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Brasilintime
Lauro Mesquita | Foto: Zé Gabriel Lindoso em 11.05.2006



Tirar do freezer direto para o microondas. Depois de descongelado, acrescentar um tempero extra, esperar um pouquinho e comer. A comida congelada é uma das conquistas da vida moderna. Com ela, o sujeito pode reaproveitar uma delícia preparada há um tempo atrás e mandar brasa em um dia de solidão e vagabundagem. Em alguns casos, após a temporada no congelador, o rango concentra o sabor e fica ainda mais gostoso. É o caso da feijoada. Mas em alguns momentos o resultado é o oposto e a comida perde completamente o sabor e fica parecendo mistura bizarra de gás de geladeira, azedume etc.

O evento Brasilintime esteve longe de repetir os efeitos da nossa citada feijoada na última sexta-feira. Se não foi azedo, não proporcionou a satisfação da primeira visita do projeto há uns dois anos atrás. Basicamente, a idéia era reunir ritmistas de várias localidades e DJs americanos e brasileiros. Com isso, tentar produzir música dançante e, de um certo ponto de vista, inovadora (discuto isso aí lá embaixo). Não sei o que aconteceu mas não funcionou, pelo menos na sexta-feira. Talvez seja o lugar – o Teatro do Sesc Pompéia –, onde as pessoas não podiam dançar. Tinham de assistir a tudo sentadas. Mas pode ser que o negócio tenha caducado, perdido o tempo e a mistureba não faça mais sentido, tenha saído de moda.

O insucesso da festinha pode se dever também ao fato de que só um dos bateristas americanos da primeira edição do Brasilintime participou nesse repeteco. Pelo que sei, os gringos que vieram há uns dois anos atrás já haviam tocado em outro projeto – o Keep in Time – com os DJs. Por isso já chegaram mais entrosados com eles. Não sei, só estou chutando aqui pra tentar entender o que mudou.

Afinal, o evento contou com dois bateristas muito importantes criadores de gêneros com grande importância rítmica como o Wilson das Neves – um dos tradutores do samba e da bossa-nova para a bateria – e o Tony Allen – que, se não foi pai, deu comida na boquinha do afrobeat, desde que o gênero era bebezinho –, além de alguns DJs famosos como Madlib e o J Roc.

Não apareci na primeira festa. Só sei que foi um sucesso e uma satisfação poucas vezes vista entre o público paulistano. Se tivesse sido ruim, o negócio não iria lotar o Sesc dois dias seguidos. Eu nunca fui entusiasta do evento. Principalmente por que o resultado, apesar dos esforços, é muito pouco musical. Acho que acaba descambando pra uma coisa fácil no pior sentido da palavra. E a idéia da criação improvisada sempre vem meio embalada na vontade dos músicos se ajustarem ao que o público espera deles.

"Se não foi azedo, não proporcionou a satisfação da primeira visita do projeto há uns dois anos atrás. "

Vou tentar explicar melhor. Ao tocarem juntos, os DJs querem soar o mais samba possível e o mais virtuosos que eles puderem. Os percussionistas também, mas se adequando a uma linguagem do hip hop. Com isso, cria-se uma falsa impressão de que algo novo está sendo inventado ali. Na verdade, o ritmo diferenciado das batidas usuais do rap ou da dance music acabam soando somente como mais um elemento ––um sample inédito – em meio a scratches e outros sons lançados pelos DJs. E o pior de tudo é que não existe interesse real de parte dos músicos e nem da organização de se explorar a coisa de um jeito mais musical. A idéia é jogar os clichês do mesmo estilo numa panela, ainda que com muita excelência, e ver no que dá.

Mistureba

O resultado fica parecendo uma mistura de workshop da Teodoro Sampaio (rua onde se localizam um grande número de lojas de instrumentos em São Paulo) com campeonato de DJ. Nada menos artístico e inventivo do que a técnica vazia, mas deixa pra lá. E, principalmente, ninguém vai muito longe do ponto de vista musical mesmo. O clichê impera e pode parecer tudo – exibição técnica, bagunça, festinha, um samba-rap com pitadas de afrobeat, sei lá –, menos criação.

No Brasil esse discurso de misturar uma novidade internacional com algum elemento musical notadamente brasileiro vem sendo considerado a tábua de salvação da música nacional. É um discurso que pode ser vistos em entrevistas com artistas, em artigos de jornalistas e até em conversa de boteco. O pessoal trata criação sonora como uma elaboração em que basta colocar elementos aparentemente modernos ao lado de ritmos regionais, e daí nasce uma inovação. Um produto novo. Melhor se o sabor local estiver distante do cardápio há um tempo.

Nos anos 90, isso virou uma obrigação mercadológica. Para atingir o público de classe média, o rock-pop brasileiro deveria trazer entranhado elementos da música brasileira. A imprensa musical sentia uma necessidade gigantesca de renovação de artistas e, para isso, era absolutamente necessário uma certa ruptura com o rock brasil dos 80. Algo que diferenciasse o som de uma geração para o da outra. O pessoal aproveitou a onda do funk o' metal e embarcou geral.

A aparição do mangue-bit, forró-core, caipira-groove e sei lá mais o quê foi a alegria para esse povo. Venderam revistas e realmente criaram algo novo daí. Um produto novo e uma nova abordagem sobre a música brasileira. Mais pra frente, com os relançamentos de discos antigos da MPB dos 60 e 70, a nova tendência foi citar discos raros como referência fundamental. E assim prosseguiu.

A qualidade na música brasileira passou a ser ditada pela capacidade de lançar produtos novos e velhos ao mesmo tempo. O objetivo era ser convincente ao lançar marcas que pudessem parecer algo maior e mais importante do que elas eram de fato. A música, na maioria dos casos, continuava um emboladão de trocadilhos, frases feitas e clichês musicais, Além disso, os músicos se contentavam e se acomodavam com uma fórmula que eles criavam e insistiam nisso até o possível. Depois, descobriam uma novidade internacional, um novo termo e a vida continuava. O fenômeno é notável nos discos dos Raimundos, do Marcelo D2, do Nação Zumbi e em muitos outros.

No meu ponto de vista, o Brasilintime é um exemplo claro disso. Traz músicos interessantes e a intenção é excelente. Poderia até render. Só que o interesse pelo clichê é tão grande que a criação fica deixada de lado. É a justificativa fashion em primeiro plano.

* Texto publicado originalmente no blog http://diretodepiei.zip.net
** Foto publicada originalmente no site Radiola Urbana