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Slick Boy e Sir Moog
Parteum em 27.09.2006



O nome é Dilla Dog e ele só podia representar o som cru e real. A Dona Maureen o chamava de James, ele se chamava de Slick Boy e eu sempre procurava pelo nome J Dilla / Pay Jay Productions nos créditos de produção. Ele se foi, se desprendeu dessa esfera. Vivo ouvindo que nessa luta entre os corpos e a gravidade, a vitória sempre é do segundo na equação. Por horas, todo dia, a gente luta contra a gravidade e se cansa, dorme, acorda, faz tudo de novo até que o inevitável acontece, mas ninguém espera que um gênio parta daqui aos 32 anos de idade. Não faz sentido, sou cético com qualquer pensamento mesquinho de dizer que a vida de um homem vale mais do que a de outro, mas não há um jeito seguro de exemplificar o tamanho da perda.

Eu detesto comparações, mas o valor da obra do menino Dilla era equivalente ao trabalho do menino "Gondry" num outro âmbito, o produtor que todo mundo imitava sem nem saber que o fazia. A maneira como ele programava as batidas, o atraso de alguns bumbos ou caixas, as melodias do baixo, ora evocando os primos do reggae, ora evocando os primos do Techno de Detroit (ele era de lá). Os passeios entre a música eletrônica de vanguarda, o Jazz, o Funk e o Soul norte-americano, os flertes com a rítmica brasileira...Tanta coisa vindo de uma só fonte, que quando uma produção dele colocava dois universos tão distintos quanto Stereolab e Common na mesma canção, eu me questionava se o "rap" era muito burro por não reconhecer a grandeza de tal feito, ou se para Dilla nada disso importava senão a música.

"Eu detesto comparações, mas o valor da obra do menino Dilla era equivalente ao trabalho do menino "Gondry" num outro âmbito"

Um dia desses discotequei ali no Milo, uma hora e meia de Dilla. Os remixes que ele fez, de Busta Rhymes a Four Tet, os sons do Slum Village lá da metade dos anos 90. Era uma homenagem, uma boa maneira de dizer obrigado e deixá-lo seguir em sua viagem. Na mesma noite comprei um DVD que conta parte dos experimentos, aventuras e desventuras de outro ser genial: Sir Robert Moog, o homem que popularizou o sintetizador e tanto fez pela música experimental desde os anos 60. Conclusão: Pensei em tanta coisa pra escrever sobre dois gênios que já se foram, tentei cruzar informações pra ver se em algum capítulo a história os colocou em contato, mas acho que isso é um trabalho pessoal e intransferível. Se o que te move é síntese e modelagem de sinais de áudio, ou instrumentais classudos de rap sem preconceito, digite o nome J Dilla e Robert Moog no espaço devido da ferramenta de busca de sua escolha e aprenda uma coisa ou duas sobre as pessoas que dirão, de alguma forma, quem você era no começo desse milênio. Onde você esteve, o que ouvia... Dizem que somos o que comemos, não concordo totalmente. Creio que somos o que ouvimos em maior porcentagem. Parafraseando Sir Moog pra finalizar, isso é algo entre descobrir e testemunhar. Falar sobre o que descobrimos vira testemunho quando os anos passam, um modo de dizer quem somos ou por onde passamos em nossa experiência terrena.