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Jukebox Invisível com Tomaz Alves
Ana Garcia e Viviane Menezes em 14.09.2005
Nascido em 1978, Tomaz Alves pegou a guitarra com 14 anos, assim como passou a escutar Gilberto Gil e Caetano Veloso. Aí, ele passou a gravar fitas K7 com amigos e primos em seu quarto. Nessas fitas encontravam-se gravados discos completos: ele escrevia quinze músicas, selecionava a ordem e as registrava. Logo depois, ele se juntou aos percussionistas Fábio e Paulo Jr. para formar Doce di Batata Doce, era 92. O projeto rendeu uma gravação experimental. Mas, o ano de 95 prometia, e Tomaz, junto com os dois músicos, formaram a Profiterolis - um grupo dedicado a integrar MPB, psicodelia, free folk e a velha guitarra dedilhada.
Lançaram várias fitas demo entre 95 e 2000, uma inclusive com tudo que eles tinham gravado até então chamada Auswahl (Coletânea em alemão). Dois anos depois, Tomaz convidou o seu irmão Mateus para a guitarra, Gleisson para a bateria e Dídimo para o teclado. Essa formação não durou muito e logo Gleisson saiu para começar a Rádio de Outono. Leonardo assumiu a bateria. O primeiro show deles foi no aniversário de Aninha, em 2000. O primeiro CD demo só veio em 2003, três faixas reunidas num disco intitulado Ovo Frito. O ano de 2004 reservava uma grande surpresa - a apresentação no festival No Ar Coquetel. Agora, com a entrada do guitarrista Carlos Montenegro no lugar de Dídimo, que saiu para se dedicar a Rádio de Outono, a Profiterolis parece mais madura e as idéias não param de surgir. "Você tem que ter influências de coisas que você nunca vai tentar parecer e Syd Barrett é uma delas"MULHERES NEGRAS
MONSTROS JAPONESES
Os Mulheres Negras? Eu não estou reconhecendo a música.
Monstros Japoneses.
Eles foram uma das principais influências que eu tive no começo da década de 90. Eu assistia ao programa da TV Cultura, Fanzine, e Maurício Pereira era vocalista. Eu gosto muito do jeito dele de cantar, ele faz parte dos cantores que não têm voz boa, mas sabem se valer da fraqueza da voz para ter personalidade. Acho que a maior influência que eu tenho deles é essa. Fora o fato que têm algumas músicas dos Mulheres Negras que eu reescrevi para ser da Profiterolis.
Sério?
(Risos) Tem umas duas pelo menos. Tem duas formas de fazer música para mim. Uma é a música 100% inspirada, completamente autoral, o que quase nunca acontece. A outra é quando eu gosto muito de uma música de um outro artista e aí penso em fazer a minha música dessa música. É como se eu fizesse a minha versão daquela música, mas eu não uso nenhuma idéia ou melodia. É como se fosse um conceito que eu coloco em algum lugar da minha cabeça. Tem uma música deles, “Música Serve pra Isso”, que eu fiz uma outra música em cima dessa, chamada “Reflexos no Olho Dourado”. Só que é inédita ainda, igual a todas as músicas da Profiterolis. Elas estão guardadas num baú e aí eu vou tirando de vez em quando como se fossem uma música nova.
SYD BARRETT
BOB DYLAN BLUES
Isso é Ringo? (Risos) Espera. Eu sei quem é, mas não consigo me lembrar agora.
A banda dele tem muita influência na Profiterolis. É Syd Barrett.
Ah, é Syd Barrett? Eu não conheço nada. Eu só conheço o primeiro disco do Pink Floyd. Eu reconheci a voz, mas não tive certeza porque só tem ele com o violão, não tava com as camadas e camadas de guitarras. Eu gosto de Syd Barrett, mas não gosto de pensar muito nele porque fico meio triste. Eu peguei um vídeo com ele careca e gordo. Teve um show que fizemos e um cara veio dizer depois que eu parecia com Syd Barrett. Eu disse: “Não diga isso, se não o meu futuro está perdido”.
Então ele não teve a influência que pensávamos?
Deve ter uma maior influência para os outros integrantes da banda. Para mim não tem muita não. Aliás, tem uma influência, o que eu chamo de influência invertida. Você tem que ter influências de coisas que você nunca vai tentar parecer e Syd Barrett é uma delas. Quando eu tento fazer uma música, eu tento criar melodia em cima da letra, como se a melodia e a letra fossem uma forma de falar, cantar, e não aquela forma de cantar impostada. Como se tivesse falando normalmente e fazendo uma melodia solta e livre dos acordes, soando livremente na harmonia. Syd Barrett faz ao contrário disso, ele prende a letra exatamente aos acordes, fica uma estrutura meio... É exatamente o que eu tento não fazer.
De onde vem a sua voz? Esse seu vibrato?
É para desviar o fato de que estou desafinando. Se você vibra...
Mas o que você escuta que tem isso?
Na música chamada erudita, o cara é reconhecido como bom cantor quando ele não vibra a voz. Na música popular, principalmente depois que muitos cantores ficaram reconhecidos por serem compositores e não por cantarem bem, tem a questão do intérprete que canta bem e o que não canta bem, mas que é muito melhor do que o que canta bem, pelo fato dele ter composto a música. Isso é normal, como Tom Jobim, Chico Buarque, Neil Young, Syd Barrett. Esses caras não têm voz boa, mas eles superam isso cantando com personalidade. Na música pop você aprende a gostar de gente que canta mal, que tem voz ruim. Se for para dizer de onde eu tento imitar...
É.
David Bowie e Caetano Veloso. Mas o problema é que, se vibrar muito e a voz ficar muito aguda, fica evidente que estou imitando Caetano Veloso. Só que as minhas músicas não têm muito a ver com as dele. Acho que sou mais David Bowie.
SPECTRUM
QUIABOS
Eu não conheço, ou não estou lembrado do que é.
Parece com a sua voz, tem uma vibração familiar.
Quem é?
Spectrum. É uma banda da década de 70, dessas psicodélicas.
Dizem que a minha voz parece com a de Raul Seixas também. É engraçado, tudo que dizem que a minha voz se parece eu não escuto. Mas é porque quando você canta com a voz aguda, com sotaque nordestino e a formação é rock, aí sempre vão dizer que parece com Raul Seixas. Quando começamos a tocar e gravamos uma fita, isso foi em 98 ou 97, um amigo meu escutou e disse que eu estava querendo fazer sotaque do sul. Aí eu pensei “Que merda!” e comecei a ficar constrangido comigo mesmo quando escutava a gravação. Aí comecei a cantar o máximo com sotaque nordestino possível.
STEELY DAN
ONLY A FOOL WOULD SAY THAT
Isso é Steely Dan?
Sim.
Eu gosto. Ele faz uma coisa que antes era bom e agora é ruim, que é a música com muita melodia e cheia de informação. Uma coisa em que a gente se lasca é nisso. Outra coisa nesse pessoal é que eles eram compositores, a importância era fazer a música, o que vem depois é só complemento. Por isso que em shows eu me comporto como se fosse funcionário público da minha banda. A parte que me interessa é compor a música e em shows eu sou funcionário público, eu tenho que ir lá e provar que eu fiz aquilo ali. É meio que um teste. As pessoas falam que têm que trabalhar as músicas ao vivo, isso é mentira, tem que provar que gravaram. Você tem que criar uma forma de performance, tem uma função ali. Serve para emitir os sons que você compôs naquela música. Tenho que tocar os sons, as vogais, tocar os seus solos de guitarras 70% igual. A forma da Profiterolis é essa, tentamos fazer igual, sem muito improviso.
GILBERTO GIL
LAMENTO SERTANEJO
Essa é fácil. Eu escutei essa música duas vezes ontem. Eu estava mostrando a diferença entre o remasterizado e o antigo. Eu conheço todas as músicas de Gilberto Gil, ele é a minha principal influência, acima de todas as outras. Eu acho ele genial, teve uma época em que eu brincava que ele era melhor que Caetano Veloso. Eu o acho melhor que Caetano Veloso, mas ele não é tão bom em ser um artista e em aparecer. Ele é mais músico. Durante muito tempo, eu só escutava Gilberto Gil e Caetano Veloso. Como foi durante muito tempo, eu criei regras de como se fazer uma composição, e isso vem de Gilberto Gil. Coisa de harmonia, letra. Gilberto Gil escreve nas letras exatamente o que ele está dizendo. Isso para mim é básico. Na música “Sapatos Coloridos”, eu estou falando sobre o pé, não quero dizer outra coisa. Se as pessoas escutarem e quiserem interpretar de uma outra forma, pode. O que eu acho bom de arte é isso, você tem que fazer a coisa por fazer e fazer com alguma qualidade e beleza, e não tentar explicar o que você está fazendo. Gil tem também uma noção de ritmo que foi muito importante para fazer a Profiterolis também.
ARTHUR VEROCAI
CABLOCO
Parece com Clube da Esquina.
Não. Arthur Verocai. Conhece?
De nome, mas nunca escutei.
Pensei na produção, a vocês falta um produtor.
É verdade. Quando eu penso em Profiterolis, eu só penso nesse tipo de som aí, da década de 70, esse tipo de mixagem. E eu penso em usar piano, cordas, coral. É meio frustrante até, porque, quando eu penso numa música, eu fico... Aí a gente está ensaiando os seis e de repente, por um segundo, parece com aquilo ali que deveria ser. Mas aí tem que fazer o possível, não se pode fazer nada além do que os seus instrumentos podem tocar. Mas um dia vamos achar outro tecladista para fazer barulhinhos. Gostaríamos muito de ter um produtor. Vamos gravar algumas músicas com Zé Guilherme e vamos fazer exatamente isso, uma coisa que vá além do som do show. Gravar coisas a mais, vários canais de vocais, por exemplo.
Por que você gosta da produção da década de 70?
Eu acho que o som que se fazia nessa época era mais orgânico, o som analógico dava mais a impressão de que as pessoas estavam realmente tocando, aí na década de 80 começaram a mexer com sintetizadores e fizeram a besteira de jogar os equipamentos antigos fora, ou deixar encostado, entusiasmados com a tecnologia e começaram do zero tudo de novo. Só que, aí, saiu um bocado de discos, que poderiam ter sido históricos e arretados, com som bom, mas que ficaram uma porcaria. Os discos que gravaram em 83 e 84 eram piores do que os de 72, 73, 74. Como se explica isso? Agora com a tecnologia digital, podemos voltar a gravar um som tão bom quanto o da década de 70, mas se perde um pouco com a coisa da facilidade da edição. Muitas vezes as pessoas exageram com a edição e fica meio mecânico, não fica claro que as pessoas estão tocando porque você faz loop, conserta, ajeita o som de cada bumbo da bateria... E, para ser bonito, tem que ter erro. Essa é a vantagem para Profiterolis, cometemos muitos erros. |