Ahlev de Bossa
Ana Garcia em 16.01.2006
“Estou fazendo uma série de textos falando sobre compositores do século XX pra quem entrar no site”, conta Lucas Alencar, do grupo Ahlev de Bossa. “Já coloquei texto sobre Jorge Antunes, que é brasileiro. Estou até pensando numa forma de elaborar mais as coisas, quem sabe deixar meu nick do soulseek pra baixarem as músicas de mim. Essa semana tem um texto sobre Flo Menezes”. Lucas toca guitarra e viola no Ahlev de Bossa, junto com Diogo Batista (guitarra), Mateus Alves (baixo), Rodrigo Palhares (bateria) e Túlio Falcão (sintetizador). Eles formaram o grupo em 2002, depois que terminaram a banda Airbag. Os meninos acabaram de lançar o disco de estréia pela Open Field / Peligro Discos.
"Perder a liberdade é perigoso. Para mim perder a liberdade é perder a criatividade"Estou vendo o seu site, parece de banda de metal.
É? Nunca mais entrei, o Papo Cabeça deve estar falando sobre Ligeti.
Qual é a ligação desses artistas com Ahlev de Bossa?
Somos ouvintes deles. Alguns da banda mais, outros menos. Na estruturação das músicas desse primeiro disco nosso não haverá muitas ligações diretas, mas no espírito e no jeito de se pensar música, existem várias. Já nas músicas novas que estamos começando a compor e arranjar, as ligações já são mais claras.
Elas terão instrumentos "clássicos"?
Possivelmente, mas utilizar instrumentos elétricos para funcionalizar uma música dodecafônica funciona bem. É esteticamente viável. Mas os instrumentos "clássicos" das músicas antigas estarão possivelmente nas novas. Viola de arco e trompete com certeza.
Então o que você acha que está mais claro nesse primeiro disco? As influências de rock mesmo?
Sim, na sua maioria. Lógico que o jeito da gente colher informações de estilos não é o convencional que eu acompanho pela internet e pela TV. A gente não copia um estilo, ritmicamente e melodicamente, mas não as negamos. Pós-rock, um pouco de progressivo, algo de chorinho. De erudito, no disco, música minimalista e eletroacústica. E ele é basicamente tonal.
Já pensaram em usar voz?
Na Ahlev de Bossa nunca. No começo da banda, que era o final da Airbag, uma banda que eu tinha com Diogo e Rodrigo Samico, ainda ficou aquela idéia de se usar vocal. Mas foi natural a retirada do vocal, até porque a gente parou de compor canções.
O que aconteceu com a banda?
Airbag fez uns shows. Era a continuação da primeira banda de Diogo, com Rodrigo no baixo. A gente já tava compondo músicas instrumentais. Não tinha sentido manter o nome e as músicas antigas. E foi nessa fase que eu e Diogo entramos na UFPE. Aí, o baterista antigo saiu e a gente passou um bom tempo só compondo na formação de trio.
Quais são as suas formas de colher informações?
A banda em si mudou muito quando a gente começou a estudar música na universidade, mas geralmente o que nos interessa são os elos que fazemos no que estamos escutando.
Aprofunde, por favor...
O que a universidade tem ensinado, apesar das falhas e de todo seu atraso curricular, foi a gente conseguir sentar e começar a tirar uma música do nada.
Técnica?
Também. Audição, muita. E pensar em música mesmo. Criar um ritmo na cabeça, passar para um violão, ou para um teclado, ou até mesmo começar uma música na bateria. Alguém escreve em casa uma linha para um trompete, outro compõe um baixo durante o ensaio. É tudo muito espontâneo. Perder a liberdade é perigoso. Para mim, perder a liberdade é perder a criatividade.
Você acha que não teria isso se não tivesse estudado música?
Estudar música dá mais ferramentas para você compor, e para tocar música mesmo. Seja ela aleatória ou estruturada. Antes de estudar, falando por mim, eu geralmente, para compor, seguia algum estilo de banda que eu tivesse ouvindo muito. Hoje em dia, já dá pra pensar em música sem fazer isso. Se existir alguma influência de algo que eu esteja ouvindo, foi indutivo.
Bem, todos estão envolvidos em projetos mais experimentais. É ruim usar esse termo?
Não tenho frescura nenhuma com termos. Acho os rótulos válidos. Mas se você for pegar experimental ao pé da letra, quase tudo é experimental porque tudo se experimenta antes de se firmar.
É verdade, mas eu não vejo Ahlev como apenas experimental. Tem muita melodia, até.
Sim, claro. A gente usa bateria como uma linha rítmica constante em quatro faixas do disco. Isso é uma característica muito mais de música popular do que de erudita ou experimental.
As guitarras também e vocês sampleam bastante.
Sim, as guitarras. Em algumas partes são bem "fofinhas". Fazem melodias bonitas, bem tonais. Mas é um recurso legal. No disco usei um sampler. Túlio usou o sintetizador e um rádio Am/Fm, além de pedais de guitarra. E o próprio computador.
Vocês gravaram que programas de rádio?
Gravei os de “Papo Cabeça I” e “Papo Cabeça II” aqui em casa, com um rádio. Saí ouvindo as estações e coloquei parte disso no disco, sem edições mesmo. Só no final que coloco um áudio que peguei na internet de uma discussão sobre um fechamento de uma rádio livre.
Parece uma outra língua às vezes, especialmente no começo do “Papo Cabeça II”.
É, a idéia era ter o rádio e que não fosse algo de fundo. É um instrumento da música, mas às vezes não dá pra entender. Em “Papo Cabeça III”, foi no Windows Media Player, aquelas estações de rádio por estilo. Todas falando sobre música, tirando a japonesa, que era um jornal normal. E tem Villa-Lobos falando do meio pro final. A gente fez uma separação das rádios, por canal, mas pra ouvir bem cada uma tem que ter muita concentração. Nem eu tenho.
Por que quase todas as músicas têm esse nome?
Na época que a gente fez uma delas, a gente tava usando muito essa gíria. Daí veio a idéia. Como as duas possuem conversas, veio a idéia de separar por movimentos.
Como se fosse uma obra de música clássica?
Sim, pode ser. Eu gosto dessa idéia de movimentos. Eles são independentes entre si, mas funcionam bem em seqüência. No caso de “Papo IV”, o rádio já é usado como instrumento de ruído.
Quem mais de Recife tem essa mesma linha musical de vocês?
Bem, eu já peguei meio que o bonde andando. Eu conheci o Combo Recife de Improviso por Arthur (do Imbuás). Ouvia muito falar de Thelmo e Túlio. O Combo é um projeto contínuo que geralmente não se repete uma mesma formação e se toca música livre, sem temas. A dinâmica é feita no "durante". Muita gente já participou. Thelmo e Túlio têm um projeto eletrônico, Hronir. Esses são os nomes que eu posso citar, mas vem sempre aparecendo gente nova. Lá da UFPE, tem o Cristiano e o Arnoldo. Tem também o Hiper-prisma, que é um grupo de música eletroacústica.
E por onde essa galera normalmente toca? Ou não toca?
A galera toca sim. Já rolou uns combos no Garagem, em Olinda, no Recife Antigo e em estúdios, pra gravação de sessões.
Alguém é frustrado por não tocar música clássica?
Acho que não. Estudamos música formalmente, mas não quer dizer que façamos música clássica. Pra fazer na vera, o cara tem que ralar um bocado. Mas é uma pretensão de todos.
* Versão integral da entrevista publicada originalmente na revista Coquetel Molotov #1