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Azita Youssefi
Ana Garcia em 21.03.2006



Namorada de John McEntire do Tortoise, colaboradora de metade das boas bandas de Chicago, a glamourosa multi-instrumentista Azita Youssefi tem a voz mais exótica da cidade. Decidimos não nos alongar em amenidades e deixar ela mesma contar sua história. Divirta-se.

"Aí em agosto eu fui presa em Pitsburgo enquanto estava em turnê e fiquei trancada na cela"

Você poderia se apresentar e contar uma história? Qualquer história?
O meu nome é Azita. Oi. Eu estou em Missoula, Montana, onde a minha banda de suporte residirá pelas próximas duas semanas. Acabei de conhecer o guitarrista e o baterista hoje. Dirigi 1600 milhas para vir de Chicago até aqui e tivemos o nosso primeiro ensaio hoje. Na terça-feira irei tocar em Denver, Colorado, abrindo para The Shins. Eu espero que saia bem.

Nunca toca solo?
Sim, quando é possível, se o show não for de rock barulhento, toco solo. Se a audiência é mais silenciosa ou se o local não é tão grande. Mas esses shows que irão acontecer são para uma capacidade de 3.000 pessoas e, provavelmente, só o volume do lugar iria me engolir, se eu estivesse sozinha no palco.

O que faz um show ruim? A audiência ou é tudo você?
Bem, ultimamente é a minha responsabilidade, seja lá como a audiência for, fazer o melhor show possível. Claro que ajuda, porém, quando o público é autêntico e não antagônico. Ultimamente os shows ruins são aqueles onde eu fico com tédio porque a audiência é tediosa, não responde. Eu passo por fases onde isso acontece por razões diferentes.

Quando você começou a fazer música? O que inspirou você a começar a escrever e a gravar?
Não tenho certeza. Sinto que apenas acabei fazendo. Eu tocava um pouco de piano quando era criança, mas nunca senti como se fosse importante para mim. Provavelmente cantava muito no meu quarto. A primeira música que me foi apresentada quando eu era criança foi dos Beatles. A minha irmã e eu tínhamos quatro macacos bonecos que eram chamados de John, Paul, George e Ringo. Fazíamos um show com os bonecos para os meus pais. Balançávamos os bonecos como se eles estivessem tocando.

E o seu passado musical?
Eu tocava em duas bandas – The Scissor Girls e Bride of No No. Eu participava do programa de música no School of the Art Institute. Estudei diferentes aspectos do piano, repertórios e estilos de vários gêneros: clássico, jazz, boogie-woogie, ragtime, de tempo em tempo. Tanto quanto teoria harmônica e composição em geral. Passei mais tempo nessa conquista do que escutando discos, a não ser quando as gravações eram específicas para os meus estudos. Não sou nenhuma controladora de informações, apenas fico excitada com manuais de instruções e livros por algum motivo. Dizem que é 90% técnica e 10% talento... Eu diria que técnica iguala o significado pelo que você faz. Então se você tem uma técnica grande e variada, você tem mais opções, pode tomar rumos diferentes. Isso pode se uma coisa boa e ruim. Algumas pessoas têm pouca técnica, talvez algumas formas de fazer as coisas, e isso é o suficiente para elas. E algumas pessoas têm uma ótima técnica e às vezes esquecem o que querem fazer com isso, perdem o senso de direção. Eu já conheci pessoas assim, que praticam oito horas por dia desde os quatro até 32 anos e um dia de repente desistiu de tocar.

Que instrumentos você toca?
Toco mais piano. Tenho um pouco de experiência tocando baixo, mas não tenho feito isso por alguns anos. Gostaria de tocar mais guitarra, mas parece ser muito difícil para mim.

Tem saudade de tocar nas suas bandas antigas?
Não muito.

Você tem algum momento musical que mudou a sua vida?
Qualquer coisa nova para qual eu preste atenção muda a minha idéia de música. Ultimamente eu tenho tocado muito "Martha My Dear", do "White Album". Estou impressionada com a melodia. A cada dois movimentos ela mexe para uma coisa que você nunca teria esperado. Até em 2004.

Tem alguma convicção específica ou algo que faça você continuar a fazer arte?
Convicção? Não, não muito. Apenas pego idéias para as coisas e às vezes tento realizá-las. Tenho sido assim a minha vida inteira, não sei fazer mais nada.

Se você tivesse que escolher umas das maiores injustiças com as mulheres agora, qual seria?
No EUA, onde eu moro, diria que é o bombardeamento constante de imagens de como você deveria aparecer, se você fosse um ser humano válido. A mulher deveria, por ser constantemente confrontada com essas imagens, se impor contra isso. Pode demorar um pouco para algumas meninas perceberem o tamanho da merda que isso representa. Especialmente se os pais não estiverem educando suas filhas de uma forma confiável. Umas das principais formas de aproximação da publicidade e da indústria é e tem sido nos últimos cem anos dizer para as pessoas que elas não estão BEM e que só estarão se elas comprarem o produto X. Mas o bem nunca realmente chega. Eu nunca entendi como esse fato básico pode ser legal ou aceitável em uma sociedade que tem preocupação com o sucesso e o bem-estar dos cidadãos. Não é uma ameaça diária dizer para as pessoas ‘Você não está bem’? E transmitir essa mensagem pelas ondas do ar e postar nos quadros, impor isso nas suas vidas diariamente? Uma sociedade sana diria ‘Vocês não farão isso com os meus filhos!’ Existem injustiças diferentes para cada parte do mundo e eu não irei começar a comparar as situações.

Você nasceu nos Estados Unidos mas morou boa parte de sua infância no Irã. Por que voltou para os Estados Unidos? Irã influencia sua música?
Irã é uma memória muito remota. Eu saí com oito anos. Devo ter umas memórias trancadas em algum lugar que estariam disponíveis para mim se eu pudesse ver alguma parte do cenário (do Irã), para estimulá-las. Tivemos que mudar porque durante a revolução o status quo, que incluía médicos, estava sendo acusado de violência e assassinatos, basicamente. Foi uma revolução que teve sucesso em termos de revolucionar a estrutura de classe. Não são muitas revoluções que chegam tão longe, o que apenas mostra como a classe baixa estava desesperada. Extremos de riqueza e pobreza estão por trás de muita violência. As pessoas na classe média normalmente têm coisas melhor para fazer. É o que eu imagino.

Em que outros lugares você já morou? Tem sido confortável?
Eu morei em Teerã (Irã), Maryland (EUA), Hanover (Alemanha), Pitsburgo (EUA) e Chicago (EUA). Eu raramente me senti confortável. Não por causa dos lugares ou das pessoas que eu conheci mas por ser essencialmente uma estrangeira. Essa consciência de mim não encaixa em qualquer lugar que eu vá.

De que outros lugares você tem gostado?
Hmmm... Um lugar que me vem à mente é o México. É difícil explicar e eu não sei se realmente responde sua pergunta... É mais ou menor porque alguma coisa começou em mim quando eu estava lá, por exemplo, vendo as ruínas do Maya e absorvendo algumas das tomadas de realidade. Considero que teve um impacto em mim pessoalmente, no coração, não como uma inspiração artística ou referência. Uma mudança na grandeza das coisas.

Como Chicago tem tratado você como musicista?
Bem. Eu pude tocar com alguns músicos incríveis. Acho que agora mais pessoas parecem apreciar o que faço, talvez porque eles me vêem por aqui e ali, eles não projetam tantas coisas sem noção aos meus projetos quanto às pessoas que não me conhecem. Mas isso, provavelmente, acontece apenas pelo fato de ser a minha casa. Casa é para ser assim.

O que você acha do “som de Chicago”?
Acho que não existe.

E as colaborações que você teve? Como é trabalhar com o seu namorado?
Nunca conheci alguém que tenha tido uma experiência ruim com John (McEntire). É maravilhoso trabalhar com ele. Ele toma conta do trabalho e não impõe a sua própria visão na sessão. É o que você espera de um piloto. Alguém que nunca faz você duvidar se tudo está sob controle. Quanto aos músicos, sinto abençoada de ter trabalhando com eles nesses últimos dois discos. As idéias que eles trouxeram encheram e em muitos casos aumentaram o meu senso das músicas. E a minha idéia de música em geral.

Você se considera revival do punk?
Não, nem um pouco.

Quais são as diferenças de trabalhar solo ou com uma banda?
O trabalho-solo eu fiz muito mais rápido e tem menos insatisfações com o resultado, geralmente.

Tem alguma idéia cultural que você queira passar nas suas músicas?
Pessoas escutam música de formas diferentes. Algumas pessoas não tiram muito das letras. Espero que elas consigam tirar algo do movimento harmônico ou talvez gostem de cantar junto com as melodias ou dançarem pela casa com a música. Eu conheci uma pessoa que disse que os seus filhos vão pela casa cantando e dançando com as minhas músicas. Eles têm três e cinco anos, alguma coisa assim. Como eu falei, eu era assim com os Beatles e não tinha idéia do significado da metade das letras. Algumas pessoas tiram algo da informação da letra, mas não têm um sentimento de reação para a harmonia. Espero que elas possam rir quando for engraçado ou ficar melancólica quando for triste, coisas assim. Ou admirar a rima ou alguma outra coisa.

Recentemente escutei o seu novo disco "Life on the Fly" (Drag City, 2004). Você tem uma voz tão peculiar, de onde ela vem?
Parcialmente da minha cabeça e parcialmente de dentro do meu corpo.

Onde você escreve?
Principalmente num quarto de trabalho na nossa casa. Às vezes enquanto estou andando pela cidade.

Poderia falar um pouco sobre como foi escrever e gravar o novo disco?
Eu tive um verão cheio de desastres. A nossa van e todos os nossos equipamentos foram roubados em Toronto (Canadá), em maio (de 2003). Aí em agosto eu fui presa em Pitsburgo enquanto estava em turnê e fiquei trancada na cela. Depois disso tive que pagar muito dinheiro (que eu não tinha) e ir ao tribunal algumas vezes. Tudo parecia tão louco e como se eu não pudesse segurar algo sólido...é difícil de explicar. Eu tentei explicar no disco. Além da brincadeira do visual "Life On The Fly", o desenho da capa, eu também tive a intenção de colocar outro sentido na frase, que a vida, como um tipo de quantidade, estava voando, como em indo embora. Como se você pudesse gastá-la. As músicas estão centradas nesse tipo de idéia. Eu escrevi muito rápido -- para mim, pelo menos. Em quarto meses. Isso era também parte da idéia, não ser preciosa com elas. Algumas pessoas reclamam que não tem a vibração de intimidade do último disco ("Enantiodromia", Drag City, 2003). Era esse o objetivo. Eu estou contando um tipo de história diferente, rascunhando um tipo de desenho diferente. Isso não é permitido?

Você poderia falar sobre algumas músicas no álbum que você gostou mais ou que saíram de alguma forma inesperada?
A última faixa "Your For Today" tem um lugar especial no meu coração, porque comecei a trabalhar nela antes de quase tudo do álbum e fiquei presa. Eu quase pensei que não iria entrar no disco e no último minuto coloquei tudo junto apenas trocando algumas das minhas noções do que tinha que ser. Foi a primeira vez que toquei guitarra numa gravação. Não gosto muito de tocar guitarra e eu não tentava por mais de um ano. Mas, de alguma forma, no último minuto antes de mixá-la, às 5 da manhã, eu me obriguei a tocá-la. Parecia que não ia acontecer e aí aconteceu. É difícil para mim escolher uma favorita... Sempre amo escutar os solos e as partes que os outros músicos fazem. As partes que eu não planejei. Como o solo de guitarra em "In the Vicinity". E o solo da corneta em "Things Without Names". Apenas uma ou duas notas, uma virada na linha, podem me deixar excitada quando eu escutar novamente.

O disco tem tido o impacto que você esperava?
Com algumas pessoas sim, às vezes.

Que artistas têm tido um impacto em você?
Existem provavelmente centenas... Que tal Van Gogh, na área da pintura, ou Van Morrison na área da música?

Música extrema normalmente incita reações igualmente extremas. Você acha que Azita é algo que ou você ama ou você odeia?
Eu não sei. Espero que não. Eu prefiro que Azita seja algo que você ama ou goste muito! Mas mesmo assim, estou dentro dela, então não parece muito extrema, mais como água para um peixe. Só estou fazendo música, sabe? Eu gostaria de experimentar algumas coisas que dão medo e algumas coisas que me fazem rir e provavelmente algumas coisas que façam ambos. Na maioria das vezes eu tento escrever músicas que eu não irei enjoar de cantar durante a turnê.

Gosta de entrar no estúdio com tudo bem ensaiado ou gosta de improvisar?
Não tenho tido tempo o suficiente para entrar no estúdio com as músicas tão bem quanto eu gostaria. Mas normalmente estão de alguma forma ensaiadas. Muito pouco do que estou fazendo é improvisado, talvez os solos, apenas isso.

Algum conselho para as jovens que estão começando a tocar?
Sim, eu tenho: quando você escutar uma coisa que você goste, faça um pouco de pesquisa para descobrir que música antiga essa música nova se baseia. Isso pode ser uma ou duas coisas, ou muitas coisas. Depois, veja de onde a música antiga estava vindo. E por aí vai, siga a linha. Você descobrirá os elementos por trás das coisas que você está escutando e o conhecimento do que você escuta todo dia vai se aprofundar.