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Frances McKee
Viviane Menezes em 10.12.2005



Frances McKee tirou-me o sono durante alguns bons meses, desde quando tive a idéia de fazer esta entrevista, que você começa a ler agora no conforto da sua casa, trabalho, praça ou, quem sabe, esperando um filme começar em uma sala de cinema, até a transcrição destas linhas iniciais. A verdade é que - você vai concordar - é sempre muito difícil falar de alguém que você admira. Lembro-me de, em algumas ocasiões, ficar travada, com a boca seca e o coração saltando dentro do peito ao mencionar um grande amor, ou quando simplesmente teço elogios a uma pessoa querida - minha mãe, por exemplo, a quem tanto amo e respeito.

E respeito é o que tenho por esta mulher. O seu nome sempre me fascinou – Frances McKee; a sua voz também - delicada; as suas letras, compostas com o Eugene Kelly, seu ex-companheiro no Vaselines, – irônicas, mais recentemente com o Suckle – profundas; a sua forma de tocar guitarra e estar sempre no meio dos homens – determinação. Então, como começar a escrever? O que dizer de uma mulher que sempre ousou no mundo do rock, ambiente este tão masculino? A não ser que ela mesma nos ajude.

A historinha começa mais ou menos assim...

"O primeiro show ao vivo foi em Bristol abrindo para o Pastels. Foi medroso, mas muito divertido, felizmente eu estava bêbada demais para ficar muito nervosa"

Quais são as suas primeiras lembranças musicais?
A minha lembrança era eu tentando tocar o piano que a minha mãe cortou e utilizou como lenha. Não venho de uma família muito musical. O meu avô tocava gaita de foles e a minha tia tocava o kazoo.

Como foi o crescer na sua casa?
Eu venho de uma família de cinco crianças e eu sou uma gêmea. Sim, tiveram muitos traumas; principalmente a minha mãe que nos tratava como adultos e eu sempre senti que a juventude me ignorou de alguma forma.

Como você descobriu a música?
As pessoas tentaram me impedir de tocar música por toda a minha juventude. Primeiro o piano, depois me disseram que não poderia cantar na escola, eu estava desesperada para tocar um instrumento, mas fracassei no teste também. Eu consegui entrar na aula de gravação, fazendo de conta que era a minha irmã. Quando estava mais velha, eu fiz uma audição para um musical e me disseram que eu era um “mezzo soprano”.

O que fez você começar a tocar guitarra?
Eu não queria apenas cantar na banda, queria fazer bem mais. E a guitarra me pareceu o instrumento mais acessível. Eu não sei o que me levou à música, eu poderia ter sido atriz ou ter feito qualquer outro tipo de arte. Todo mundo a minha volta estava fazendo isso, então por que não?


Pois é. Frances McKee é uma fortaleza. Apesar de todas as dificuldades que vocês puderam constatar, ela seguiu em frente. A sua banda mais famosa, o Vaselines, começou em 1986 (eu tinha 6 anos, nem sonhava muito com rock), em Edimburgo, Escócia. Foi a união de dois adolescentes apaixonados, eles dividiam confissões de amor e trabalho, Frances e Eugene, mais Charly McKee, irmão de Frances, na bateria e o amigo, James Seenan, no baixo.

Eram completamente desconhecidos. Só sabiam da existência deles pessoas que viviam na cidade, indies, músicos... Sim, e foi um músico, mais precisamente Kurt Cobain, que os conheceu em 1989 e, em 1992, os apresentou ao resto do mundo, até pra mim, regravando algumas canções da banda na coletânea Incesticide. No mesmo ano, finalmente, todo o material do Vaselines foi lançado, fazendo jus a um dos grupos mais importantes do cenário gaulês - The Way of the Vaselines: A Complete History, pelo Sub-Pop.

Kurt Cobain era tão apaixonado por Frances McKee, que, quando a sua filha nasceu, também em 92, nem pensou duas vezes, chamou-a de Frances. Dois anos depois, o Nirvana lançava o Acústico MTV, mais covers dos Vaselines e, a cada dia, as pessoas iam descobrindo a poesia simples, mas genial, da dupla da Escócia.

Conte-nos um pouco mais, por favor.


De que bandas você já participou?
Pretty Flowers, Duglas T. Stewart [vocalista e compositor do BMX Bandits] contou pra você que éramos chamados de The Child Molesters (molestadores de crianças) antes desse nome? Eu não sabia se queria ser rotulada como uma Pretty Flower então eu fui formar o Vaselines com Eugene. Depois do Vaselines, eu não fiz muita coisa já que era uma professora. James Seenan, o baixista do Vaselines, me persuadiu a me juntar a ele e então formamos o Painkillers, isso era usando eletrônico com guitarra. Depois eu comecei o Suckle com Marie, e James nos ajudou muito.

Você lembra do primeiro show do Vaselines?
O primeiro show ao vivo foi em Bristol abrindo para o Pastels. Foi medroso, mas muito divertido, felizmente eu estava bêbada demais para ficar muito nervosa.

Ah, o Pastels teve um papel muito importante nessa época, verdade?
É. Stephen nos ajudou muito, ele conseguiu lançar os nossos discos pela gravadora 53rd & 3rd e nos deu muito apoio.

O que o lançamento do The Way of the Vaselines: A Complete History pelo Sub-Pop significou para a banda?
Eu nunca vi o Vaselines como um sucesso muito grande, porque enquanto estávamos juntos, parecia que não éramos tão aceitos. Eu sentia que as pessoas nos encaravam um pouco como uma piada. Eu fico surpresa com isso tudo.

Qual é a memória mais viva que você tem da época do Vaselines?
Eu acho que teria que ser quando tocamos abrindo para o Nirvana. Tínhamos na verdade terminado a banda e nos juntamos mais duas vezes para tocar uns shows e também para abrir para o Teenage Fanclub. Como sempre, eu não podia lembrar como tocar cada música e tinha que ensaiá-las antes com Eugene no camarim, aí Kurt entrou e eu tive que explicar que não tinha tido a oportunidade de ensaiar. Isso foi um pouco uma mentira porque ensaiávamos o mínimo possível. A minha música favorita era Slushy e Monster Pussy.

Eu li em uma entrevista que você não se envolveu com a música por um tempo porque era tudo muito orientado para o masculino. Como você se sente agora?
Nada tem mudado. Na verdade, está mais difícil agora já que tenho dois filhos e então eu não tenho tempo para ficar me promovendo. Recentemente, eu levei o mais novo comigo para uma pequena turnê. Foi difícil, porque eu não tive tempo pra dormir.

Você é feminista?
Eu acho que o feminismo tem atirado nos pés das mulheres. Nós cuidamos das crianças e fazemos todos os trabalhos, isso é chegar longe? Está na hora de respeitar a mulher pelo o que elas são e não porque elas podem ser como um homem. Então eu acho difícil o feminismo ajudar os direitos das mulheres.


A timidez é algo bem presente na vida dela, podemos ver claramente. Frances me lembra Luciana Lins, a Lulina, uma menina que conheci aqui em Recife e que atualmente mora em São Paulo. Adora cantar (possui também uma voz delicada) e tocar, é fã de Vaselines - faz cover deles, inclusive -, mas quando sobe ao palco também é muito tímida...


O que você pensa quando está no palco?
Quando estou no palco tudo que eu posso pensar é sobre sair dele antes que eu faça algum grande erro.

O que faz você tão insegura?
Eu poderia fazer a mesma pergunta. Eu diria não ter mamado no peito ou ser treinada para ir ao banheiro?

O que faz você feliz e triste?
Feliz: andar para longe de qualquer lugar ou qualquer pessoa num dia claro com sol. Triste: sentir pressa.

Você é viciada em alguma coisa?
Chocolate preto, eu tinha muitos vícios antes, mas agora estou reformada.

Como foi trabalhar com a sua irmã? Quem tem o maior ego?
Foi muito bom trabalhar com Marie, tenho saudades disso. Ela não tem ego nenhum, na verdade, ela era muito tímida sobre os seus talentos.

Por que as suas músicas são tão melancólicas? "So Happy Before" e "Honey Suicide" são sobre o quê?
Eu não gosto de músicas felizes. “So Happy Before” eu escrevi quando terminei um relacionamento. Eu não tinha mais nenhum sentimento sobrando, então essa música me ajudou a sentir novamente. “Honey Suicide”, novamente, é endereçada ao tema de relacionamentos e de como eu preferia estar sozinha a estar amarrada a pessoa porque eu estava com medo demais de ficar sozinha.

Você conseguiu encontrar o que queria no Suckle?
O Suckle não existe mais. Eu descobri que era muito bom ter várias pessoas a minha volta; eu sou um pouco insegura, então parecia segura em termos de números. Mas eu achava difícil ter que me decidir, e ter tantas opiniões me jogaram para fora do meu foco principal. Agora, eu trabalho com um baterista e uma violoncelista. Eu gravei um novo disco, mas ainda não encontrei alguém para lançá-lo na Grã Bretanha, apesar de não ter tentado muito... Precisamos fazer uns shows.

Você poderia falar um pouco mais sobre o seu novo projeto?
Eu gravei a maior parte desse álbum quando eu estava grávida de Syd. Demorou quase um ano para terminá-lo, porque eu gravei em Manchester com Jools McLarnon. Foi no estúdio dela e ela me encorajou muito. Ela o produziu todo e basicamente me ajudou a colocar em prática as minhas idéias. Ela tem o seu próprio selo e banda. O selo chama-se Analogue Catalogue e a banda Bridget Storm. Eles são fabulosos. As minhas músicas agora estão muito mais melancólicas e lentas que o álbum de estréia do Suckle.

Os seus métodos de composição têm mudado com o tempo?
Sim, em muitas formas isso tem mudado. Eu tenho um quarto onde posso praticar yoga e é normalmente ali onde eu escrevo, apesar de que isso pode ser em qualquer lugar.

Se você pudesse voltar e mudar algo, o que seria?
Eu queria ter tido os meus filhos quando estava mais nova.


Frances McKee continua com os seus projetos musicais, além de ser uma professora de yoga dedicada. Mesmo com o fim do Suckle, ela não pára. Até um disco gravado ela já tem, como vocês puderam ler. Um projeto bem mais calmo que o das suas bandas anteriores. Uma música que talvez tente exorcizar os traumas da infância e/ou atuais. Maturidade? Pode ser, mas é que, na verdade, ela sempre esteve à frente do seu tempo. E agora não é diferente. Faltaram oportunidades para ser mais reconhecida? Sim, ou melhor, diria que não, tenho certeza que ela influenciou muita gente por aí. Ela fez a sua parte, continua fazendo e, no fundo, ela sabe disso. Eu espero que, após a leitura desta entrevista, saiam por aí muitas Frances McKees ou simplesmente apaixonados por ela, como eu, porque no final das contas, o que vale é isso mesmo.