Pessoas, o mercado está difícil! Nas palavras de um palestrante: “a coisa está preta”. E o tal do “long tail” está realmente long e presente em todas as palavras do Porto Musical – Feira Música Brasil.
Músicos fiquem ligados na venda digital. Há anos este comércio é praticado, mas só agora que no Brasil vira a discussão do momento. Finalmente, temos um portal eficiente de venda de música online: Uol Megastore. Chegou atrasado, mas vende músicas pela bagatela de R$ 1,99 a unidade. Ou seja, no Brasil, até a mp3 é superfaturada. Entretanto, artistas vinculados a Tratore e editoras amigas ainda conseguem comercializar por R$ 0,30. Ou seja, ainda resta um resquício de esperança neste mercado.
O alto preço não é o único problema da venda de músicas no Brasil e até mesmo no mundo. Segundo o palestrante Maurício Bussab (Tratore) o comércio digital ainda se dá por base na confiança. Uma das congressistas, a produtora Carla Mariano levanta alguns questionamentos que passaram longe da discussão: “Ninguém sabe de quem cobrar e como cobrar”, disse Carla. Para ela, “este comércio não pode se estabelecer na base da confiança apenas e se até quem está no comando dessas transações sugere isso, estamos muito longe de estabelecer um sistema de compra e vendas eficiente”.
Apesar de Bussad ter apresentado os resultados atualizados do mercado digital no Brasil, o tema “Distribuição no Brasil: futuros e parcerias” ficou bem no passado nas falas de João Moreirão e César Prado. Motivo para várias críticas. Ainda segundo Carla Mariano, a qualidade do Porto Musical não se encontra nas palestras presas ao senso comum e sim na “troca de figurinhas”. A produtora não foi a única a questionar. Um músico do Abolicionista resumiu bem a sensação do Porto Musical: “Não trouxe nada de novo para os músicos e produtores do Brasil e nem para o próprio evento. Foi a mesma discussão em 2005 e 2006”.
No primeiro dia do Porto Musical eram raros os momentos em que se fugia dos debates sobre a distribuição digital. O melhor exemplo foi a palestra do jamaicano Wayne Sinclair, produtor do maior festival de reggae do mundo – Reggae Sunsplash. Bem, era isso ou ouvir uma menina descolada falando em como pensou na criação da arte da artista baiana Pitty. Não sou fã de Reggae, mas estava diante do melhor momento das conferências. Sinclair, ao falar do seu festival, passou por toda uma explanação político sócio-cultural das produções periféricas. Foi um momento de refletir o lugar da cultura das margens nos centros hegemônicos.
Reggae Sunsplash começou em 1978, cresceu e se tornou o mais conhecido festival de Reggae do mundo. O evento foi exportado para 15 países e seu modelo serve de referência para exportação de cultura dos países periféricos. Segundo Sinclair, o evento envolve mais de 16 milhões de pessoas na Jamaica movimentado os mais diversos setores do seu país. Em suas palavras “o que o Reggae Sunsplash faz é levar a cultura jamaicana para o exterior e possibilita a expansão comercial dos subprodutos dessa cultura”. Neste momento gostaria de citar o professor de comunicação da Universidade Federal de Pernambuco.
“É a hegemonia que exige que a periferia seja exótica, ela cobra desse Outro - periférico, pobre, primitivo – que realce os traços de sua própria caricatura, permitindo um reconhecimento mais rápido, mais adequado, mais ingênuo.
Uma exigência de simplificação, claro, nem sempre assumida pelos subalternos na proporção idealizada pelos centros posto que a cobrança de autodefinição exótica corre paralela a um movimento aparentemente contrário de assimilação das modas centrais pela periferia ” (CUNHA FILHO, 2003, 7).
Em minha opinião, este seria o problema do Reggae Sunsplash. Se vende como algo exótico para atender a cobrança das modas absorvidas pelos centros.
Voltando ao Porto Musical, a grande surpresa: em uma feira onde se discute a quantidade dos discos vendidos por Amado Batista em 2006, ainda conseguimos escutar nomes como Neko Case e Joanna Newson. Ainda há esperança!