Michael Stipe entrou no palco da Via Funchal, na noite de 11 de novembro, como quem não quer nada. Na última das quatro apresentações da turnê brasileira do R.E.M., que passou por Porto Alegre, Rio de Janeiro e tinha aportado um dia antes em São Paulo, a banda parecia absolutamente tranqüila. Michael Stipe cantou “Living Well is the Best Revenge” de maneira centrada e direta. Mas essa situação do início ganharia contornos diferentes.
Aos poucos, o vocalista do R.E.M. demonstraria carisma sem perder de vista a serenidade. A partir de “What’s the Frequency, Kenneth?”, a primeira canção a levantar o público, ele começou a dançar seguindo seu estilo. Nessa toada, Stipe ainda tocaria gaita (em “Bad Day”), amplificaria a voz num megafone (em “Orange Crush”) e se jogaria na pista para interpretar “The One I Love” junto aos fãs.
No entanto, o show da banda não pára por aí: é um leque e os desdobramentos. São camadas que vão se expondo. Ali, no canto, Mike Mills constrói linhas de baixo sinuosas ao mesmo tempo em que faz seus habituais backing vocals. Além disso, às vezes, ele senta ao piano. Em “Nightswimming”, por exemplo, acompanha um Stipe crooner enquanto se entretém na melodia tirada do instrumento. Já Peter Buck, do lado oposto, é outro caso à parte. Entrega-se aos riffs e dedilhados de modo certeiro e mantém a expressão séria durante toda a jornada. Ambos parecem ter o trabalho mais fácil e divertido do mundo. Aliados ao guitarrista Scott McCaughey e ao baterista Bill Rieflin, eles produzem música enxuta e intensa.
Esses norte-americanos de Athens, que resolveram cruzar o folk rock com o punk, levam à platéia um som cheio de texturas, cristalino e estridente. Guitarras sujas reverberam não apenas nas clássicas “Driver 8” e “Pretty Persuasion”, mas também em canções calmas como “The Great Beyond” ou no hino “Everybody Hurts”. É um espetáculo pesado até nas entrelinhas.
Comove, então, a urgência da performance do R.E.M.. O anunciado bis traz assim uma ponta de tristeza, pois “Supernatural Superserious” transforma-se no começo do fim. Só que a esta altura, o jogo está ganho. Michael Stipe conduz “Losing My Religion” tal qual um Senhor do Tempo. E se o setlist precisa ser encerrado, a plástica de “Man on the Moon” cumpre bem esse papel.
Numa noite de barulho e delicadeza, nada ali foi feito sem esforço. Pelo contrário, já que na vida quase sempre é necessário correr atrás. Acontece que a palavra naturalidade revela um pouco melhor a apresentação do grupo. Ela realizou-se como simples e notável caminho percorrido.