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Diário de turnê: Rádio de Outono
em 30.01.2006

Em maio de 2004, durante a estação que antecede o inverno no país, a banda recifense Rádio de Outono realizou uma mini-turnê pelo Nordeste divulgando seu trabalho e movimentando um pouco mais a cena independente local. Poderia ser apenas mais uma viagem de uma banda iniciante que se aventura pelas capitais fazendo shows, mas está gerando um clima bastante propício entre os roqueiros independentes do Nordeste para que fatos como estes sirvam de exemplo para que aconteçam cada vez mais shows e role um intercâmbio legal.

A experiência foi tão positiva que Gleisson (baterista) e Bárbara (voz) da Rádio de Outono (RdO) resolveram compartilhar conosco este ato de ousadia e empreendendorismo no mundo do rock sem dinheiro, mas com muita coragem. De Recife a João Pessoa e Fortaleza, conhecendo muita gente boa, figuras inusitadas e trocando figurinhas com outras bandas igualmente talentosas, a Rádio de Outono deixa aqui abaixo um registro de suas andanças.

12.05|Quarta-feira
Uhu!! Vocês não imaginam o quanto acordei feliz nesse dia! Tava com aquela sensação de que, agora sim, a RdO vira banda, não só por tocar fora da cidade, mas em um Teatro de verdade! [Theatro Santa Roza – um tipo de Santa Isabel, que acabou de ser revitalizado].

Apesar de alguns contratempos que nos atrasaram, mesmo tendo nos prevenido [pois é, ainda não temos o poder de controlar todas as coisas], a viagem até João Pessoa foi ótima! Parecia que estávamos indo ensaiar... Os bons fluidos estavam nos guiando, isso sim!

Parece que nosso bom humor estava prevendo o dia, pois mesmo chegando atrasados, estávamos hospedados bem perto da casa do nosso “guia” local: Edy [Zeferina Bomba, Star 61, entre outras].

A noite foi de muitas surpresas! A primeira delas foram duas matérias em dois dos jornais locais falando sobre o festival [Maio Independente] e sobre nós! Com direito a foto e tudo!!!

A segunda surpresa foi o nosso camarim! Exatamente, sem aspas!! Com direito a espelho de luzinhas e tudo mais!!! [vinho e sanduíches deliciosos feitos por Edy tb!].

Aplausos e gritos vieram como terceira surpresa quando Olga [Paralelo Records], ao anunciar as bandas da noite [Madalena, RdO, Star 61, nesta ordem] chamou o nome da RdO! “Temos fãs em João Pessoa?”. Bem, se não tínhamos, passamos a ter! Nossa animação conseguiu ser maior que qualquer receio. No fim da noite, pessoas vinham até nós querendo comprar cds, pedindo autógrafos, convidando para outros eventos e nos elogiando!

A Star 61 foi a nossa quinta surpresa da noite! Flaviano entrando pelo teatro vestido de noiva com um moicano cor-de-rosa e logo depois destruindo tudo foi inesquecível! Sem falar que ele e todos da banda são doces de pessoas.

Terminados os shows, fomos a um bar bem aconchegante onde algumas pessoas ainda vieram falar conosco.

Fomos dormir felizes!

"Eu estava totalmente absorvida pela química que rolou entre a gente e o público! As pessoas estavam dançando, tirando fotos da gente, cantando junto! "

13.05|Quinta-feira
Depois de uma noite como essa, um pouco de sono já foi capaz de nos recompor. Acordamos razoavelmente cedo e fomos dar uma volta pela cidade. Desta vez, eu esperava conhecer a tão famosa loja de Olga, mas conseguimos, ao invés disso, nos desencontrar duas vezes na mesma manhã [pelo menos conhecemos o mercado de artesanato do outro lado da rua]. Deixamos um bilhete e seguimos viagem para Natal.

Sobre o resto do dia não tenho muito que falar. Chegamos em Natal no começo da noite, jantamos, visitamos parentes e dormimos para agüentar o rojão até Fortaleza. [“quem tá no rock é pra se f...”].

14.05|Sexta-feira
É... O que não tive pra falar da quinta tenho da sexta. Saímos de Natal às 7h30 da manhã em direção à Fortaleza. A “naftalina” era tanta que gLEISSON resolveu acelerar o carro [quem já andou com ele sabe do que estou falando]. Paramos pra almoçar em Aracati [CE]. Compramos queijo, presunto, pão e água pra fazer suquinho [o famoso midi de Nando que nos viciou a viagem inteira] pra comer na “praça de alimentação” – farofa total! Legal foi ter que abrir o pão com tendência “esfarelativa” sem ter uma faca. Inventamos o sanduíche de pão [ou misto ao avesso] – onde o pão era o recheio do queijo e do presunto.

Depois de tão nutritiva refeição, caímos na estrada, chegando ao nosso destino no meio da tarde. Fomos para a casa de oGEORGEnão [Belasco], nossa guarida. Aí sim começou o dia! Fomos visitar o estúdio de Alencar [pessoa super amável] onde conhecemos Dado [outro doce], um dos dois djs da festa Noise 3d em que tocamos no dia seguinte. Lá vimos vídeos de outras edições da festa onde conhecemos algumas bandas locais,muito legais, vale a pena ressaltar. Conhecemos também os vídeos do pessoal do “From Hell Corporation” – sem querer comparar, mas já comparando, um tipo de Hermes e Renato de lá! \,,/.

À noite, fomos para uma festa no “Motel 90” com as bandas Vada [Lê-se Vêida], Velocípedes e Khobaia [acho que assim que se escreve] que iam filmar seu clipe “Prostituta adolescente”. Achei estranho, a princípio o nome da “boate”, até saber que a mesma era, realmente, um bordel. Tudo bem! Eu e minha inocência. Inocência que foi desvanecendo à medida que eu adentrava o local, até dar de cara com uma TV! Não preciso dizer o que se passava nela... Depois disso, as “garotas” dançando e sentando no colo de porteiros, caminhoneiros e estivadores não foram nada demais.

Fui direto para o fundo onde havia um “palco” [imaginem um batente para uma pessoa dançar com uma barra de ferro no meio para as “piruetas”, amontoados com amps e a bateria]. A extravagância da noite começou com o show da Vada acompanhado pela narração de alguém do bar que gritava num microfone: “Vamu lá, Vêidêi!” cada vez que eles davam um intervalo entre as músicas “Esse é o rock al-ter-na-ti-vo!”. No meio do show, sobe ao palco “Tânia Alves” que começou a fazer um strip completo no meio da banda, descendo do palco para “interagir” com os espectadores. A essa altura, várias pessoas já haviam me perguntado se eu estava me sentindo bem e se queria ir sair dali, mas, sei lá, àquela hora eu já tinha abstraído.

Continuando a diversão, sobe ao palco a Khobaia com seu stripper próprio: o vocalista Jonathan. Mas isso não foi motivo para recusar a presença das admiráveis “Madonna” e “Kelly Key”, figurantes do clip. O local já estava lotado de pessoas que não sabiam se riam ou gritavam mais. Eu, que ainda tentava amenizar meus pressentimentos, desisti de tudo depois que os “garotos” da banda começaram a beijar as garotas não só na boca...

É... Ri muito, mas fui embora depois da segunda banda. Diverti-me, dentro do possível, mas não é algo que eu gostaria de repetir tão cedo. Talvez se eu tivesse ficado até o fim, não estivesse tão disposta a descrever essa noite aqui.

De lá, esticamos até à festa “Fliperama”, onde estava rolando um som altamente legal e dançamos até não agüentar mais.

Uma noite e tanto!

15.05|Sábado
Depois de uma sexta como essa, nada melhor que dormir até tarde! Estávamos ansiosos pelo show pois já faziam dois dias sem tocar.

Fomos para o estúdio de Daniel [amigo da galera] onde o pessoal do From Hell grava seus programas e conhecemos parte do pessoal. Quem estava ensaiando por lá era a banda Marie Poppins [eu recomendo!!!]. Todos são super simpáticos e espero que, em breve, possamos tê-los por aqui.

De lá, fomos passar o som junto com a banda que dividiu o palco conosco: Ted Boy Marino [cover dos Pixies]. Acho que foi o único momento em que trabalhamos realmente nesta viagem. Ajustar som, equalisar, ver volumes, retorno, etc. O resto foi só diversão!

Voltamos pra casa e na volta pra boate [Ritz Café], Dado liga avisando que a TV estava lá querendo nos entrevistar!!! Uhu! Segundo George, tudo conspirou a nosso favor. Quando chegamos lá foi que bateu a real. Não lembro o nome da emissora, mas sei que era fechada com transmissão para toda América Latina. Agora sim, o sentimento de banda se fortaleceu mais ainda! A repórter começou nos perguntando sobre como foi o convite pra tocar em Fortaleza e tal e no fim, parecia mais um programa de fofoca... “Quem é o mais namorador?” etc. Hahahahhahah Foi divertido! Eles ainda ficaram para transmitir uma parte do show.

O show foi o melhor que já fizemos, sem dúvidas! Senti-me no direito a tudo! Desde a pisar nos pedais de Nando quando achava legal, deixar de tocar sem me preocupar se a pandeirola estava em cima ou embaixo do palco [isso eu soube depois], cair no chão e até beijar o baterista!!! Eu estava totalmente absorvida pela química que rolou entre a gente e o público! As pessoas estavam dançando, tirando fotos da gente, cantando junto! [Dado havia alertado que o pessoal de lá não é de dançar] Lembro muito de Laudenir [Marie Poppins] e George tirando fotos, Alencar filmando, entre todos os outros flashes. Uma lembrança muito forte que tenho é a de Deivy Hell [baixista Marie Poppins] hipnotizado pelo palco! Foi mágico!

Depois de um show desses, qualquer coisa que viesse era lucro! A Ted Boy Marino chegou com um repertório altamente bem selecionado e fez sua parte na noite. Dançamos muito! A discotecagem de Dado e Denis Dead não ficaram atrás e manteve a agitação da festa.

Conhecemos muita gente e posso dizer que fizemos amigos por lá! Fomos dormir radiantes e tristes por ter que ir embora!

16.05|Domingo
Dormimos pouco, mas é assim mesmo! Tomamos café e fomos embora. Uma longa estrada de volta nos esperava. Ao passarmos de Aracati, uma grande família de buracos nos recepcionou e nos chamou pra parar e tomar um café. Nosso pneu levou o convite a sério e chamou também o estepe. Nando, o escolhido, foi pro outro lado da pista e pegou uma carona de volta pra Aracati, ajeitou o pneu e voltou no carro da polícia [sim, descobrimos que a polícia rodoviária também está ali pra isso!]. Voltamos todos pra Aracati para ajeitar o outro pneu...

De volta à viagem, e com o mesmo bom humor de sempre, paramos em Mossoró pra comer e continuamos até Natal onde paramos pra dormir, aí sim, morto de cansaço.

17.05|Segunda-feira
Volta pra casa! Felizes devido ao cansaço e tristes pela vontade de passar mais tempo com essas pessoas maravilhosas. Com certeza essa viagem mexeu com todos nós! Voltamos reforçado daquilo que queremos fazer e agora sabendo que temos para quem fazer!

Essa é a maior motivação! Que os bons ventos nos guiem!