Um festival grande como o MADA exige da pessoa que participa, seja como jornalista, banda ou público, uma atenção e uma disposição que quase nunca chega aos 100%. A programação variada, às vezes inconstante, aliada a uma maratona de artistas e atrações paralelas faz com que em algum momento a gente se afaste do palco, o ponto principal para onde todos deveriam convergir, para fazer outras coisas. De minha parte, até há um tempo atrás, eu achava legal ver shows em seqüência, com agilidade de palcos, sem intervalo. Tudo se torna mais dinâmico e você não perde muito tempo esperando o que vá rolar.
Entretanto, em meio a uma maratona onde mais de 10 bandas tocam por noite, vejo hoje que é necessário um pequeno tempo, um pequeno intervalo para relaxar o ouvido e fazer com que a gente possa se fixar em algo após uma meia hora de música alta, que nem sempre é de seu agrado. O que acontece é que pouco tempo depois que acaba um show, você acumula mais meia hora de informação e ao final da noite, você fica se perguntando... "qual é mesmo aquela banda que vi no começo da noite?".
Esta pequena introdução se faz necessária para explicar o quanto uma maratona musical como o MADA pode afetar o público. A estrutura grandiosa (termos como "enorme", "grande" e "grandioso" podem se repetir várias vezes neste texto devido a, mais uma vez, enorme estrutura do evento) favorece um confortável espaço para todos se deleitarem com o visual beira-mar. Por ser um festival de grandes proporções, que quer atingir um público médio de 5 mil pessoas por noite, em alguns momentos, vemos que essa quantidade não significa qualidade. Sobretudo quando estamos falando de um público que teoricamente vem atraído pelos headliners, mas que só vai para o festival para vê-los. Esta é a isca, trazer grandes bandas para atrair um grande público, mas fazer com que eles ainda tenham que ver no palco uma série de surpresas, bandas novas das quais pouco ouviram ou só ouviram falar.
Nem sempre esta atitude louvável condiz com a realidade, porque na escalação do MADA deste ano poucas bandas realmente chamaram a atenção deste público "leigo". Com exceção das bandas potiguares que já tinham público formado independente da quantidade de pessoas em seu fã-clube, presenciei poucas manifestações entusiasmadas com relação às bandas participantes.
Aliás, foi um festival onde poucas pessoas usam camisas de bandas. É um fato bobo até, mas relevante se analisarmos o contexto potiguar. Em Recife temos um "Festival de Verão" que traz, a princípio, grandes bandas nacionais a exemplo dos headliners do MADA: Skank, Paralamas, Detonautas (daqui a um tempo, quem sabe...). Este evento e mais o Carnaval e outros mega shows no Chevrolet Hall diferenciam o público destes shows dos que frequentam shows e festivais de rock. Por não ter mega-eventos de shows pop-rock em Natal, o público (perdoem a generalização) vai ao MADA para se alimentar desta oportunidade de ver os shows de suas bandas que tocam no Faustão, nas FMs de jabá e nas propagandas nacionais. Isso torna o público efetivo, o que fica em frente ao palco prestando atenção, bem irregular, uma vez que boa parte só está lá para ver os headliners.
Acho que poderia discorrer mais a respeito destes aspectos do MADA, que não são exclusivos do festival. Mas isso levaria mais tempo para que você, leitor, pudesse saber quais shows desta maratona realmente valeram a pena assistir. E nisso, considere outros aspectos, falados anteriormente que prejudicavam a cobertura dos shows. Tentando ser mais didático do que de costume, vamos dar nome aos bois na cobertura do segundo e terceiro dia do MADA 2007 através de alguns tópicos.
Pandora No Hako (RN) / Dalila no Caos (PB)
As primeiras bandas sempre sofrem. E o público também. A mistura de metal melódico com trilha de animes não foi tão agradável. A proposta dos potiguares ao tocar ao vivo este tipo de som pode até agradar uma gurizada que estava ali como fãs e amigos da banda, mas o estilo também não era dos mais bem executados. Numa noite que começou chuvosa, Ver o Pandora No Hako foi mesmo um banho de água fria. Já no sábado, o caos sonoro dos paraibanos já foi bem melhor. Mesmo sendo inexperientes em um evento deste porte, Dalila no Caos me causou um impacto positivo. Difícil mesmo é tentar definir o que fazem. O que é um bom sinal. Talvez não seja errado dizer que Mars Volta pode ser uma influência da banda.
Lucy And The Popsonics (DF)
Foi a primeira boa surpresa da noite. A dupla, mesmo com problemas no som, e perdidos em meio a um palco tão grande, fez boa performance com as batidas programadas e a execução de baixo e guitarra. Os refrões, facilmente lembrados depois, mesmo aparentemente ingênuos, carregam bom potencial para hits. O que ainda fez com que o público potiguar começasse a se animar e também dançar.
Manacá (RJ) + R. Sigma (RJ)
Fico sem entender como estas bandas, tão verdes, figuram num evento como o MADA. Em alguns instantes você se desapega do que está rolando ao seu redor e começa a refletir o que cada uma fez para estar ali. Seria o marketing? Seria o corporativismo? Seria imagem demais e pouca música? Ou são as Seletivas Laboratório Pop que não estão selecionando as melhores bandas? Manacá é um bom exemplo do que seria a aposta errada numa cena que não condiz com a realidade carioca, uma vez que existem outras tantas fora do esquema e que poderiam mostrar nos palcos de Natal um som mais legal. A mistura sonora do Manacá remete a algo entre Pitty e Cordel do Fogo Encantado, com uma performance bem teatral da vocalista. Mas... já não vimos este filme antes? E o que falar do R.Sigma com os moleques pulando em cima do palco tentando fazer um emo/hardcore melódico/neopunk? E quando revelaram que o “R” vinha de “Revolução”? Isso explicou tudo. Só que muito mais atitude e sinceridade tiveram os potiguares do Jane Fonda, que realmente instigaram os presentes, com direito até a um mergulho do vocalista na platéia.
Rockassetes (SE) + Memoria Rom (RN) + Bugs (RN)
O show das três bandas é boa, mas apenas isso. Nada que chame a atenção a ponto de lembrar de detalhes. Tanto é que nesta maratona, assim como falei antes, quando chega o final da noite, ao tentar relembrar dos shows, pulei as três na minha memória.
Cabaret (RJ)
A banda chegou com o jogo quase ganho. Pelo segundo ano consecutivo no festival, o Cabaret, de Márvio fez o que sabe fazer melhor, um glam rock de base para a performática apresentação de seu vocalista.
Mellotrons (PE)
Mesmo iniciando o show com um clima morno ao som de "You ain´t gonna find", o Mellotrons agradou ao público que já havia conquistado em momentos anteriores no solo potiguar. Logo em seguida, a banda mostrou suas armas com os "hits" do álbum de estréia. Da metade para o final, vieram as músicas novas em português para animar a platéia com o pedido do vocalista Haymone para todos dançarem ao som de "Equador".
Mombojó (PE)
Fazia tempo que não assistia a um show do Mombojó. Fiquei sem saber como era a dinâmica do disco "Homem Espuma" ao vivo. E o que era mais ou menos esperado, aconteceu. As músicas do segundo disco não são tão empolgantes quanto as do primeiro. Mesmo assim, os fãs potiguares da banda estiveram presentes do começo ao fim, juntando a maior quantidade de gente na frente do palco na noite de sexta. Os pontos altos, claro, aconteceram durante a execução de "Faaca" e "Deixe-se Acreditar".
Móveis Coloniais de Acaju (DF)
Qualquer apresentação do Móveis Coloniais de Acaju é garantia de festa e alegria. Animação a 100 km/h e uma enxurrada de músicas para dançar, mesmo debaixo de água com a chuva que já ameaçava cair. O show foi tão bom que fica a dúvida se o Móveis Coloniais de Acaju também faz chover.
Detonautas (RJ)
Ninguém merece assistir à banda mais fora de propósito de todo o evento. Se ao menos tivessem uma quantidade de fãs que justificasse a presença deles... mas nem isso. Caiu por terra a suposta empatia que o Detonautas teria com Natal.
Montage (CE) - Tenda eletrônica
Enquanto o Detonautas tentava fazer um discurso "politizado" em favor da "segurança classe-média" no Brasil. Daniel Peixoto e o Montage exageravam na tenda eletrônica TIM Stage convidando todo mundo à esbórnia. Quem já viu o Montage ao vivo sabe que eles se superam em cada show e a cada apresentação, novos momentos impagáveis surgem, a exemplo desta noite no MADA, onde rolou até peitinhos das meninas.
Sábado em geral
Se a escalação da sexta-feira foi a mais interessante dos dias de evento, o sábado ficou com a programação mais morna. A grande maioria das bandas que se apresentaram não disseram a que vieram. Ou fizeram shows constrangedores (como o da banda "renovação do brega" Belina Mamão / RN) ou shows simplesmente pop (como o do Pública / RS, com belas melodias, mas que não conseguiram empolgar o público). E logo na noite ideal, sem chuva e com mais de oito mil pessoas, novamente, como já disse, algumas bandas perderam boas oportunidades de mostrar algo realmente desafiador.
Superguidis (RS)
A exceção e melhor momento do sábado ficou por conta do Superguidis (RS), que para a minha surpresa, se mostrou ainda melhor ao vivo do que em disco. As músicas são legais, possuem bons refrões, a banda tem pegada e melhor, não tentam reviver os anos 60 ou Jovem Guarda e sim, aquele velho rock dos anos 90 do Pavement, Sugar e Guided By Voices.
Até o final
Depois do Superguidis, o Cartolas (RS), emulou uma tentativa de performance a la Cachorro Grande e Oasis para aquecer o público que o The Russian Futurists esfriou e que o Skank, a fábrica de hits, reanimou e empolgou até o final da madrugada. Chega a ser covardia dizer que o show dos mineiros não foi bom. Se estivesse ali no meio, revivendo minha adolescência de colégio, teria achado o melhor show do ano numa seqüência de hits radiofônicos para todo mundo cantar junto. Mas a esta altura já estava cansado da maratona chamada "MADA" e tudo o que me restava era terminar de distribuir as revistas Coquetel Molotov Nº 2 no stand do selo/bar/festival Do Sol e recolher os CDs que havia recebido nesta boa visita à capital do Rio Grande do Norte.