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Universo Barbis: uma análise semiótica
Diogo Todé | Ilustração: Jarmeson de Lima | em 04.01.2006




Elas não são só rostinhos bonitos das ladeiras de Olinda... Elas não levam a vida só a jogar capoeira ou comer tapioca na Sé... Elas são barbis de nível universitário. E são gostosas também! O grupo teve início em 2002, mas só se completou com a presença das quatro Barbis e de seus Bobs instrumentistas.

Ambientada nos clichês musicais existentes, a performática banda traz hoje em seu repertório composições que abrangem vários ritmos (jazz, samba, brega e punk, por exemplo), mas sempre preservando a atitude cênica do rock and roll. A temática das letras circula entre a ironia, quebras de representações e estereótipos do mundinho urbanóide, com um leve escracho e sensualidade! Até mesmo uma antiga boneca Barbie, apesar de estar numa caixa cheia de tralhas, continua luxuosérrima, linda e maravilhosa.

O que fazer e aonde ir numa noite farta de acontecimentos, numa cidade cheia de clichês e lotada de rotinas entediantes? Um inferninho! Muita droga na cabeça (leia-se café, coca-cola, cigarro e algumas poucas cervejas). E uma banda liderada por quatro garotas, as Backing Ballcats Barbis Vocals, pela promessa de um show, no mínimo, diferente. Aplicar arte ao mundo barbis é seguir tendência de mercado. (Ex: dentro de um sistema de clichês baratos, uma bunda vende cerveja e uma gostosa vende mais). Eu me orgulho da semiótica. Mas nesse mundo de ícones, o símbolo pouco importa. Pouca substância. Coisas que acontecem sem a gente perceber. Fica essa idéia fixa na cabeça.

Provavelmente elas devam ser uma das 150.000 pessoas mais interessantes do mundo, e uma das 1500 mais interessantes do eixo Recife-Olinda. Desbocadas, teatrais, vestidas com plumas e paetês e cantando/gritando. O atraso, em vez de trazer impaciência aos Bobs Babilônicos (a parte masculina que acompanha as Backing Ball Cats Barbis Vocals) é pretexto para ser convertido em cerveja e cachaça. É bacana ver quatro garotas à frente de uma banda, berrando feito loucas, provocando, instigando e soltando impropérios. De beleza natural, madeixas da mamãe, e olhos do papai. Modéstia e humildade.


"Elas cantam, como quem encanta, elas são simples, elas são a luz, elas seduzem, muito, muito, muito! Se eu ou você pegasse uma Barbi no beco ao lado do Bar do Bigode... "


Então, comparar uma vida ao way of life cor-de-rosa da bonequinha americana, é perceber que, se fosse uma Barbie, ela seria uma Barbie mal sucedida mesmo. A Barbie mal sucedida é uma versão falida da Barbie original: é baixinha, está sempre lutando contra a balança, e tem a pele traumatizada pela acne da adolescência. Enquanto a bonequinha americana curte a vida glamourosamente, locomovendo-se no seu luxuoso carrinho cor-de-rosa e esbaldando-se em festas badaladérrimas, a Barbie mal sucedida constantemente se vê no trajeto ônibus-metrô de volta pra casa, lamentando-se de baladas frustradas e pensando: "Eu deveria ter ficado em casa. Hoje eu não vou comer ninguém!!!".

É impossível não compará-las aos Texticulos de Mary, todos os críticos fazem isso. Mas quem precisa de críticos!? De fato, a criatividade de um crítico é nula perto de quem produz ou vive de criatividade. E as provas são as comparações, fuga certa da ignorância. Os Textículos certamente tinham, sexualmente, uma atitude muito mais punk que elas. Elas ainda são garotinhas, de fato. Alguns não gostam muito da banda, achavam melhores as meninas e o playback. Sim, porque a atitude de banda é cênica e não musical. Talvez elas devessem se dedicar mais ao show / performance e não pirar em ser uma banda musicalmente séria. Falam que esses garotos que tocam com elas são uns músicos muito caretas e que elas não são, mas acabam indo na onda... Acho que elas deviam tocar ou vestidas de homem, ou nuas. E dançarem, como que possuídas por alguma força estranha que reage sem cessar à imobilidade da morte... Toda ferocidade que provocam, sem querer, continua sendo beleza e equilíbrio, porque talvez nada mais nos resta, numa casa cercada por cachorros, senão amarmos uns aos outros...

Uma barbi é linda, é meiga, é carinhosa, é criativa, pulsante, amante, vive de brilhos, vive de amores, vive de paz. Não quer, nem deixa, ninguém fazer mal a ninguém. Elas amam, sempre! Elas dizem algo todos os dias, mesmo se não falam... Elas cantam, como quem encanta, elas são simples, elas são a luz, elas seduzem, muito, muito, muito! Se eu ou você pegasse uma Barbi no beco ao lado do Bar do Bigode... Iríamos fazer loucuras sexuais sem limites... Sempre com muita intensa ousadia de vida e de vigor pela vida.

Uma loja estilo underground. Você se depara na vitrine com a bonequinha Barbi, com olhinhos de quem me pedia pra sair dali e se aventurar no mundo. Não tenha dúvidas: passe seu Visa Electron e se mande dali com sua mais nova amiguinha. Assim só terás alegrias. Barbi não tem frescura, não fica pedindo bateria nova o tempo todo, não fica fazendo confusão com a doce bonequinha Chuquinha, não faz escândalo se você brincar com a Suzi de vez em quando. E só pede pra ser guardada na caixa junto com o Ken (que vira amante se você apertar o botão) pra brincarem de casinha (como se fosse uma mansão mobiliada, com carro cor de rosa).