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Goiânia Noise Festival 2008
Palavras: Jarmeson de Lima / Foto: Laila de Castro em 24.11.2008
Este foi o segundo ano que visito a capital de Goiás durante o Goiânia Noise Festival, evento que em sua 14ª edição ganhou grandes proporções em termos de estrutura e de escalação, trazendo nomes internacionais inéditos e atrações nacionais de peso. E por ser o último grande festival do ano no calendário da Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes), ele também se torna o ponto de encontro de produtores culturais, bandas e jornalistas que se confraternizam em cada uma das três noites de evento. Outro ponto interessante a respeito do Noise é que sua grade de programação lembra uma retrospectiva, uma espécie de "melhores momentos" com as bandas que mais se destacaram em eventos de outras cidades e que estão lá reunidos. Ao mesmo tempo, a produção da Monstro apresenta novos nomes que provavelmente passarão a circular pelo país no ano seguinte de acordo com a performance e o gosto dos produtores "olheiros" visitantes.
Mas enfim, vamos à maratona! Com uma programação que apresenta shows de 15 bandas por dia, o Goiânia Noise é um festival que exige bastante fôlego e atenção do público. É claro que ao ver a lista de atrações, eu, assim como boa parte do público, já elege os seus preferidos e imperdíveis. Ver 100% dos shows é uma tarefa difícil, a começar pela falta de intervalos entre os dois palcos que se alternam ininterruptamente. Ao terminar um show no Palco Trama Virtual, na área externa do Centro Cultural Oscar Niemeyer, outro show já se iniciava no Palco Monstro, dentro do anfiteatro do local. Como já tinha vivenciado isso no ano passado, sabia que o melhor a fazer seria realmente relaxar e aproveitar a sequencia de shows que tinha elegido. Ver o restante dos shows já seria lucro. Poderia tanto ser uma surpresa agradável quanto uma experiência frustrante.
No primeiro dia, tive inicialmente o prazer de rever o show do “garoto-prodígio” Diego de Moraes. Há exatamente um ano atrás, Diego tinha sido uma das boas revelações do mesmo festival ao tocar no palco menor, com uma estrutura de som que mostrava apenas 50% de seu potencial. Vale salientar que na grande leva de bandas goianas que tocam frequentemente no Noise, nem todas estão ainda prontas para deslanchar. Mas impressiona justamente quando uma dessas surge e se destaca. Pois bem, neste ano, tocando no teatro, com uma acústica adequada e com uma banda maior, Diego de Moraes apresentava seu pop-folk-mpb-freak. É uma tarefa difícil definir o som do garoto, que mora, na verdade, em Senador Canedo, cidade-dormitório da Região Metropolitana de Goiânia. Bastaria dizer que em suas músicas, apresenta boas referências a malditos da MPB como Itamar Assumpção, Sérgio Sampaio e Tom Zé. O resultado agrada e serve como um bom cartão de visita para o que viria adiante.
E o que impressiona no Noise é capacidade de oferecer a um público que foi sendo educado pelos shows e eventos da Monstro coisas diferentes e muito inusitadas. Nesta descrição cabe tanto o shoegazer do Mickey Junkies, que veio diretamente dos porões dos anos 90 em Osasco, quanto ainda a banda americana Calumet-Hecla, que, como bem diz o release, “busca fazer de seu som uma demonstração sincera do caos”. Nada de muito especial nesta aqui, por sinal. Em compensação, é interessante entrar no túnel do tempo para ouvir como o Mickey Junkies ainda soa a cara do indie brasileiro dos anos 90 no bom sentido por sua despreocupação com fórmulas de sucesso ou por parecer demasiadamente com bandas internacionais do mesmo quilate.
"Mais tarde, o mesmo Palco Monstro seria o local da melhor apresentação de todo o festival. O Black Mountain (foto) realizou em pouco mais de 40 minutos um show memorável
"Em alternância a estes shows que aconteceram no teatro do Centro Cultural Oscar Niemeyer, o Palco Trama Vitual mostrava grupos de talento díspares, mas que conseguiram a seu modo empolgar o público. Naquela mesma noite, o duo Lucy and The Popsonics, que acabava de vir de Brasília pegando a estrada, tocava mais uma vez o seu electro-rock para o delírio do bom séquito de fãs que conquistou na cidade. Antes deles, quem mereceu destaque neste mesmo palco foi o Holger, grupo paulistano que surpreende em disco com boas melodias, riffs e ecos de Pavement, Silver Jews e Guided By Voices.
De volta ao palco Monstro, a apresentação do Canastra foi de arrebentar. O grupo, obviamente, com seus discos não teria como fazer feio. A mistura de rockabilly, surf e dixieland animaram o público tanto quanto se poderia prever. É o tipo de banda que, mesmo sem eu ter visto ao vivo, já sabia que entraria com o jogo ganho. Exatamente como foi com o Vaselines. Eugene Kelly e Frances McKee subiram ao palco com muitas expectativas e com o espaço lotado de fãs que conheciam pelo menos os hits da banda que foram interpretados por Kurt Cobain. Logo no começo do show, por volta da quarta música, mandaram “Jesus don't want me for a sun bean”, entoada em coro pelo público. Momento de grande emoção da noite, superado apenas pela histeria dos órfãos-hermaníacos durante o show de Marcelo Camelo acompanhado pelo Hurtmold. Como esta tinha sido o primeiro show do ex-Los Hermanos na cidade, a comoção era generalizada tal como foi no Recife durante o festival No Ar.
E devido a esta grande euforia em torno do trabalho solo de Camelo, grande parte do público que circulava pelo espaço, deixou de ver uma das melhores apresentações do ano, que foi a do Black Lips no palco menor do evento pouco antes da apresentação dele. O quarteto Black Lips executa uma performance insana e que estremece qualquer estrutura de som e de palco. Foi o show em que mais coisas caiam a todo instante. Seja de propósito por parte da banda que sacudia os pedestais de microfone ou por conta do público que se arriscava a fazer mosh e pular da estrutura de ferro que circundava o palco. Rock sujo garageiro e irresponsável, do tipo que todos que estavam esperando. E ao contrário do que muitas bandas, inclusive de Goiânia, tentam fazer, o rock do Black Lips é sujo por natureza e com refrões herdados do que Sonics e Trashmen puderam oferecer. Basta dizer que ninguém sai imune ao show de energia que o Black Lips joga no palco. Para mim foi o suficiente para guardar as energias para o dia seguinte.
Outra característica interessante do Noise é um equilíbrio inusitado entre a condecendência e o talento. Bandas ainda verdes e sem muito o que mostrar acabam preenchendo lacunas na grade de programação que poderiam ser melhor aproveitadas com os já citados e ausentes intervalos entre as atrações que realmente mereceriam atenção. Algumas, no entanto, superam ou disfarçam essa falta de talento e chamam a atenção pelos impropérios e pela bizarrice tal como Os Ambervisions e o Gangrena Gasosa. Mas ainda assim a bizarrice do macumba-metal desses cariocas veteranos vale a pena ser visto. Vestidos como personagens de umbanda e tocando tamborim, batucada e riffs de thrash metal, o grupo sai soltando pérolas satanistas e encerra o show jogando literalmente um despacho de farofa de macumba nos fãs desavisados que ficavam na beira do palco.
Falando agora de som pesado, mas com seriedade, nem é preciso detalhar a apresentação arrasadora dos conterrâneos do AMP e dos donos da festa, com o MQN no Palco Trama Virtual no sábado. Ambos com um vigor de fazer qualquer fã do Helmet vibrar. Basta ver pela reação da galera. Durante a execução de “Acidez”, o pessoal da AMP chamou ao palco quem quisesse cantar a música com eles. E no show do MQN, Fabrício Nobre mais uma vez proporcionou momentos de escracho e rock'n'roll cuspindo cerveja no público e vendo seu guitarrista fazendo stage-diving junto ao público. Enquanto isso, no teatro, o Guizado mostrava ao público de Goiânia algumas faixas do elogiado álbum “Punx”. Sem falar muito e mandando ver no dub e na psicodelia-jazz de seu trompete, Gui Mendonça ao lado de sua banda extremamente competente proporcionou bons momentos de acid-groove no palco.
Mais tarde, o mesmo Palco Monstro seria o local da melhor apresentação de todo o festival. O Black Mountain realizou em pouco mais de 40 minutos um show memorável. Psicodelia, peso, rock progressivo, vozes suaves e distorções foram os ingredientes de um show que transbordou emoções. Nem mesmo uma corda de guitarra quebrada foi suficiente para quebrar o clima do show, uma vez que os demais integrantes fizeram uma jam de improviso durante a troca de corda de forma que a música em sua "versão extendida" parecia até ensaiada. “Angels”, “Druganaut” e “Tyrants” foram os pontos altos do Black Mountain ao vivo em Goiânia. E se alguém achava que essa mistura que acabei formulando como sendo igual a King Crimson + Cat Power não seria suficiente para conquistar o público, basta dizer que foi impactante o suficiente para ganhar um bis de encher os ouvidos. Definitivamente não há palavras à altura para descrever adequadamente o que foi o show do Black Mountain, mas saibam que foi O show do ano!
Mais uma vez a atração que não tinha sido a principal roubou a atenção dos headliners, que neste dia era o Instituto e seus convidados com o show tributo ao Tim Maia Racional. Ver as interpretações de Carlos Dafé, Thalma de Freitas e B Negão para as músicas de Tim Maia é algo impagável e que conseguiu arrastar até mesmo o público goiano que tinha visto naquela mesma noite, em outro local da cidade, o show de Seu Jorge. Quem já viu esta apresentação no Rec-Beat do ano passado, sabe que este dream-team de astros juntamente com o Instituto sabe como realizar um grande show.
E encerrando o Noise 2008, o domingo foi dedicado aos sons mais pesados. Com isso, quem estava na escalação deste dia e não seguia pela cartilha do punk, metal ou hardcore ficava ilhado pelo público de camisas pretas, que ficavam junto ao palco por curiosidade, mas sem demonstrar muito interesse. Felizmente, o domingo do Noise, com suas bandas mais pesadas até que ajuda os maratonistas espectadores do festival a se manterem acordados. E neste dia não a muito o que comentar além da esmagadora onda sonora que era emitida dos amplificadores durante o show do Helmet. Page Hamilton e sua reformada banda sabia o que o público queria e manteve o volume alto de seus riffs quebrados até o talo. Era o bastante para ver como o Helmet tinha sido tão aguardado por uma legião de fãs, músicos e gente de diversas partes que viajaram de longe para ver aquela turma ao vivo. Foi ensurdecedor o suficiente para fechar o Goiânia Noise literalmente com bastante barulho. |