CocoRosie
Guilherme Werneck em 28.01.2006
Noite de sexta-feira, 4 de março. Espero na fila do Great American Music Hall para ver o único show que consegui reservar do Brasil antes de ir para uma viagem rápida de trabalho em San Francisco. Estou lá para ver um show da CocoRosie, que havia lançado em 2004, La Maison de Mon Rêve, um disco que vinha embalando meus sonhos há meses.
CocoRosie é uma dupla formada pelas irmãs Sierra, 25, e Bianca Casady, 22. As duas são americanas - Sierra nasceu em Iowa e Bianca no Havaí – e tiveram uma vida nômade, acompanhando a mãe, uma professora de Cherokee que depois passou a pintar. Em 2003, Bianca resolveu visitar a irmã, que estava em Paris estudando ópera. A visita se estendeu e as duas irmãs, que não se davam bem na infância e na adolescência, se descobriram. O resultado dessa intimidade é La Maison de Mon Rêve, com seu blues que parece saltar da antologia de folk music do Harry Smith, mas que é temperado com doses certeiras de percussões eletrônicas e sons de objetos cotidianos, gravados e mixados numa mesa de quatro canais num apartamento em Paris.
"Acho que esse disco é uma grande coleção de histórias dentro de uma mesma moldura"
Em San Francisco, as irmãs Casady iam abrir o show para o Antony and the Johnsons. Antony tinha acabado de lançar o ótimo I Am a Bird Now e, certamente, tinha se transformado na voz gay mais quente do momento e era esperado com casa lotada na cidade mais gay do mundo. Na fila, drags montadíssimas, centenas de pessoas com a cara gorducha do Antony estampada em camisetas e todo mundo falando dele.
Ninguém dava muita bola para o CocoRosie. Só duas meninas declaravam amor à dupla pintando em seus rostos os bigodinhos finos e retorcidos, no melhor estilo "Paris é uma festa", que Sierra e Bianca estampavam na capa de La Maison de Mon Rêve.
O show foi daqueles inesquecíveis. Com os Ursinhos Carinhosos no telão, o CocoRosie tocou quase todas as músicas de La Maison de Mon Rêve e mostrou algumas canções novas. Antony tocou na seqüência, se contorcendo atrás do piano, soltando sua voz única de cantor de opereta. No bis, Antony chamou o CocoRosie para um momento de improvisação. Cantaram uma música composta naquela tarde. Basicamente só um refrão que se repetia, algo entre um mantra e uma canção de ninar, que ganhava força no encontro da voz teatral de Antony com os malabarismos líricos de Sierra e a voz áspera, mas afinada, de Bianca. Foi uma cena ritualística.
O que eu não imaginava era que o que eu tinha visto naquela noite tinha tudo a ver com Noah's Ark, o disco que o CocoRosie lançou agora há pouco, em setembro. A arca de Noé foi toda composta na estrada entre Paris e Nova York, onde Bianca e Sierra moram hoje. Transpira o novo folk americano, uma volta à canção encabeçada por Antony, Devendra Banhart, Johanna Newson e, claro, pelo próprio CocoRosie.
Em Noah's Ark, Antony canta "Beautiful Boyz", primeiro single do álbum, e sussurra versos em francês em "The Sea is Calm". Já Devendra esparrama seu espanhol de gringo que morou na Venezuela em “Brazilian Sun", repetindo "Ay quando el sol cambia su color" sobre um fino arranjo, assombrado pelo vocal etéreo de Sierra. "A participação de Antony e Devendra abriu um pouco o nosso som, e o disco tem um lance de comunhão", diz Sierra, por telefone, de Nova York, dias depois de terminar mais uma turnê com o Antony and the Johnsons, desta vez com o repertório do disco novo na bagagem. "A turnê foi encantadora, somos grandes amigos, o que faz com que viajar juntos seja muito tranqüilo", conta Sierra, que conheceu Antony há cerca de dois anos. "Fomos ver o Antony tocar num lugarzinho pequeno de Nova York. Primeiro, nós nos apaixonamos pela voz dele e depois ficamos muito amigos. Acho que o trabalho que fizemos juntos nesse momento é um resultado dessa amizade”.
Menos insular que La Maison de Mon Rêve, Noah's Ark traz uma interessante variedade de canções. Claro, o tom decadente do entre-guerras europeu permanece e as vozes continuam únicas. Inúmeras resenhas citam Billie Holliday, Bessie Smith e Cocteau Twins para tentar colocar as irmãs Casady numa moldura confortável. Mas a verdade é que, mesmo que apresentem semelhanças com a emoção sofrida de Lady Day, com o blues poderoso de Bessie Smith e com os trinados etéreos de Elizabeth Fraser, elas não podem ser reduzidas a essa ancestralidade óbvia, pois têm força e brilho próprios.
Para além da reinvenção do folk neste disco, o CocoRosie também se abre para um certo exotismo, como em "Brazilian Sun", e para o hip-hop alternativo, como na canção "Bisonours", que tem a participação do francês MC Spleen. Embora tenha recebido críticas divergentes - a revista eletrônica Pitchfok o classificou como um dos discos mais irritantes de que se tem notícia -, Noah's Ark contorna bem o problema de fazer um segundo disco depois de uma estréia arrasadora. O segredo é a diversidade. Uma diversidade que passa pelas participações especiais, pela feitura do disco na estrada e que transparece na capa pintada por Bianca: uma orgia de unicórnios que se contrapõe ao desenho de camafeu do primeiro disco, com Bianca e Sierra abraçadas.
“Eu acho que nossas viagens afetaram o disco. Ele é mais turbulento, tem mais altos e baixos. É uma viagem com mais pedras no caminho", disse Sierra. "O primeiro disco era meio uma só história e, quando eu penso nesse, eu penso nele como uma velha fotografia em preto-e-branco de uma grande família. Através da música, quem ouve, pode colocar uma lupa e focalizar cada personagem. E à medida em que um personagem é colocado em foco, é possível ver as suas histórias e a sua história, as coisas que ele experimentou e as coisas que ele viu. Acho que esse disco é uma grande coleção de histórias dentro de uma mesma moldura", sintetiza.
Uma coisa que contribui para essa mesma moldura é o fato de Noah's Ark manter a ironia e a mordacidade das letras, mostrando que as irmãs são observadoras brilhantes, com uma visão curiosa do mundo e do amor, e que conseguem ser quase pueris em alguns momentos e, em outros, tecer véus sombrios e visitar zonas cinzentas, que se mostram melancólicas, tristes, quase negras. Outro fio condutor do disco é a construção das canções intercalando o piano e o violão aos sons de gravações de campo, à percussão eletrônica tosca, aos samples inusitados, como os miados e relinchos de "Bear Hides and Buffallo".
"Cada som que colocamos no disco é único nele mesmo. Nossas paisagens sonoras acontecem naturalmente. Às vezes coletamos samples com um jeito de gravações de campo. Em outras, é uma questão de incorporar o que está à nossa volta no momento da criação. É uma forma de visualizar e documentar o espaço no momento em que estamos compondo as músicas", diz Sierra
Quem gosta do som do CocoRosie e de sua turminha do Brooklyn pode conferir, além de Noah's Ark, a compilação Enlightened Family, lançada pelo selo recém criado por Bianca, Voodoo-Eros. O disco traz gravações caseiras de Devendra Banhart, Sierra Casady, Vashti Bunyan e mais uma coleção de ilustres desconhecidos, apresentando ótimas canções.
* Entrevista publicada originalmente na revista Coquetel Molotov #1