanhava de um menino mais velho que queria tirar a minha turma da quadra da escola pra jogar bola com seus amigos"

É verdade que vocês negam o primeiro disco?
É verdade. Porque, apesar da produção do Adriano e do Marco (do Butchers') e de algumas músicas serem boas, o disco é ruim pra danar. Ainda éramos muito crus. Então a gente vê esse disco hoje mais como uma "demo prensada em fábrica". Quem tiver esse disco e estiver lendo isso, por favor nos revenda, aí a gente tira todas as cópias de circulação, quem nem fez a Xuxa com aquele filme em que ela dá pro garoto de 12 anos.

Eu tenho o primeiro disco... Você vai ter que pagar muito por ele.
Quanto você quer? Faz o preço. Pessoas que têm o disco e escrevem em jornal, revista, site (formadores de opinião em geral) recebem 50% a mais.

Como você conheceu Geanine Marques? Ela conseguiu o clima de "cabaré" que você queria?
Como cantora, conheci a Geanine se não me engano em 2002, assistindo a um desfile do Alexandre Herchcovitch em que ela cantava músicas dos anos 50. Eu adorei, fiquei chocado. Vez ou outra também encontrava com ela na noite, mas nem conhecia pessoalmente. Como nós (Pullovers) já estávamos ensaiando músicas que falavam dessa temática da noite, resolvemos então convidar a Geanine pra cantar algumas exatamente pra dar um clima mais "cabaré" (ela seria a "diva" do cabaré). Aí o Alisson Gothz, um amigo em comum, fez a "ponte" entre a gente, nos demos super bem e o projeto inicial, que era com ela cantando 5 ou 6 músicas, acabou ficando com a voz dela em 12 músicas (sem contar os backings). Acho que funcionou muito bem tanto em termos do "clima" do disco (meio cabaré, mas "cabaré punk rock") quanto por juntar músicas às vezes mais pesadas com a voz grave e doce dela.

Então quando você conheceu Geanine, já sabia do envolvimento da moça com a música?
Então, como eu disse conheci a Geanine como cantora exatamente nesse desfile de 2002. Já tinha ouvido falar dela, mas nunca tinha ouvido cantar (na verdade tinha, mas não sabia. Porque a minha música preferida de uma das minhas bandas preferidas, "Backseat" do Grenade, que eu fui conhecer tipo em 99 ou 2000, foi gravada com a Geanine cantando - e eu só fui descobri isto alguns meses atrás!).

O que você acha do Les Stops Betty (banda de Geanine Marques)?
Pra falar a verdade, não conheço o Les Stops Betty, a Geanine nunca me mostrou. Dos outros projetos musicais dela, conheço as parcerias com o Mamelo Sound System e com o Alexandre Basa.

Existe possibilidade da banda flertar com a eletrônica no futuro, visto que a própria Geanine tem uma banda eletrônica?
Existe, claro, quem fica parado é poste. Tanto com a eletrônica quanto com qualquer outra coisa.

Comenta um pouco o Carniça, elo que escutei é um pouco diferente dos discos anteriores que traziam canções de corações partidos.
É diferente na temática e musicalmente mesmo. Musicalmente é mais pesado e cai mais para o "rockão", aquele rock mais próximo do blues. Em termos de temática, é tipo uma opereta em que os "narradores" das músicas são personagens da noite, tipo garotas de programa, travestis, cafetões, traficantes e tal. O disco só tem 2 temas: ou personagens da noite (geralmente ligados ao sexo) ou corridas de carros. Por isso mesmo tem uma faixa "auto-irônica", curtinha, quase no final do disco, que se chama "Races, Whores". A música diz tipo assim: "mas você só sabe falar de corridas e putas?". Quanto à coisa do coração partido, é claro que não se deixa de ser "compositor de fossa" do dia para a noite... Então tem músicas de coração partido sim, mas sob outro ângulo (como na "When you went to Rome", que é "narrada" por um cara que foi abandonado pela namorada trava que foi trabalhar em Roma).

Por que vocês escolheram esse nome carniça?
Exatamente por falar do universo dos "excluídos", daqueles que são tidos tipo como a "Carniça" da sociedade (nós nos incluímos). E também porque o nome, mesmo em português, soa bem em todas as línguas.

Qual é a sua música favorita do novo disco?
Claro que gosto de todas, mas tenho um pouquinho de "prazer a mais" em tocar "When you went to Rome"

Carniça foi lançado dia 19 de dezembro de 2004. Como foi a recepção do público? E da crítica?
Do público ainda não sabemos, porque por enquanto só fizemos um show do disco novo, o show de lançamento. Espero que os shows encham. Da crítica, a recepção foi ótima, dizem que é o nosso melhor disco (tem alguns até que falam que é o melhor disco independente de rock já gravado no Brasil. Então tá, agradecemos os elogios).

Eu sei que é complicado escolher um trabalho e tal, mas qual dos discos do Pullovers você ficou mais satisfeito com o resultado?
Sem dúvida o novo, Carniça. Mais maduro, mais bem produzido, com músicas melhores e tal. Sempre o disco sai diferente do que você imaginou a princípio, mas este é por enquanto aquele que mais se aproxima do que a gente queria fazer.

O Pullovers já foi vítima do sucesso?
Na verdade não, nunca fizemos sucesso comercialmente, porque pra uma banda independente isso é quase impossível (vender 2 mil cópias já é ótimo). Por outro lado, estar lançando o terceiro álbum tirando dinheiro do próprio bolso, com qualidade artística e tendo certa repercussão de mídia e mesmo de público é, de certa forma e dentro do universo independente, um "sucesso". Então, quando falamos da "fracassomania", falamos dessa compulsão que alguns do universo independente têm de só valorizar "a grande banda que não deu certo", "a grande banda que só lançou uma demo e depois terminou", "a grande banda que só eu e mais ninguém conhece". Veja o nosso caso: quando lançamos nossa fita demo, em 99, éramos tidos como "a" promessa do rock independente paulista. Depois, quando lançamos o primeiro e o segundo álbuns (não falo da qualidade artística dos discos, que pode realmente ser discutível, mas isso é outra história), muita gente começou a torcer o nariz, a entrar numa onda meio "mas Pullovers de novo? Esses caras não cansam não? Já me encheram o saco!" É engraçado, parece que você não pode gravar seus álbuns, evoluir musicalmente, continuar na batalha e tal, persistência vira sinônimo de coisa chata. Temos vários exemplos disso até em selos, de caras de selos que preferem lançar o disco de canções de ninar do primo a lançar o disco do Pullovers, sendo que o disco de canções de ninar do primo vai vender 50 cópias e o disco do Pullovers vai vender duas mil. Por quê, será burrice? Falta de tino comercial? Não, talvez seja preconceito pelo fato de Pullovers ter um certo "apelo pop". Ou, traduzindo: eu chamo isso de Fracassomania.

Você disse que tem selos que não lançariam os discos do pullovers, você pode dizer o nome deles?
Claro que posso. Mas é óbvio que não vou dizer. Primeiro, porque ainda não entrei na aula de jiu-jitsu. Depois, porque bater em indie fracassomaníaco que se acha alguma bosta só porque lançou uma ou outra fitinha cassete de alguma banda em 97 ou porque promove algum festivalzinho que só explora as bandas e paga de "arauto dos independentes" para a imprensa (que geralmente acredita) seria muito humilhante, tipo bater em bêbado. Acho louvável, por exemplo, selos como a Ordinary (que lançou nosso primeiro disco), que começou nas fitas cassete, mas que depois fez do Butchers' uma banda conhecida, como a Bizarre, que investe no marketing das suas bandas, promotores como o Foca, da Madame X de Londrina, que trata as bandas independentes de uma maneira totalmente profissional e respeitosa, distribuidoras como a Tratore... Aliás, nós (Pullovers) somos amigos e respeitamos 90% do povo envolvido nessa coisa de "independência", e não digo que praticamente 100% de quem está nesse mundo não seja bem intencionado. Mas de boa intenção o inferno tá cheio e, em alguns casos, a fracassomania e a falta de visão "comprometem". Isso que estou dizendo não é revanchismo porque um ou outro selo não quis lançar os nossos discos. É indignação com a burrice de uma forma geral. Mas beleza, porque pelo menos o disco do Pullovers, que é a parte do "universo independente" que compete a nós no momento, nos dá a alegria de vender bem sem que a gente precise lamber o saco de nenhum mané.

Você já pensou em parar de tocar por causa desses preconceitos?
Não, e eu vou dar trela pra nego que apanhou na escola quando era criança, ficou traumatizado, não faz sexo e tenta descontar em mim? Eu não, apanhei na escola também, mas superei o trauma.

Nossa... Você apanhou na escola.. Conta como foi?
Apanhei muito. Todo recreio eu apanhava de um menino mais velho que queria tirar a minha turma da quadra da escola pra jogar bola com seus amigos. Mas superei. E provo que superei: não montei nenhum selo indie que não lança Pullovers, faço sexo regularmente e não me acho herói porque conheço bandas do Cazaquistão.

Do que vocês mais gostam: tocar ao vivo, ensaiar ou gravar?
Tocar ao vivo.

Qual foi o lugar mais legal que vocês já tocaram? Por quê?
O lugar, acho que foi num buffet infantil. Era uma festa organizada por uma amiga nossa. O flyer tinha “São Cosme e São Damião”, era tipo "open bar" e tocamos numa tendinha, tipo um cirquinho. Foi divertido porque foi uma multidão de bêbados brincando de escorregador e pulando na piscina de bolinhas.

Você poderia contar histórias sobre os outros membros da banda?
Claro, falar mal dos outros é mais fácil do que falar mal de mim. Quer que eu fale sobre eles antes ou depois deles tomarem a terceira vodka? Bom, o Daniel. Toca bateria com a gente e também é dj. A Ana é engenheira e toca baixo com a gente, representa a parte mais "feminina" (no quesito sensibilidade feminina) da banda, agora com o auxílio da Geanine. A Mari é a melhor guitarrista do rock brasileiro (como não estou falando de mim posso falar, mesmo porque é verdade). E a Geanine é "a" cantora.

A Ana é muito assediada nos shows? Tem alguma boa história a respeito?
Assediadíssima. Sempre tem um bando de moleque de pintinho duro quando a gente toca. Hoje ela é uma mulher séria, casada, então vou ter que omitir a história, senão ficamos sem baixista. Mas, mudando de assunto, você já viu aquele filme de gladiadores, “Os 12 contra Roma”?

Não. Por quê?
Essa eu não respondo nem sob tortura.

São pelo menos cinco anos tocando juntos. Há algumas histórias de brigas, desentendimentos ou algo semelhante?
Claro. Vira e mexe a gente briga, geralmente por causa dos arranjos das músicas. Mas como ninguém se leva muito a sério, acaba todo mundo dando risada.

Qual é a coisa mais difícil para manter uma banda?
No caso de uma banda independente, pela falta de dinheiro, acho que é conciliar os horários e interesses de todos (já que todos têm que ter outros trabalhos pra poder se sustentar). Por outro lado, tem a vantagem de que quando você está numa banda independente é porque realmente ama aquilo, já que a banda não paga suas contas. Então, há um "amor à camisa" maior.

Como são feitas as suas composições? O que o inspira?
O que me inspira é, evidentemente, o que eu estou vivendo no momento. Então, se estou solteiro e saindo todas as noites, por exemplo, é o universo da noite, as pessoas que encontro na noite. É o caso do disco novo, Carniça. Se eu estivesse casado ou morando num sítio, provavelmente a fonte de inspiração seria outra.

O que você anda escutando ultimamente?
Ando escutando as músicas de fossa do Chico Buarque. Mas só as de fossa, tipo "Atrás da porta".

Qual foi a banda mais legal que você conheceu em 2004? Por que? E a pior?
A mais legal eu já tinha conhecido antes, mas só comecei a reparar em 2004. O Rapture. É um som que, mesmo sendo rock-dance, abre a cabeça da gente, faz coisas que pros roqueiros "tradicionais" soariam como heresias. Eles fazem coisas às vezes não necessariamente novas, mas que tinham ficado esquecidas lá nos anos 80 e que são do caralho. A pior, pra mim, foi Libertines. Acho truque. As revistas inglesas inventaram que é bom e o povo acreditou.

Conta teus problemas.
Atualmente meu principal problema é pagar o aluguel.