
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
|
Cobertura Tim Festival 2006 (RJ)
Palavras: Júlio Cavani | Foto: Alexandre Schneider/UOL em 31.10.2006
Dez coisas sobre o TIM Festival 2006 - Etapa Rio de Janeiro
1. Picapes
Entre Daft Punk, Mix Master Mike e Shadow, fica difícil eleger o melhor DJ do festival, até porque os estilos deles são completamente diferentes. Os robôs franceses mal mostram os braços, cobertos pela parede da pirâmide onde tocam, levando o público a perceber suas manobras pelo comportamento da música em si e não por malabarismos com as mãos. DJ Shadow, com uns quatro toca-discos e ainda manipulando ao vivo as imagens do telão, parecia um polvo de oito tentáculos. Já Mix Master Mike vale por uma orquestra inteira, apesar de trabalhar com um kit básico de apenas dois turntables de vinil e um mixer normal, fazendo uma ilimitada e imprevisível percussão de samples. Ele até fez um backing vocal em Sure Shot. Também era legal o pancadão do DJ do Bonde do Rolê, que praticamente só fazia trocar de CDs.
2. Gratitude
No show dos Beastie Boys, a maioria das músicas antigas é tocada com novas bases, mais no estilo do que eles fizeram no último disco, com timbres eletrônicos dos anos 80, mas repeitando sempre as marcações e os tempos das melodias. Os graves deles são mais potentes do que qualquer funk pancadão carioca. Time to ill ganhou um remix com tons arabescos. Intergalactic, que já havia aparecido indiretamente em um sample no meio do arranjo de Sure Shot, fez a roda de pogo quebrar tudo. Usando paletó, com cabelos brancos, parecendo mafiosos (afinal, estavam no Rio), eles abriram o show com Root Down fazendo o chão literalmente tremer. Antes deles, DJ Shadow promoveu uma festinha que alternava momentos de balanço dançante e peso raivoso. O Instituto, com uma banda numerosa (M. Takara na bateria) e dois MCs de rap (Kamal e Funk Buia), se mostrou mais grooveado que o normal e com uma vibe meio rasta. Precisam lançar disco novo.
3. Tron
A palavra "show" é restrita demais para definir o trabalho ao vivo do Daft Punk. São várias as convenções musicais que eles quebram. Além de não mostrarem os rostos e as mãos, desconstroem e reconstroem as próprias músicas ao longo da apresentação, fugindo de qualquer esquema tradicional de set list, misturando a base de umas com os vocais de outras. Around the World e Technologic apareceram pelo menos duas vezes cada e Harder Better Faster Stronger umas quatro, por exemplo. O público ainda se sente engolido por aquele cenário ao mesmo tempo retrô e tecnologicamente inédito, cheio de lâmpadas, com cara de ficção científica dos anos 80 - tudo a ver com o som. Foi muito curto (1h20min), mas não faltou informação ali dentro.
4. Freaks
No sábado, a grade foi mal montada. O som de Mombojó tem muito mais a ver com TV on Radio e Thievery Corporation do que com Yeah Yeah Yeahs e Patti Smith (sou jovem demais pra gostar do show dela) e o contrário acontece com Bonde do Rolê (boas bases engraçadas, boas letras engraçadas), com aquela vocalista escandalosa que combinaria melhor abrindo para Karen Orzolek (por sinal, muito exagerada e fake, como se o mundo fosse acabar em cada canção, com músicos igualmente esparrentos). TV on Radio e Mombojó têm em comum a imprevisibilidade no encadeamento de estilos de rock diferentes e ambas usam trombone, flauta e teclados como enfeites. Os televisivos radiofônicos americanos vão do progressivo ao distorcido, passando pelo blues e pelo punk, com uma naturalidade absurda. Com Thievery (som pra tocar em creperia, world music caricata pra gringo ver, show-festinha-clima-de-paquera, meio brega, valeu pela cítara), os pernambucanos compartilham pelo menos a postura lounge dançante de algumas de suas canções.
"Enfrentando uma falha no som de sua guitarra logo na primeira música, Devendra mesmo assim elogiou: "Eu não consigo entender o Brasil. É como um planeta diferente da Terra. É para cá que as pessoas devem ir depois de morrerem." "
5. Massacration
Pelo menos Mombojó, Bonde do Rolê, Beastie Boys, Daft Punk e DJ Shadow tocaram rock pesado em seus shows, principalmente no fim deles, levando muita gente a erguer as mãos fazendo o símbolo do metal.
6. Neobichogrilismo
Na quinta, um dia antes do festival, Devendra Banhart estava na Lapa, vendo um show de samba no Clube Democráticos. Quem tocava era uma banda de jovens de classe média que resgatam a música tradicional carioca. Na platéia, ele, com o cabelo preso e camisa xadrez depois de tirar o paletó, era o que dançava mais livremente, fazendo movimentos suaves com os braços, lembrando os hippies. Estava sempre com seu guitarrista, mais doidão ainda. Naquele público havia muitos cariocas com barba, influenciados pela moda de Los Hermanos, que por sua vez devem ter herdado isso e outros elementos musicais do próprio Devendra, que não era reconhecido e circulava como um exótico anônimo. Na noite seguinte, no palco, com os longos cabelos soltos, lembrando Jesus Cristo, Devendra fica parecido com Ênio, guitarrista das bandas Backin Ball Cats Barbis Vocals e Le Bustier en Decadence. O som dele tem tudo a ver com essas bandas brasileiras que revalorizam as raízes e as associam ao rock (de Los Hermanos a Mestre Ambrósio), mas seu público no Brasil ainda é muito indie-rock (no sentido pejorativo do termo) e não entra no clima durante seu show, ficando parado assistindo. Ele escolheu músicas mais dançantes de seu vasto repertório de seis discos (aos 25 anos), tocou Caetano e Laurin Hill e ainda deixou um cara da platéia subir para tocar e cantar, numa espécie de reality show instantâneo.
7. Repressão
A segurança do festival tinha suas bizarrices à parte. Enquanto a polícia do Rio estava armada com suas metralhadoras do lado de fora, tomando conta do aterro do Flamengo, dentro dos shows, uma mulher loura, com uma carteirinha da polícia federal, revistava o público (inclusive os homens) a arrancava baseados e comprimidos das mãos dos usuários. Todos os dias, quando o dia começava a amanhecer, brutamontes engravatados davam as mãos uns aos outros e varriam a multidão que ainda se divertia dentro da Marina da Glória. Esse gesto foi mais grave no show de Devendra, pois, depois de todo aquele clima odara, o público merecia assistir ao sol nascendo no meio das pedras com aquela vista pra Baía da Guanabara, mas foi obrigado a procurar outro lugar pra continuar aquela viagem hippie ao ar livre.
8. Caô
Em muitos aspectos, o Tim Festival 2006 parecia uma armação para reerguer entre os jovens a carreira de Caetano Veloso, que teve uma música sua cantada por Devendra Banhart. O show de Caê foi aparentemente encaixado na programação para salvar a bilheteria do domingo no Tim Lab, que naturalmente não atrairia tanto público com Black Dice como atração principal. Nos intervalos dos outros shows, a organização precisava ficar anunciando no microfone, sempre sob vaias, que o cantor brasileiro encerraria o evento. Caetano era visto dançando nas platéias, principalmente na sexta, quando ele era a única pessoa vestida com terno além dos seguranças. Enquanto Devendra tocava, ficava correndo pra cima e pra baixo tentando fazer mais pessoas dançarem ao redor. Poucos lhe davam atenção. No domingo, seu próprio show foi apenas OK, com seus jovens rocks, mas foi legal ver, no bis, as músicas em inglês do disco Transa tocadas com arranjos dignos, em especial I'm Alive e You Don't Know Me. Nessa hora, ele, com jeans e camiseta, mostrou que realmente pode estar em melhor forma que seus pasteurizados companheiros de geração.
9. Brasil
Enfrentando uma falha no som de sua guitarra logo na primeira música, Devendra mesmo assim elogiou: "Eu não consigo entender o Brasil. É como um planeta diferente da Terra. É para cá que as pessoas devem ir depois de morrerem." Já os Beastie Boys, tiraram onda mas foram mais sinceros, com Adrock explicando: "Gostamos de quase tudo de vocês, de 90%..." No show deles, ninguém sabia se o baixo de MCA estava estourado ou se a distorção no som era proposital. Falhas técnicas também foram constantes com TV on Radio, que tocou com instrumentos emprestados, pois sua bagagem foi extraviada pela American Airlines. Depois do recente acidente no Brasil e dos aviões que batem em prédios de Nova York, a aviação dos Estados Unidos é que deveria ser investigada.
10. Indelicadeza
Shows que corriam muito bem foram pesadamente prejudicados pelo excesso de organização do evento, que, com uma estrutura tão cara (e cheia de funcionários doidos pra largar), não deixava os músicos tocarem até o momento ideal. Visivelmente putos da vida por terem que interromper a festa na hora em que começaram a usar seus instrumentos, os Beastie Boys transformaram Sabotage em um ataque a essa burocratização. Por causa desse problema, a despedida deles foi acompanhada de vaias da platéia contra o Tim Festival. Comprar bebida no show de Daft Punk era um inferno e as fichas que sobraram nas mãos do público não podiam ser trocadas nos outros palcos ou dias. Teve gente com prejuízo de mais de R$ 50, até porque todo mundo foi expulso do pavilhão pelos seguranças. Foi um assalto, com cerveja em lata por R$ 5. Devendra também foi prejudicado pela imposição. E no palco jazz chegaram a desligar os microfones no meio de uma música. De uma forma geral, os shows do festival foram curtos.
|