Rádio de Outono
Coquetel Molotov Foto: João Z em 25.11.2005
Antes da Rádio de Outono finalizar o EP de estréia, lançado recentemente pelo Coquetel Molotov Discos, tivemos um dos nossos encontros típicos de domingo à noite na casa de Aninha para comer e discutir assuntos burocráticos. Mas, dessa vez, não foi apenas mais um encontro, tivemos o grande prazer de comer o macarrão à carbonara de Bruno Arrais, do Recife Rock, e de escutar o disco ainda na fase pré-mixado da Rádio de Outono.
Ficamos algumas horas trancados na cozinha escutando o disco num som bem ruimzinho, enquanto Bruno preparava o jantar. Leia o resultado!
"Achamos interessante a relação com os Mutantes pelo seguinte, tanto nós como eles somos experimentais e pop. Porque, assim, são duas palavras que normalmente as pessoas acham que são antagônicas, mas é possível ser experimental e ser pop "Faixa 1: Além da Razão
Gleisson: Olha o efeito do baterista.
Viviane: E escuta o efeito de espaço que está rolando.
Gleisson: Claro, “Além da Razão”, porque o cara tá muito doido.
Aninha: É bom escutar neste som porque podemos perceber como as pessoas irão escutar o disco em casa. Por exemplo, este som só vai até esse volume!
Jarmeson: Aí é foda...
Gleisson: Tem isso também.
Jarmeson: Dídimo, você ao vivo não vai conseguir fazer isso nos teclados. Você não tem esses timbres.
Dídimo: Só ter um teclado fera como o de Juliano, da Parafusa. É um processo muito moderno.
Jarmeson: Será uma banda de estúdio? Ao vivo não vai se garantir mais.
Bárbara: Advogado do diabo.
Gleisson: Vamos compensar na energia.
Bárbara: Você está sendo muito pessimista. A banda não vive só de show não. Aqui fazemos muitos shows, mas você tem que pensar grande, pensar que a maioria... Existem vários lugares, várias cidades, onde as pessoas não estão vendo o nosso show. Temos que mostrar as idéias que temos.
Dídimo: Queríamos colocar propositalmente algumas coisas a mais que não vamos fazer na hora do show para que as pessoas chegassem na hora e fizessem “pa-pa-pa”.
Faixa 2: Sabe Tudo
Gleisson: Agora tem cinco vozes aí...
Bárbara: Não sei se isso será a faixa dois mesmo.
Gleisson: Dobramos a voz de Bá, parece efeito na voz, mas na verdade ela está cantando em cima dela mesma, aí tem um efeito de corda natural.
Viviane: Sabe com o que eu achei parecido isso? Com o disco Tutti-Frutti da Rita Lee. Ele tem uns lances assim. Não sei se vocês já escutaram.
Gleisson: Eu tenho.
Viviane: Sei lá, é um negócio que lembra muito aquela época.
Gleisson: Gostamos mesmo.
Aninha: Como será isso ao vivo?
Bárbara: Os meninos podem fazer as outras vozes.
Tathi: É bem pop, acho que o meu irmão vai gostar.
Jarmeson: Na outra gravação não tinha isso.
Bárbara: Eu era mais desafinada.
Dídimo: Aquela foi uma gravação da demo com vários déficits, principalmente orçamentários.
Bárbara: Não só orçamentários. Tínhamos acabado de perder a guitarra, acabado de mudar o formato, então não tínhamos nos escutado, pô. Então quando começamos a escutar a gravação, os backing, aí pensamos, não vamos colocar isso não.
Gleisson: Preste atenção, preste atenção.
Aninha: Pianinho de bar.
Gleisson: Exatamente. Engraçado é o seguinte, se você separar o canal do bar, você escuta Léo falando “pessoas agradáveis aqui neste lugar, oh ambiente legal”. Mas aí misturamos os canais.
Jarmeson: Como foi pra gravar isso?
Gleisson: Montamos uma mesa no lado de fora do estúdio, pegamos um monte de brita, gelo... Abríamos a Coca-Cola, a tampa, quebrava copos, jogava talher, para simular um ambiente de bar. Inclusive...
Bárbara: Tem até um arroto de Fernando se você escutar direitinho.
Gleisson: Escutando o Panis et Circenses dos Mutantes têm eles falando “As pessoas na sala de jantar” e no final tem “Passa a salada”.
Bárbara: A idéia não veio disso. De jeito nenhum...
Gleisson: Achamos interessante a relação com os Mutantes pelo seguinte, tanto nós como eles somos experimentais e pop. Porque, assim, são duas palavras que normalmente as pessoas acham que são antagônicas, mas é possível ser experimental e ser pop.
Aninha: Exatamente. Eu fiz uma entrevista com Aluminum Group e eles disseram a mesma coisa e chegaram a falar que os grupos experimentais de Chicago, às vezes, achavam eles pop demais, mas na verdade eles não conseguiam ver como eles eram experimentais dentro do pop.
Gleisson: Gostamos muito disso mesmo.
Jarmeson: A ordem das faixas será essa mesmo, né?
Bárbara: Não necessariamente.
Gleisson: Provavelmente sim.
Bárbara: Estamos estudando isso ainda.
Faixa 3: Eu Sou O Tao
Bárbara: Essa foi a faixa mais divertida de gravar.
Viviane: Por quê?
Bárbara: Por causa dos brinquedinhos. Depois que terminamos de gravar, eu peguei todos os brinquedos que eu tinha e coloquei no chão e saí pegando aleatoriamente, tocando na hora. Alguns saíram para não ficar demais. Foi tudo na hora, “vou pegar outro agora”, dava uma parada, “não, agora não”. E foi todo mundo junto e ninguém pensou como seria isso.
Aninha: Gleisson, eu achei muito boa a sua voz.
Gleisson: Gostou? Muito legal, obrigado.
Aninha: Bárbara, você teve muitas dificuldades com a sua voz? Desafinava muito? Teve que repetir algumas vezes?
Bárbara: Eu estou completamente satisfeita comigo. Muito, eu me surpreendi. Eu não imaginei que fosse ter o desempenho que eu tive. Eu comecei, um dia antes, pensando como não estava satisfeita comigo e fiquei em casa martelando. Aí mudei o tom de duas músicas. No dia da gravação, quando cheguei no estúdio, eu disse que iria aumentar o tom dessa música, “vocês aí vão pegar logo, se virem, para render melhor”. Dar uma desafinada deu, mas a maior parte do tempo eu consegui dar o melhor de mim no momento. Eu sei que posso dar mais, mas eu sei que dei o melhor de mim no momento.
Todos: batendo palmas.
Gleisson: É uma coisa para falar mesmo, porque quando gravamos a demo, uma das deficiências que sentimos foi exatamente na voz. Ficamos preocupados porque a voz é logo o que fica na frente na mixagem e Bá surpreendeu todo mundo.
Bárbara: Até para pegar as coisas novas, as melodias, backing novos, eu estava pegando logo de cara. Eu não consegui ser tão ágil assim.
Aninha: Escutem. Oh, o gritinho de Gleisson.
Gleisson: É a parte clássica do show.
Faixa 4 – Velha Página
Viviane: Essa música estará na próxima novela das 8.
Bárbara: Será com aquele casal assim que se amam, mas não conseguem conviver juntos.
Gleisson: Essa é uma música bem antiga e, então, ficamos pensando se deveríamos gravá-la ou não. Aí ficamos meio assim porque é uma faixa bem diferente das outras, ela é a mais romântica, vamos dizer isso na falta de outro adjetivo. Eu, particularmente, já estava enjoado dela e tal, mas eu me surpreendi com Léo. Léo chegou com elementos novos na hora da gravação. Ele e Dídimo se juntaram e eu gostei muito do resultado.
Bárbara: Eu também estava enjoada. Acho que todo mundo estava enjoado. Desde o primeiro ensaio da banda, tocamos essa música. Mas pensamos mais no que ela poderia ser.
Dídimo: Além do Piano, essa música foi feita na época de Olavo Bilac. Bem, sobre o piano, esse som aí é de um sample que o pessoal tem lá no estúdio que é uma coisa extraordinária de 1G de samples de piano, então não é o som do meu Yamaha.
Jarmeson: Mas se conseguirmos um piano para você tocar no teatro, aí você vai tocar essa música?
Dídimo: Ah sim, será um prazer.
Bárbara: Não só essa, né?!
Dídimo: Se quiser, eu faço uma música para você na hora.
Tathi: Ficou muito bonita a voz de Gleisson com a de Bárbara.
Gleisson: É, todo mundo fala, desde a demo, que a minha voz e a de Bárbara soam legais. Soubemos explorar bem em “Velha Página”.
Faixa 5 – Lady Básbara
Gleisson: É a nossa influência do Beach Boys com Os Mutantes com tudo mais... Música de cursinho.
Bárbara: Não está saindo a voz de Gleisson.
Gleisson: É porque esse som é mono. Porque colocamos...
Aninha: Mas é assim mesmo que as pessoas podem escutar em casa.
Gleisson: Achamos legal isso, falamos com Léo...
Aninha: Normal, toda vez que vou pra casa de Viviane eu descubro coisas novas nos meus discos.
Bárbara: Mas falta masterizar ainda, vai dar uma engordadinha.
Viviane: O problema é que está em mono.
Bárbara: Vocês também estão acostumados com o ao vivo que está mais acelerado. Aí não, testamos o tempo, gravamos com metrônomo, tudo certinho. Estudamos o tempo que ela teria no disco.
Aninha: Qual será o hit?
Gleisson: Não sabemos, acho que todas as músicas têm capacidade de ser um hit, na verdade.
Jarmeson: Uma é para TV, outra é pra rádio, outra é pra show...
Gleisson: Acho que “Sabe Tudo” e “Além da Razão”, acho que são essas.
Bárbara: Acho que “Além da Razão” também.
Jarmeson: Isso porque nem ouvimos “Nem o Pó”.
Bárbara: Ah é, “Nem o Pó”, “Nem o Pó”...
Gleisson: “Nem o Pó” não é tão FM quanto “Além da Razão” e “Sabe Tudo”.
Jarmeson: Você acha?
Gleisson: Completamente. O final dela é muito estranho.
Tathi: Copia o disco porque eu quero escutar em casa.
Bárbara: Ela vai ser aquela música que vai tocar no programa e vão cortar o final dela. Vão enfiar outra música.
Gleisson: Agora era pra ter “X igual a menos”. Porque seria o outro canal que não está aqui.
Bárbara: E tinha duas vozes, né?!
Faixa 6 – Nem o Pó
Jarmeson: Tem um gritinho depois...
Bárbara: Foi engraçado porque ficamos testando, Léo e William ficavam: “Bárbara vamos lá, com mais força! Agora mais gutural!”, aí eu “oaaaaaaaah”. Saíram coisas engraçadas que na hora a boca... Saía um “corrente” (com sotaque de sulista), ou saía umas coisas engraçadas. Está tudo gravado, qualquer dia marcamos um encontro para escutar os erros e acertos.
Viviane: Só quero falar que enquanto isso Bruno do Recife Rock continua cozinhando.
Jarmeson: Fernando, como foi tocar baixo nesta música?
Bárbara: Pronto, tivemos que regravar o baixo algumas vezes.
Jarmeson: É a estória do fio terra.
Tathi: Conta essa história.
Aninha: Como é?
Jarmeson: Eles é que sabem.
Gleisson: Foi o seguinte, um baixo de Marcos do Mellotrons, que pegamos para gravar, estava dando interferência e tivemos que fazer uma gambiarra lá que eles chamam de fio terra, que é amarrar um pedaço lá de fio...
Bárbara: Pera.
Gleisson: Ah, tá, vamos escutar o grito.
Aninha: Shhhh...
Viviane: Metal, velho...
Aninha: Metal da porra.
Tathi: É engraçado que tem um negócio meio de fadinha, estrelinhas, bolhinhas de sabão e aí vem o “ahhhh”.
Gleisson: Exatamente, e o vocal que vem antes é bem suave propositalmente.
Bárbara: A primeira vez que eu fiz isso foi quando eu comecei a tocar, quando assumi o vocal mesmo. Ninguém sabia e no meio do show eu, ao invés de cantar, gritei. Quando olhei pros lados os meninos estavam olhando para mim “como assim?!”.
Tathi: Foi por isso que você perdeu a sua voz (depois da gravação)?
Bárbara: Mais ou menos, foi um pouco por isso. Eu tive outros problemas de refluxo, de laringite, mas muito foi por causa disso. Porque foi assim, gravamos, terminamos de gravar as vozes e eles falaram “vamos sujar a sua voz, bem muito para gravar os gritos e ficar com uma voz bem ‘ahhh’” . Aí comi tudo que eu não estava comendo naqueles dias: Coca-Cola, fritura, comi bem muito e depois fui gritar.
Tathi: Ah, tá. E ainda ganhou uns quilos a mais.
Bárbara: É.
Gleisson: “Sujar a voz”... “Agora você está liberada, agora toma bem muita Coca-Cola e coma bem muita coxinha para gritar”.
Tathi: A Coca-Cola não vai gostar de ler essa entrevista.
Faixa 7 – Fim ou O Fim
Gleisson: estamos meio indecisos se colocamos Fim ou O Fim.
Jarmeson: Bota final.
Aninha: Essa é a última música?
Gleisson: É, e vai ter uma vinheta, uma espécie de locução, como uma rádio. Queria chamar um locutor bem de AM.
Tathi: Essa é meio “dedique esta música para quem você ama”.
Gleisson: É, ela é bem sentimental mesmo. Ela diz muita coisa de mim...
Bruno: Bárbara cantando, Gleisson de terninho e tal...
Tathi: E aquele menininho nerd que não consegue ficar com nenhuma menininha e fica olhando para a menina mais bonita dançando.
Aninha: É sobre o quê?
Gleisson: A música fala sobre... Na verdade é uma pergunta, se a coisa acabou ou se não acabou.
Aninha: Quem escreveu a música?
Gleisson: Eu.
Aninha: E é sobre o quê?
Gleisson: Sobre mim. A minha relação com Bárbara.
Aninha: Está terminando?
Gleisson: Não, não...[Pausa]
Viviane: O clima ficou pesado agora, todo mundo calado.
Gleisson: Não, não. Eu acho melhor vocês prestarem atenção na letra. Essa música é nova, tínhamos ela só com violão e voz e, já que não usamos guitarra, aí decidimos fazer piano e voz. Aí Dídimo fez esse arranjo e os meninos só completaram com a atmosfera.
Aninha: Como é compor uma música desse tipo e colocar Bárbara para cantá-la?
Gleisson: É muito emocionante.
Tathi: Você chorou quando gravou?
Gleisson: Quando gravou não, mas quando fiz, chorei. Quando ensaiava, chorei.
Bárbara: Eu é que me acabei de chorar, completamente em prantos durante a gravação.
Tathi: Chega mudou o clima com essa música. Estava tão animado e agora estamos pensativos.
Viviane: E no final acabou?
Bárbara: Vamos continuar amigos.
Gleisson: Mas tem a última que vai animar tudo.