M.Takara e Chicago Underground Ao Vivo
Luiz Campos Jr. Foto: Renato Custódio em 20.10.2005
Jazz
Há quase 10 anos, quando obtive contato pela primeira vez com a Thrill Jockey Records, me surpreendi com a genialidade e sinceridade juvenil pela qual o Jazz, em uma parcela de bandas do selo, transformara-se de maneira a tornar-se acessível, mesmo para aqueles que não são acostumados à sonoridade peculiar e matemática deste estilo musical.
Na última quinta-feira fui novamente surpreendido com duas magníficas apresentações, uma de um artista da Zona Oeste de SP (sim, sou bairrista e tenho orgulho de viver nessa zona da cidade) e a outra de uma banda de Chicago, EUA.
Antes de tudo vale registrar que o Jazz nasceu em New Orleans entre 1910 ~ 1920, da combinação de “black and creole music”. Ocorreu que em 1920 alguns dos principais Jazzistas de lá se mudaram pra Chicago, onde o ritmo urbano da cidade contribuiu para torná-la uma das principais referências no gênero musical em questão.
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Maurício Takara
De volta a São Paulo, mais especificamente no palco do Sesc, M. Takara (integrante da banda Hurtmold) fez um grande show. Mesmo tendo chegado atrasado e perdendo parte da apresentação, consegui abstrair uma opinião sobre sua musica.
Tendo como referência o Jazz, Free-Jazz, Dub, música brasileira e Post-Rock, Maurício deixou uma agradável surpresa aos que ainda não conheciam o trabalho do rapaz, resultado de uma vasta mistura de estilos que resulta numa trilha sonora interessantíssima e de muito bom gosto. Seu CD homônimo comprova que ele tem talento de sobra para galgar carreira solo como compositor e multi-instrumentista.
No show Takara contou com a participação de Fernando Cappi, também da banda Hurtmold, onde ambos se revezaram na bateria, guitarra e vibrafone. O som é uma mistura que me lembra Sea and Cake e Tortoise com pinceladas de música eletrônica, mas com uma roupagem brasileira e original. Já tinha ouvido algumas de suas músicas do cd, entretanto o som ao vivo é muito mais consistente. Fiquei boquiaberto!
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"Retirei-me, calado, na certeza de ter participado de uma aula de jazz"Chicago Underground Duo
O Chicago Underground foi formado há cerca de seis anos durante um workshop que Rob Mazurek organizou num bar em Chicago. Neste, vários novos artistas começaram a mostrar seu talento, entre eles o Chad Taylor (baterista/vibrafonista) e Noel Kupersmith (baixista) que fazem parte do grupo até hoje.
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Fundindo Jazz, Post-Bop e o experimentalismo da música eletrônica, Rob Mazurek e Chad Taylor subiram ao palco do Sesc Pompéia sem cerimônias.
Mazurek soltou a base de baixo em seu laptop antes que Taylor começasse a tocar. A introdução foi o suficiente para emergir o público numa atmosfera alucinógena. Mazurek sobrava notas esquizofrênicas no ar durante o aquecimento que Taylor fazia, tocando algumas notas no vibrafone enquanto os sons dos pratos iam sumindo timidamente. O que falar desse negrão? Sou obrigado a destacar a performance dele, que deu um show à parte. Esbanjando técnica e precisão, foi o responsável pela sustentação harmônica que permitia ao Mazurek permear as músicas com seu trompete, causando calafrios aos que tentavam acompanhar a lógica por trás de seus temas musicais.
O que mais me impressionou na apresentação do Chicago foi à técnica apurada de Taylor. O raciocínio dele me pareceu fora do normal, já que executava duas melodias diferentes ao mesmo tempo e em perfeita sincronia e harmonia, tocando bateria e vibrafone simultaneamente. O interessante também é que ele não se restringia em criar sons somente com os instrumentos convencionais. Fazia som de tudo que era possível com suas baquetas, desde as peças normais da bateria até os pedestais e estantes de pratos, sempre mantendo a melodia demasiadamente refinada e a pegada sutil, porém clinicamente precisa e intensa.
A cada música tocada, uma nova viagem.
A já comentada técnica de Taylor aliada à genialidade (improvisadamente) melódica de Mazurek manteve o público em êxtase, criando paisagens como trilha sonoras de filmes. Eu mesmo me peguei por várias vezes longe, longe, quando era puxado de volta a Terra nas mudanças melódicas.
Mesmo sem a presença de Noel fizeram o melhor show que assisti (no estilo) desde Tortoise. Por falar nisso, essa confluência musical se deu a partir do encontro da dupla com John McEntire e o restante do Tortoise.
Fazendo um adendo, os integrantes dos dois grupos contribuíram entre si nas gravações de seus álbuns, já que possuem em comum a mesma escola musical. Mazurek participa do disco do “TNT” de 1998 e o primeiro álbum do Chicago Underground foi lançado pelo selo Thrill Jockey, do Tortoise.
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Ao fim de toda música ouviam-se muitas palmas e assobios histéricos ressoando pela cervejaria do Sesc, onde ocorreram as apresentações.
E assim foi até a última. Ao final do show permaneci estático esperando que eles voltassem ao palco, o que não ocorreu. Desceram para falar com alguns fãs, demonstrando simpatia e humildade.
Aos poucos fui me convencendo a guiar meus passos pelo o fluxo e deixar o local.
Retirei-me, calado, na certeza de ter participado de uma aula de jazz. As luzes acessas intensificaram-se, ofuscavam minha visão. Já não havia mais espaço em minha alma para tamanha sensação de felicidade. Segui meu caminho e fui embora me lançando na noite negra da cidade onde vivo.