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Wry
Ana Garcia em 24.03.2006



Como conheci Tim Wheeler do Ash
Palavras: Gilberto Custódio

Fiquei três meses como bon vivant em Londres esse ano, na casa do meu irmão. Só curtindo, sem trabalho nenhum, especialmente durante o dia. Logo descobri que o Mário, do Wry, também ficava livre nesse horário. Quer dizer, o trabalho dele podia ser feito em casa, usando apenas computador e telefone. Já conhecia o Mário e o Wry há um tempão, mais precisamente há uns dez anos, quando vi o primeiro show deles em São Paulo, no extinto inferninho Urbania, abrindo para o Pin Ups. Para minha sorte, o Mário morava perto do meu irmão, num bairro vizinho. Quando percebi, estava indo quase todo dia à casa do Mário, que também funcionava como QG da Goo Goo Gang, um grupo de umas doze pessoas, todas de Sorocaba.

Na própria casa moravam umas seis pessoas e a garagem funcionava como estúdio para ensaio. Um dia, quando cheguei, Mário estava mais excitado do que o normal: “Cara, você não vai acreditar quem vai chegar daqui a pouco para ver um ensaio nosso.”. Quem? “O Tim do Ash!” Até eu fiquei empolgado. Nessa eu perguntei se não haveria problemas de ficar na casa para poder ver o rockstar pessoalmente. E foi assim que conheci Tim Wheeler do Ash. Na casa estava eu, a mulher do Mário e o restante do Wry. Tim chegou pontualmente no horário marcado (como já era de se esperar) meio tímido, mas bastante simpático. Aceitou um café feito no jeitinho brasileiro e conversou com todos. Ele é baixinho e falante. Depois fui saber que ele tem somente 27 anos, a minha idade! Em certo momento ele perguntou o que tava tocando no som. “O 2º álbum dos Close Lobsters”, respondi. Ele não conhecia a banda. Peguei a capa do vinil e entreguei pra ele, explicando que era uma guitar band inglesa obscura dos anos 80. Ele ficou bastante interessado e disse que ia procurar ouvir. Aproveitei a deixa e mostrei para ele um CD que tinha acabado de ser lançado, a compilação “The Sexual Life of the Savages”, de pós-punk paulista dos anos 80. Os olhos do moço chegaram a brilhar. Indie kid é igual em qualquer lugar do mundo.

Para quem não sabe, Tim estava ali para assistir ao ensaio do Wry, pois na semana seguinte ele ia produzir algumas canções da banda num estúdio profissional. E sem cobrar nada por isso. Simplesmente porque gostou do som do Wry, que é descrito na mídia inglesa como “indiepunk encontrando shoegaze”. As gravações já aconteceram e ficaram ótimas. Serão lançadas no álbum Flames in My Head, que vai sair no Brasil pela Monstro Discos. Na Inglaterra, antes do álbum, a banda vai lançar o single “Airport Girl/In The Hell Of My Head” pelo selo Reckless Records.


"Em menos de um segundo os caras da minha banda pararam a música, agarraram o cara e rolou a maior movimentação "

Quando a banda tomou a decisão de ir morar na Inglaterra?
Mário Bross: Pelo fato de cantarmos em inglês, desde o começo já tínhamos a intenção de vir morar em Londres. Todas as nossas influências musicais vinham daqui: The Jesus and Mary Chain, Blur e The Stone Roses. Mas há 10 anos, quando começamos, resolvemos fazer de tudo pra conseguirmos a grana. De certa forma, mesmo cantando em inglês, fizemos um nome no Brasil e sempre tocamos com casa cheia, fizemos álbuns legais e bem gravados, e até um festival chamado Circadélica para quatro mil pessoas, com bandas indie. Na época, só o Astromato cantava em português.

Como vocês viviam inicialmente? Boas histórias?
Somos uma gangue além de banda, nos chamamos Goo Goo Gang. São em torno de doze pessoas que vieram juntas pra Inglaterra. Vivíamos todos numa casa de quatro andares, a Guhauss, onde diversas festas aconteceram e muitas primeiras experiências. Foram dois anos assim, entre fantasmas e visitantes do Brasil, tivemos muitas historias. Como a do filho do Jimmy Page, um garotinho bonitinho, e a esposa Gimena que vieram assistir à final da Copa do Mundo de 2002 em casa. O garoto é roqueiro desde pequeno, selvagem, e com um secador de cabelo ele conseguiu queimar nosso carpete deixando manchas que nunca mais saíram e até um buraco.

Quais foram as maiores dificuldades e como conseguiram superá-las?
Sentir falta da família, dos amigos que ficaram e dos fãs do Wry, que, particularmente pra mim, foi bem grave. Tive meus períodos de stress carregado, tivemos uma fase em 2003, quando o Wry era uma banda um pouco mais "brava", coisa que nunca fomos. Mas era tudo o reflexo da vida, que apesar de legal, também nos levava pros lados mais escuros da nossa mente. Em 2003, começamos a sentir falta daquele calor dos nossos shows e resolvemos dar um tempinho de shows em 2004.

Como era esse Wry mais bravo?
As pessoas comentavam logo após esses shows: "Hey, vocês não curtiram? Estavam com a cara feia no palco!". Bem, na verdade a gente até curtia aquele tipo de rebeldia. Rolou uma briga em um desses shows de 2003. Eu estava quase destruindo "com o maior cuidado" as decorações de um bar todo meio "Hawaii" no sul de Londres, quando um cara subiu no palco enquanto eu estava com meu amplificador na mão fazendo a maior microfonia e quis tomá-lo de mim, dizendo "Você vai quebrar todo o bar!". Eu nem sabia o que fazer e o cara me empurrou pra fora do palco. Em menos de um segundo os caras da minha banda pararam a música, agarraram o cara e rolou a maior movimentação. Gente falando no microfone, gente gritando "Rock'n' Roll!!!". Outra vez, nesse mesmo ano, em Manchester, uns 30 hooligans (os carecas) estavam num show da gente. Estava tudo muito tenso, eles zoando com todo mundo e nos desafiaram a tocar punk rock. Quando começamos, logo na primeira nota, os caras amaram e gritaram com a gente... Não era bem punk rock, mas o nosso furor daquela época com tudo e com todos botou mais "guts" na nossa performance e apavoramos os carecas... Toda tensão foi lavada no ano seguinte com as novas composições e a nova casa.

Quem vocês têm conhecido de famosos? Boas histórias?
Tim Wheeler do Ash é o mais próximo. Além de ter produzido a gente, ele virou um amigo e até trocamos telefonemas de vez em quando. Ele está morando em Nova York agora, mas sempre está por aqui. Um dos dias mais legais que gravamos foi quando eu estava no carro dele e o celular dele tocou. Era Chris Martin do Coldplay (melhor amigo do Tim). Ele fala "Hey, estou mostrando aqui o X&Y pro Mário e parece que ele está gostando!". Achei muito estranho e o Chris ainda pergunta quais músicas eu tinha gostado mais. Isso antes de sair o álbum. Ele nem me conhece, mas segundo Tim, Chris é um dos caras mais inseguros que ele conhece. Tem também The Rakes, que são todos nossos amigos. Eles fizeram o primeiro show deles com a gente usando todos os nossos equipamentos e eu fui a primeira pessoa que congratulou eles após um show no camarim.

Que outros grupos são interessantes da cena?
Cenas mesmo existem na América e até no Brasil. Aqui é diferente. Aqui a maioria tenta descolar o sonhado "record deal" milionário. Não tem muita cena não, a não ser a cena da NME. Essa sim eu diria que pode ser uma cena. Eles constroem todas as bandas que farão parte daqueles novos dois anos de cena. Eu gosto da NME, eu acho isso genial. Mas, abaixo disso, não existe cena. É muito bem organizado os shows e tal, mas aquilo que vemos acontecer no Brasil de bandas terem bastante público antes de serem públicas, aqui não rola. Franz Ferdinand já não é mais interessante. Maximo Park vai durar pouco. Hard-Fi quem sabe!? Talvez o Bloc Party, que eu adoro, vai continuar sendo interessante e The Rakes também. Mas eu estou em outra, eu gosto de Amusement Parks On Fire, de Nottigham. Engineers. Bullet Union, de Londres, a melhor banda agora pra mim. Eu adoro também iLIKETRAiNS e This Et Al de Leeds e TurnCoat, de Brighton.

Vocês estão pra lançar o Flames in the Head. Poderia contar com quem foi gravado e quem colaborou?
Durante a composição do álbum em 2004, entre uma demo e outra, procuramos um produtor, mas estava difícil. Os que apareciam não eram muito bons. Foi quando num sábado de maio deste ano, recebi dois telefonemas: um no celular, outro no telefone normal. Quem eram: Tim Wheeler e Gordon Raphael (que produziu os dois primeiros dos Strokes). Meu, não acreditei. E foi por isso que o álbum acabou atrasando, pois decidimos gravar simultaneamente com os dois produtores músicas diferentes e ainda ter a nossa parte de tudo o que aprendemos no ano anterior.

A parte produzida por Tim Wheeler foi feita no Miloco, onde bandas como Futureheads, Bloc Party e Razorlight já gravaram. Jimmy Robertson foi o engenheiro de som. Tim fez backing vocals em três faixas. A parte do Gordon foi feita em seu próprio estúdio chamado The Silver Transporterraum of London. Sim, Gordon é daqueles caras "Setentão" super psicodélico. Vocês vão até ouvir os sintetizadores que ele mesmo tocou. A nossa parte foi gravada em nosso próprio estúdio "Garage" e gastamos muitas horas, foi muito divertido.


Como esse disco se diferencia dos outros?
A sonoridade do Wry esta lá, continua forte, pois acho que será bem difícil sair. Muitos não entendem como conseguimos não soar como outras bandas, temos uma autenticidade grande nas nossas composições. Mas com certeza está bem mais maduro, em termos de letras e estruturas, um pouco mais polido e menos psicodélico ou indie-prog, como eu mesmo nos achava.

Vocês estavam passando por infernos na cabeça para colocar esse título?
Sim, eu principalmente, e é lógico sob influências dos caras e dos amigos mais próximos aqui da Goo Goo Gang. Têm vários trechos de músicas que foram baseados em algo que escutei dentro de casa, ou algum conselho que uma outra me deu e tal. Com tantas coisas vindo pra tomarmos, as festas e os primeiros shows, é claro que algum dia viria o dissentimento e depressão de todos aqueles bons dias... Eles vieram em forma de música pra mim e eu acho que soube tirar bom proveito. Amigos que se vão pra sempre, pessoas novas que entram. Saudades e brigas. Sexo e violência. Imigração, ser estudante e roqueiro. Todos esses assuntos, quase que diretamente eu botei nas musicas. As melodias casaram com as minhas emoções de uma forma que nunca tinha feito antes.

Mas mesmo assim, vocês seriam o exemplo da banda que “conseguiu”, concorda?
Não sei te dizer claramente, mas talvez, dentre as bandas "brasileiras que cantam em inglês e não têm nenhuma influência de samba ou funk ou metal", nós somos a que conseguiu, talvez. Durante nossa carreira sempre soubemos que quase todas as bandas indie do Brasil queriam vir pra Londres. Bem, nós viemos. Ultrapassamos a fase de nos odiarmos e então nos amamos mais do que nunca e estamos aqui "disputando" (odeio isso!) com bandas que curtimos tanto. Mas é muito difícil. Londres é tão pequena e aqui rolam cerca de 500 shows de bandas novas por dia, entre todos os estilos. Não é fácil estar onde estamos mesmo que onde estamos não seja tanto.

Alguma dica para aqueles que almejam também tentar a vida de músico na Inglaterra?
Meu ponto de vista é de alguém que não teve dinheiro fácil pra investir, e digo que tem que ter muita dedicação e compaixão. Se vir como banda, que decida já no Brasil se está mesmo a fim de viver dia a dia com seus parceiros. É difícil viver em um país que não é o seu. Imagine querer um lugar mais elevado então. Tendo a dificuldade extrema em mente e sendo bem amigos uns com os outros e bastante confidentes, eu até apoio sua vinda. Mas se existe algum tipo de dúvida entre a própria banda, é melhor cantar em português e tentar de tudo por aí mesmo. O Brasil, afinal de contas, É O PAÍS DO FUTURO. E não estou sendo irônico.

* Esta entrevista foi publicada originalmente na revista Coquetel Molotov #1