Clichês e
TV On The Radio não combinam, definitivamente. Tradicional trauma das bandas de um álbum só, o segundo disco do agora quinteto – o recém-lançado "
Return To Cookie Moutain" – espanta qualquer desconfiança e os músicos demonstram segurança e clareza absoluta do que estão fazendo. É difícil achar dúvidas no trabalho até mesmo para quem não gosta do som.
Em todos os termos, o TVONR vive um paradoxo: ao mesmo tempo que tudo que se aplica ao rock parece não lhe dizer respeito, o rock aparece por completo em sua música. Tudo porque Tunde Adebimpe (vocal), Kyp Malone (guitarra) e Andrew Sitek (guitarra e programações) – acrescidos agora de Gerard Smith e Jaleel Bunton – têm o incrível poder de produzir algo que, desde a primeira audição, já soa atemporal. Suas canções destilam beleza e congelam o tempo em um disco perfeito, que só cresce a cada audição. É dessa forma que o tradicional e quase esquecido doo-wop convive bem com uma sonoridade gótica oitentista, ou com uma atonalidade de world music africana com acabamento de shoegaze moderno – para citar só algumas das lembranças que o álbum suscita.
Em
“Return To Cookie Mountain”, a fórmula que deu certo em “
Desperate Youth, Blood Thirsty Babies”, de 2004, é tão repetida e aperfeiçoada quanto negada – outra saudável contradição. Aqui as coisas estão muito mais dinamizadas, o leque de influências é maior, mas não necessariamente porque o som se desenvolveu –mesmo porque isso não era preciso.
A fusão de diferentes ritmos e melodias provoca, a principio, a impressão de que o disco é mais difícil de se ouvir do que o anterior – sensação que logo passa quando se percebe a profundidade da música. Para outros grupos, misturar diferentes tendências representa pender sempre para um lado ou para outro. O TVONR não tem esse problema, sua alquimia é original. A banda cobre todos os espaços e muitas vezes chama mais a atenção para sua face menos óbvia (melodia atonal, batidas tribais) do que pela que se destacaria naturalmente (o rock). Logo de cara, o clima das músicas bate no ouvido – "climáticas" parece ser a melhor definição para suas canções. Timbres e programações se misturam e o ritmo varia com tudo isso e, às vezes, dá a impressão de que tal música é mais rápida ou mais lenta do que parece.
Depois de se ver envolvido pela atmosfera criada pela banda, é preciso se procurar a melodia escondida no meio de tudo isso. E, acredite, ela revela-se extremamente sutil e bonita mesmo ofuscada por toda a densidão sonora. Em algumas faixas, ela aparece mais facilmente (como na bela “Tonight”); em outras, camufla-se nessa teia musical maciçamente rica (como em “Blues From Down Here”).
Outra vantagem do TVONR é de não trazer pendurada aquela sina que persegue quase todas as bandas surgidas nessa década – de ter sua música total e constantemente associada a algum ancestral do rock. Joy Division, Gang of Four, Velvet Underground e Stooges são alguns os "avós" preferidos do momento. O quinteto nova-iorquino, dentro desse raciocínio, é praticamente uma banda orfã de pai e mãe mas cheia de tios distantes. Suas canções são bem costuradas nesse mar de influências, o que garante que sua identificação com outras coisas se dê em termos de estilo, e jamais de somente uma banda de determinada década passada.
Se não bastasse o som, as letras demonstram que o TVONR ainda é uma das bandas que melhor observa o mundo que a cerca.
Também vale destacar que o disco traz algumas participações especiais – entre elas, a de David Bowie, na faxia “Province”. Além disso, a edição norte-americana acrescenta 3 faixas-bônus ao repertório original de 11. Entre esses presentinhos, está a pérola “Snakes and Martyrs”. A banda toca no Brasil, dentro do Tim Festival, nos dias 28/10 (no Rio) e 29/10 (em Sampa). Sorte do público carioca, que verá a melhor banda nova-iorquina da atualidade em um espaço decente – a Marina da Glória. Aos paulistas restam a péssima acústica do Anhembi e / ou uma boa desculpa para visitar a cidade maravilhosa.
(Matéria originalmente publicada no site Radiola Urbana - www.radiolaurbana.com.br)