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Glastonbury, lama e música na TV
Palavras: M.H. (Brighton) | Foto: NME em 27.06.2007



Acabei de voltar de Recife, para esquecer a frieza temperamental inglesa por dois meses e os amigos quando me viam, perguntavam-me duas perguntas com freqüência. A primeira era: “O que você anda ouvindo?”. Muito lisonjeadora a pergunta em si, como se eu fosse alguma formadora de opinião. Logo eu, que odeio pessoas opinativas. A segunda era bem mais direta e complexa: “Como é que eu faço para ir para lá (Inglaterra), Maria?”. Para responder essa, eu primeiro tinha que dar uma inspirada de ar e rebater com outra pergunta: “Tu queres fazer o que por lá?”- pois aí uma outra conversa se iniciaria. Nesse texto eu preferiria somente responder a primeira pergunta que me era feita. Até porque, fica difícil responder a segunda em alguns parágrafos.

Então, falemos do que se ouve pela Inglaterra hoje, o que aliás, em temporada de festivais de verão, não é pouco! Que bom! Parece que o país acorda, e ao mesmo tempo é a época mais ativa do ano, para tudo! Desde procurar um emprego (vários disponíveis!) ate andar pela rua sem chuva. E ficar na rua, ou no parque, ou ao léu por mais tempo possível. Perfeito e econômico!

Essa semana, enquanto eu lembrava de uma fogueira de São João, escrevia essas linhas, esperava um telefonema sobre um show e preparava a canção com a qual eu vou dar uma “canja” no dia 27, a BBC atolava meus ouvidos com todos os shows do Glastonbury em todos os seus diferentes canais. Cobertura completa do carnaval inglês. Sim, porque esta é a época do carnaval por aqui: verão, música, férias estudantis e sol. Tudo regado a muita cerveja, variada e boa.

Glastonbury é o festival mais famoso. Além de ser o nome do famoso Festival, ela é, antes de tudo, uma cidade inglesa com uma grande tradição de ser um local espiritual. Tribos cristãs e pagãs se encontram por lá ou vivem lá, são os seguidores de Avalon. Muitos acreditam que o lugar “chama ou expulsa você”, caso você tenha tentado viver sua vida por lá alguma vez. E a cidade fica cada vez mais cheia, ou menor para o Festival. Três dias de shows, durante todos os dias com ingressos esgotados desde o começo do ano. Assim é Glastonbury. Lama, acampamento e música.

Um assíduo nome do festival, o cantor-guitarrista Paul Weller, apesar de anos de carreira, sempre conquista os ingleses, e não foi diferente este ano. É a fórmula guitarras + letras realistas + pose-inglesa + folk (e que me lembra um Rod Stewart moderno) que eles mais gostam. Para se ter uma idéia: o último disco (As Is Now) deste senhor carismático de terno foi lançado em 2005 e, na noite do 23 de junho em Glastonbury, ele ainda conseguiu deixar apresentadores de televisão entusiasmados. Um fenômeno em constância, tal qual foi o irlandês David Gray por anos.

"Sensações novas por aqui e presentes no festival foram duas bandas (de rock, claro!) e mais uma jovem menina que escreve seus diários como música: Maximo Park, Guillemots e Kate Nash"

Björk também estava lá, apresentou o show do seu novo CD “Volta”, e quem não gosta da excentricidade daquela mulher com cara de menina? Outra vez, carisma, porém carisma exótico. Não se comenta. Paul McCartney volta à época de turnê com novo CD e passou por lá, mas a TV não mostrou muito. Então, fico sem opinião. Também houve os que vendem bem como Lilly Allen, Amy Winehouse, The Kooks, The Killers, Razorlight, Kasabian, The Frattellis, James Morrison, Paolo Nuttini, Mika e KT Tunstall.

Destaque quem teve, e merecidamente, foram Iggy Pop and The Stooges (foto), que voltaram à estrada como se nunca tivessem parado de tocar juntos. O guitarrista em entrevista a um programa de televisão disse que a razão da volta não foi marketing e sim o prazer de ficarem juntos. No entanto, pela primeira vez em sua vida conseguiu comprar um carro zero quilômetro. E por isso não reclama, e sim, agradece. Sim, sim… a Inglaterra venera os originais que voltam a tocar também. Alem do mais, a terra é tradicionalista antes de tudo.
Mas, eu daria tudo mesmo era para ter estado na primeira emocionada apresentação de Shirley Bassey no festival (“Goldfingeeeeerr!!!”; “Hey Big Spendeeeerrr!!!”) ou ter me acabado com o Arctic Monkeys, que cantou “Diamonds are Forever” no seu show. Sem preconceitos e fantásticos.

Sensações novas por aqui e presentes no festival foram duas bandas (de rock, claro!) e mais uma jovem menina que escreve seus diários como música: Maximo Park, Guillemots e Kate Nash. Os jovens ingleses têm adorado esses três conjuntos ultimamente, e com bons formadores de opinião como aliados agora, aposte: eles vão longe.

Maximo Park é uma banda comum de rock, do norte da Inglaterra. A diferença fica na exaltação de temas ingleses em suas letras, como falar da costa britânica perto do mar, estantes de livros, alem do típico amor frustrado e uma mensagem para os jovens: façam algo da sua vida. O vocalista é lindo e usa um tradicional chapéu Bowler negro (a la Charlie Chaplin) no palco, fazendo tudo soar muito distinto e “diferente”. Sem firulas, convidados especiais ou dança no palco, a banda teve cobertura dupla e toda a platéia adolescente vestindo camisetas com seu nome cantando as músicas.

Guillemots já não gozou do mesmo sucesso, mas, digamos, deixa qualquer platéia e espectador de TV curioso. E uma banda que me parece composta de indivíduos criativos, com não só a música em comum. São sons, risadas, barulhos de furadeira e temas esdrúxulos como “Trains to Brazil” (queria eu que houvesse um!) em forma de canções. Sim, tem dança com pernas-de-pau no palco! Tem garota bonita tocando um contrabaixo enorme de olho fechado (miserável!). E tem um clássico menino inglês, barbudo e bem-vestido nos teclados. No mínimo, interessante pela combinação. Não preciso dizer que a terra das excentricidades adorou isso, não? Lógico, que não….

Quem ganhou destaque foi a mais nova menina letrista-pianista, Kate Nash, de 19 anos. Aquela velha história: “a música na minha vida veio por acaso”. Tirou um ano para pensar na vida, não foi aceita na escola de teatro, tinha umas músicas sobre o seu cotidiano (menina-ama-menino) e, de repente, algum olheiro a ouviu no MySpace e tudo degringolou positivamente em sua carreira. Os temas das canções são adolescentes: como ela gostaria de ser a “Mariella” da escola, a garota que ouviu “eu te amo” do garoto e respondeu “What?”, e outros mais comuns impossíveis. Temas imaturos, sinceros e prontos para ganhar o mundo.

E agora foi dada a largada do verão dos festivais por aqui. E para os que fizeram a segunda pergunta e são músicos, eu agora tentaria responder assim: “Olha… Para tocar por aqui, o verão é a época de ganhar dinheiro. Que tal se programar para o próximo ano?”. Boa sorte e bons futuros planos.

Datas dos festivais no Reino Unido:

www.virtualfestivals.com/festivals/upcominguk