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Especial bandas "off-mangue"
Ana Garcia | Foto: Barbis em 20.02.2006



Rótulos às vezes são até necessários. Não fosse assim, não teríamos como lembrar ou classificar tantas bandas sob um mesmo nome para designar um ritmo ou estilo. No caso do "Off-mangue", o termo serve para tentar explicar ao mundo que existe fora de Pernambuco a quantas anda a cena musical do Recife hoje em dia, visto que no imaginário mundial, quase todo mundo achava que só existisse na cidade bandas que fazem misturas de ritmos ou aquela tendência regionalista. Ainda assim, este termo tão vago serviu para falar de grupos que isoladamente não chamariam a atenção das pessoas daqui ou de fora. O conceito de uma cena não se aplica exatamente aqui, mas o "off-mangue" agrega as bandas pelas diferenças. Poucas delas possuem características musicais em comum, mas ao menos possuem a não característica de se igualarem ao que era produzido nos anos 90 em Recife. E neste carnaval, no RecBeat, três grupos dessa nova geração de bandas recifenses vão para o palco do Pólo Mangue para mostrar o seu som. (Jarmeson de Lima)

"Love, Sex and Drugs. Aparatos necessários para o nosso 'way sex and the city of nonsenselife'"


Quando você escreveu a sua primeira música?
Barbis (Backing Ballcat Barbis Vocal’s e Os Bobs Babilônia): Não conseguimos lembrar qual foi à primeira escrita, mas “Socialize / Só Se Alise“, foi a primeira trabalhada com a banda.
Paulinho (3 ET’s Records): Escrevi minha primeira letra para uma banda sem futuro quando estudava na Escola Técnica. Era uma canção cheia de revolta, amor e suicídio. Eu não lembro mais o nome, nem como era, mas era tipo Legião Urbana.
Tomaz (Profiterolis): Deve ter sido em 1992. Lembro que uma das minhas primeiras músicas falava de um empresário do ramo de lingerie que tentava ampliar o negócio durante a Guerra do Vietnan. Indo de encontro à desgraça toda, ele continuava acreditando no aumento das vendas e no mercado novo que ele poderia angariar num país distante e em dificuldades. Na época eram sempre temas muito sérios. Antes disso, com uns 10 anos eu fiz uma música-tema de um seriado japonês imaginário pra ser a trilha sonora das minhas brincadeiras no quintal e no terreno baldio ao lado.

Como você era com 16 anos?
Barbis: Éramos todas lolitinhas e lolitinhos angustiadas, com calça de skatista e tênis All Star, cheiro de novo no ar...se escondendo pelos cantos, acatando e desacatando...
Paulinho: Feio.
Tomaz: Desarticulado e inapropriado.

Quem/que você queria ser quando crescer?
Barbis: Queríamos ser Barbies, mas conseguimos ser Barbis.
Paulinho: Artista, cientista, astronauta, quadrinista...
Tomaz: Eu mesmo mais velho.

Conte algum momento trágico da sua vida...
Barbis: Ai, pula essa... Somos a própria Tragédia Méxicana.
Paulinho: Um psicopata me esfaqueou no rosto, sem motivo algum. Isso foi em 97 e eu tinha acabado de comprar uma passagem de ônibus para São Paulo. Ia eu e o Otto (pra gravar o primeiro disco dele). Não pude viajar, fiquei um mês com a cara inchada e o coração cheio de desejo de vingança mortal... O cara, coitado, me pede desculpas até hoje, era amigo de infância e não sabe por que me atacou. Tive sorte: a faca bateu no osso da maçã do rosto, não foi no olho, nem na têmpora, nem na garganta. Deus é mais.
Tomaz: Quando era pequeno, por falta de cuidado, eu deixei durante uma festa no apartamento dos meus pais, a minha tartaruga que vivia com os peixes lá no aquário desprotegido. Quando lembrei dela, ela já estava morta. Alguns convidados devem ter ficado brincando com ela durante a festa. E eu e meu pai fizemos o enterro dela no jardim do prédio.

Já conheceu alguns dos seus heróis? É uma boa idéia conhecê-los? Barbis: Sim, sempre nos deparamos com algum no já tradicional carnaval olindense...
Paulinho: Jards Macalé. Eu estava bêbado e emocionado, dei meus óculos escuros para ele, falei uma tonelada de besteira aleatória e devo ter perturbado o lindo show dele. Mas acho que ele se divertiu. Vou escrever para ele pedindo autorização para gravar “Negra Melodia”.
Tomaz: Meus heróis morrem de artrose. Gosto de acompanhar eles até ficarem velhinhos. Até já cheguei bem perto de alguns deles, mas não tenho vontade de me aproximar muito.

Qual foi a experiência mais estranha que você já teve com uma fã?
Barbis: Uma fã no show de Petrolina perguntou se conhecíamos a Pitty!!! E nós dissemos que éramos unha e carne! Seus olhinhos brilharam... E os nossos também. Um garoto ficou querendo entrar no banheiro onde estávamos trocando de roupa depois do show. Ele ficava gritando do lado de fora. Não que ele quisesse nos agarrar, ele queria apenas se comunicar... Mas foi muito loucamente! Com muita sede ao pote! Fomos a uma festinha de formatura de uma amiga, e tinha uma adolescente esbaforida, agarrando a gente pra tirar fotos, tentamos fugir enlouquecidamente, pulamos o muro do Classic Hall, mas não teve jeito. Felícia nos aguardava na saída...FLASH!
Paulinho: Todo fã é esquisito.
Tomaz: Uma vez eu dei autógrafo, mas ainda acho que estavam tirando onda comigo.

Qual é a coisa mais errada que as pessoas pensam sobre você hoje?
Barbis: Não sabemos. Nunca perguntamos. Mas... Freqüentemente acham que somos Barbis e Bobs em tempo integral. Ninguém agüentaria...
Paulinho: Pensam que eu sou da Al-Qaeda.
Tomaz: Que eu me esforço pra complicar; que eu pretendo mais do que o resultado; que eu considere especial fazer música por isso mesmo quando na prática é realmente saudável poder fazer uma escolha de vez em quando.

Qual foi o maior dodói que vocês tiveram por causa da sua arte (exemplo: quebrar a perna por pular do palco)?
Barbis: Pergunte a nosso querido baterista-gatinho-hipocondriaco-performancerman-insuportavelmente-vaidoso-doentinho-do-coração... Na realidade somos uma banda que sofre de um psicossomatismo doentil...
Paulinho: É sagrado morrer no palco.
Tomaz: Uma vez eu tive um quase-torcicolo porque o palco do lugar era mais longo do que fundo e o cabo do violão era menos extenso do que o lugar onde ficava o microfone pra cantar.

Quais são os hábitos mais chatos dos outros integrantes da banda?
Barbis: Bob Baixista - Metódico incorrigível; Bob Baterista - Olhar o item acima, além de estar sempre atrasado; Bob guitarrista (ruivão)- Sofre de DDA (distúrbio de déficit de atenção) terrível!; Bob guitarrista – Sempre esquece a grana do ensaio!; Bob percussionista – É Rasta demais!; Barbi Letal – Tá sempre apressada! E esquece de tudo; Barbi Pagã – Perfeccionista chatona...histérica; Barbi IsadoraIdosa – Têm dificuldades em escutar; Barbi Summer – Tá sempre de larica, querendo comer churrasquinho de rua. Um saco!
Paulinho: Eles curtem dar sustos em autoridades autoritárias e sou eu quem tem que resolver.
Tomaz: É muito chato quando o guitarrista toca guitarra, o baixista toca baixo, o baterista fica tocando bateria e o vocalista canta. Pior ainda se for tudo ao mesmo tempo.

Os membros da banda só tocam o próprio instrumento ou também tocam no instrumento dos outros?
Barbis: Barbi Summer toca bateria em uma música e sempre fazemos dinâmicas de grupo, em que trocamos de instrumentos e vozes. Uma experiência para cada um conhecer o universo artístico do outro.
Paulinho: Eles não tem nem preconceitos nem frescuras: tocam tudo.
Tomaz: Passa ou repassa/sim, não...talvez.

Quais são as coisas necessárias em uma cidade para você viver feliz? Barbis: Love, Sex and Drugs. Aparatos necessários para o nosso "way sex and the city of nonsenselife".
Paulinho: Vulcôes, terremotos, tsunamis e meteoros. Igrejinhas, padarias, barbearias, armazéns de construção. Paz, amor, alegria, surtos de telepatia.
Tomaz: Segurança, limpeza, bons lugares pra sair e encontrar os amigos, de preferência com boa comida.

Você já roubou alguma coisa? O quê? Conte a história, por favor.
Barbis: Nós sempre costumamos roubar coisinhas de usar no show, como anéis, purpurina, plumas, brincos, naquelas lojinhas de biju de 1 real da cidade. E ainda pagamos usando o artefato roubado. Eita maior cara de pau. E ainda todos os materiais do nosso cenário foram retirados sem consentimento de alguns estabelecimentos. Também tivemos a incrível sorte de no dia em que resolvemos renovar nosso estojo barbistico de maquiagem, deprimidas e depressivas com o gasto que isso seria para nós, rumamos para as Lojas Americanas. Quando estávamos escolhendo nosso arsenal, acontece a inesperada-deliciosamente-bem-vinda: falta de luz! Saímos enlouquecidas recheando nossas bolsas cor-de-rosa de tudo que conseguimos angariar nesses 2 minutos de queda de luz. Ah! Compulsivamente roubamos também nesse dia algumas luzes de Natal. Afinal, nunca se sabe quando irá se precisar delas, não é?
Paulinho: Peixes em praças, frutas no quintal alheio. Alguns corações. Nada sério.
Tomaz: Já roubei alguns LPs (pedindo emprestado, claro). Mas sempre quando já tinha investigado e tido a total certeza de que eles iam viver melhor comigo do que com os donos relapsos, que os deixavam empenando sob o peso de alguma coisa.

Se você pudesse dar uma porrada em qualquer pessoa do mundo sem sofrer as conseqüências do mundo real (ser preso, pagar multas, etc), quem seria?
Barbis: Bush (muito deprimente pra ser gente! Me faz perder até a vontade de consumir); Xuxa (o pior tipo de mulher que existe, lobo em pele de cordeiro! Cuidado lolitinhos!! Ela emana uma energia sexobestial muito forte) e Carla Perez, porque morremos de inveja das transformações que ela fez no corpo, no cabelo e claro na sua essência.
Paulinho: Paulo André Pires. Mas qualquer outro imbecil hipócrita mesquinho serve.
Tomaz: Um murro na fuça de Mark Chapman seria rejuvenescedor.

Se você fosse uma estrela de pornografia, qual seria o seu nome e por quê? O que isso fala sobre você?
Barbis: Lady Dinamite, claro! Temos uma música em homenagem a ela, feita por uma amigo. Uma maneira de homenagear o pornô e os corpos naturais dos anos setenta! Afinal todos temos estrias e celulites. E apreciamos bastante tetas com uma certa decadência!
Paulinho: Nunca quis ser ator pornô: só gosto de sexo com amor.
Tomaz: Aurora Boreal, pra enfeitar o céu do mundo com a minha presença.

Como você gosta de se divertir?
Barbis: Tocando e interagindo com o público que se torna nossa extensão. É muito gostoso olhar para as pessoas assistindo ao show e virando atores junto conosco, entrando num transe coletivo, já que também é nossa proposta. Palco em que as Barbis estão é sempre uma grande arena sem limites artisticos-lombrísticos, um grande espaço para interação.Todos encarnando os papéis que melhor lhe caem, soltando os bichos, frustrações, rindo, gruindo, berrando, bailando, atuando. Seja uma Barbi você também!
Paulinho: Surtando por aí.
Tomaz: Falando merda, tomando Coca-Cola com gelo e limão.

Qual é o fenômeno cultural que te deixa puto?
Barbis: Big Brother. São muitas Barbis juntas, muita competição!
Paulinho: O racismo, a proibição da maconha, a política, os políticos, a mentalidade "anyway", a "brodagem", a monocultura geral.
Tomaz: Nenhum fenômeno cultural chega a me deixar puto, mas eu acredito que talvez seja a música funcional só de filme, como trilha sonora.