Architecture in Helsinki
Viviane Menezes em 28.12.2005
Eles vêm de Melbourne, Austrália, e são muitos. Uma banda com oito pessoas no palco cantando em coro e utilizando desde instrumentos tradicionais até os mais inusitados como é o caso de uma furadeira. Architecture in Helsinki são os mais novos queridinhos do indie pop. Lançaram dois trabalhos, Fingers Crossed (Ber None, 2004) e o super elogiado In Case We die (Bar None) desse ano. A grande sacada do Architecture in Helsinki é misturar sons eletrônicos com rock, muito canto, gravar tudo em casa, num processo analógico, ou seja, bem lo-fi. Algo que não é novidade no mundo do rock, porém eles são uma comunidade musical de jovens apaixonados por música e estão no país do canguru, distante de todo o grande hype. Então, só poderia ter chamado atenção da mídia e do público de olhar mais aguçado. Quem nos concedeu a entrevista foi Cameron Bird, o responsável pela maioria das composições e tutor do coletivo. Com esse sobrenome bem sugestivo, Cameron sabe que é difícil manter uma banda com tanta gente, mas à vontade de fazer música é bem maior.
"Como nós temos viajado muito no último ano, nós tendemos a passar o mínimo de tempo possível quando estamos em casa, pois, precisamos de um tempo uns dos outros"O que motivou vocês a formarem uma banda? O que significa Architecture in Helsinki?
A banda se originou do nada. Nunca foi uma idéia preconcebida. Nós precisávamos de um nome para a banda e olhamos no jornal de sábado. Havia as palavras Architecture e Helsinki. Nós juntamos as duas e foi isso. Não revela nenhum significado profundo.
É difícil manter uma banda com todas essas pessoas?
Quando mais tempo a banda tem mais cansativo isso se torna. Obviamente, viajar tanto e estar tanto tempo longe de casa realmente faz disso um peso. E isso faz com que fique ainda mais difícil das pessoas se comprometerem com o grupo. Quem sabe, talvez em três anos sejamos apenas três integrantes.
E como funcionam os ensaios de vocês com tanta gente?!
Eles são raros e desorganizados. Geralmente leva cinco ou seis ensaios para finalizarmos uma canção. Nós, usualmente, bebemos muito café ou cerveja, falamos demais ou levantamos muito tarde.
E como é o seu processo de composição e a organização dos vocais? Porque existe muito canto...
Geralmente, eu me inspiro pelas coisas mundanas que acontecem como os estalos da torradeira ou uma folha caindo de uma árvore. Deixo as idéias assentando, tomando forma, até que eu sinto que é hora de levá-las ao grupo, e então nós as construímos de alguma maneira. Eu escrevo todos os vocais e meio que entrego cada um deles para a voz que eu acho que melhor se encaixa na canção.
Vocês usam instrumentos estranhos. Eu estou errada ou vi no site uma foto de uma furadeira?
Nós fazemos parte de uma escola de pensamento que diz que tudo pode se tornar música. Sim, você viu uma furadeira que se encaixa na canção “Frenchy, I´m faking”, fazendo um solo ruidoso.
E quais são as suas influências?
É engraçado, mas a minha maior influência é a Tropicália. Tom Zé, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mutantes. Isso é um pop genuinamente inventivo nascido em um tempo importante na história do Brasil e do mundo. Eu desejo muito visitar o seu país...
Você está feliz com o trabalho de In Case We Die? Por que vocês escolheram este nome?
In Case We Die é, definitivamente, uma reflexão acurada sobre onde estávamos nós no ano passado. Como tudo o que se faz, eu sempre mudaria várias coisas nele, mas eu ainda estou muito orgulhoso da maneira como tudo se encaixou bem nele. O nome é resultado de um processo mental, físico e espiritual que o disco deixou em nós e nos nossos relacionamentos. Todo mundo pensa na morte. A questão é que daquela vez nós estávamos pensando demais nisso.
Conte-me uma boa história que aconteceu durante a gravação de In Case We Die.
Nós gravamos o disco no nosso estúdio, Supermelodyword, que é uma garagem em Brunswick – dentro da cidade de Melbourne. Estava escuro e úmido. Uma sala sem janelas ou iluminação mínima. Havia uma praga de ratos.
Como se configura a cena musical na Austrália?
Austrália tem um clima musical muito inspirador. Nós temos muitas bandas, mas não há muito este ar de endeusamento. Existem, pelo menos, trinta bandas muito boas aqui, neste momento, que nunca se ouviu falar no estrangeiro.
Quantos integrantes do Architecture in Helsinki têm educação formal em música? Você acha que é necessário esta formação para ser um bom músico?
Seis, dos integrantes, tiveram lições de linguagem musical. Educação formal, embora seja conveniente, é totalmente desnecessária. Alguns dos grandes músicos nunca tiveram treinamento formal. Eu acho que é importante para desenvolver nossa percepção das notas, escalas e da estrutura das canções. No entanto, eu sinto que é muito mais honesto desta maneira.
E apesar de todo esse trabalho juntos, vocês conseguem sair? São amigos?
Como nós temos viajado muito no último ano, nós tendemos a passar o mínimo de tempo possível quando estamos em casa, pois, precisamos de um tempo uns dos outros. Quando nós viajamos somos grandes amigos. Eu quero dizer: viajar no mesmo carro por dois meses seguidos é, de certa forma, uma interação muito forte.
O seu website é tão legal. Quem é o responsável por ele? Conte-me tudo!
Nosso website é o resultado de uma colaboração entre mim e uma companhia chamada Mathematics from Sidney. Eu dei a ele um esboço harmonioso e um resumo de conteúdo e eles fizeram o resto. Eles são realmente brilhantes e fizeram sites para muita gente, de Eric Clapton a Cut Chemist até Rilo Kiley. O endereço é www.xy-1.com.
Os vídeos também são ótimos. Como as idéias surgem?
As idéias dos clipes estão sempre vindo ao acaso. Geralmente, é tarde da noite e nós estamos delirando de cansados e (ou) bêbados e acabamos criando alguns conceitos muito doidos, que terminam imortalizados no vídeo.
Como são os shows ao vivo? Eu vi algumas fotos no site e notei que vocês tocam em locais diferentes. Alguma história interessante?
Os shows ao vivo são realmente envolventes. Começamos quietos e embaraçados. Agora estamos barulhentos e entusiasmados. Nós todos tocamos diversos instrumentos de uma canção para outra, então, eu acho que visualmente o nosso show é interessante. Sendo o tipo de banda que somos significa que nós podemos tocar em uma diversidade de locais diferentes, de porões emporcalhados a grandes casas de shows. Eu acho que podemos nos adaptar muito bem a qualquer espaço que seja.
Vocês já pensaram no próximo passo da banda? Vocês estão tendo um bom retorno. Vocês estão com medo de aparecer muito?
Mais do que qualquer coisa eu amo compor canções. ENTÃO, como eu não me sinto saturado de viajar tanto e ainda tenho tempo de ficar no estúdio, me sinto feliz. Eu sinto que não existe maneira da banda aparecer demais em breve. Nós estamos procurando melhoras como compositores e como grupo. O melhor ainda está por vir.
Se vocês viessem para o Brasil em breve, o que poderíamos esperar em um show aqui?
Nós, provavelmente, iríamos estar tão absurdamente entusiasmados por estar tocando no Brasil que todos iríamos chorar.
* Uma versão editada desta entrevista foi publicada na revista Coquetel Molotov #1