Radiohead @ Rio de Janeiro (20/03/2009) Palavras: Jarmeson de Lima / Foto: Mastrangelo Reino/Folha em 23.03.2009
Ao longo de mais de dez anos, os fãs brasileiros do Radiohead
se depararam com boatos, promessas e a esperança de ver a banda
ao vivo em solo nacional. Eis que no dia 20 de março de 2009, a
espera chegou ao fim. Nesta data, lá estava eu no Rio de
Janeiro, na praça da Apoteose para vê-los fechar a noite do
Just a Fest, evento que reuniu os ingleses do Radiohead, os
alemães Kraftwerk e os cariocas Los Hermanos.
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Chegando ao lugar do show, a poucos instantes após o início do
primeiro show, a comoção pelo Los Hermanos parecia superar a
animação do público local pela expectativa de ver o Kraftwerk e
o Radiohead numa mesma noite. Acredito que apenas os fã
(nático)s pela nova reunião de Marcelo Camelo, Rodrigo
Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba estavam eufóricos. A
euforia, no entanto, não se traduzia ao vivo para quem estava
vendo ali apenas um show de abertura. Os integrantes da banda
aparentavam animação, riam bastante, mas tocavam sem a mesma
empolgação de antes, quando já fizeram shows melhores.
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Indo agora ao que interessa, o Kraftwerk, meia hora após o
encerramento dos hermanos, montou seu palco com quatro laptops
hem pedestais. Após algumas leves batidas eletrônicas, Homens e
máquinas começavam a interagir musicalmente. A partir do
conceito de que a banda é semi-human, homens-máquinas e robôs,
o show do Kraftwerk é um espetáculo visual à parte. Em meio a
imagens anacrônicas em um telão moderno, a parte visual do show
dos alemães "compensa" a não-performance de palco deles, que
trajavam uniformes pretos e mexiam em seus computadores
extraindo as bases e as vozes das clássicas "Radioactivity",
"Autobahn", "The Model", "Trans-Europe Express" e "Musik Non
Stop". Belo show para se guardar na memória, apesar da
desinformação de boa parte do público, que esperava encontrar
ali um batidão de psy-trance. Em certa hora, a ansiedade do
público pelo Radiohead parecia tanta, que não se sabia mais se
os aplausos eram pelo show do Kraftwerk ou pela expectativa do
Radiohead entrar em cena.
"Como não se entusiasmar em um show em que tocam 'Airbag', 'Idioteque', 'Just', 'There There' e 'The National Anthem'? "
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Mas antes do Radiohead, a estrutura de palco merece um destaque
à parte. Por mais que tenha visto grandes e memoráveis shows,
nunca tinha visto um palco como o que foi montado para esta
turnê do "In Rainbows". Dos pequenos aos grandes detalhes, o
show seria irretocável mesmo se a banda só tivesse tocado b-
sides. A utilização da luz e das cores em cada música evidencia
climas e mensagens ao público de forma vibrante ou intimista. E
o telão, dividido em cinco, com a ajuda de pequenas câmeras
espalhadas pelo palco, mostrava detalhes da performance de cada
um dos integrantes da banda. E com uma boa ajuda de luzes
estroboscópicas e de tubos de luz que ficavam dependurados do
teto, cada música recebia um tratamento especial que não se
repetiam.
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Vamos ao show, que começa após a montagem do palco e a trilha
sonora de uma seleção de dub e reggae, que a maioria das
pessoas não entendia a ligação. Pelo menos dois fatos: Jonny
Greenwood, fã de reggae, fez uma compilação em CD com pérolas
do acervo da lendária gravadora jamaicana Trojan Records no ano
passado. O Easy Star All-Stars, que produziu o cult "Dub Side
of The Moon", lançou em 2007 o disco "Radiodread", com versões
dub/reggae das músicas do "Ok Computer". "15 Step", do disco
"quer pagar quanto?" "In Rainbows" abriu a inesquecível noite.
Dali em diante, a banda destilou hits e o repertório inteiro de
seu mais recente disco.
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E para quem imaginava que um show da banda de Thom Yorke, Ed
O'Brian, Colin Greenwood, Jonny Greenwood e Phil Selway seria
melancólico... estes ficaram de queixo caído. Como não se
entusiasmar em um show em que tocam "Airbag", "Idioteque", "Just",
"There There" e "The National Anthem"? Esta última com a
parafernália visual de luzes, cores e imagens se alternando e
funcionando a todo vapor, com direito a uma breve introdução de
uma transmissão de uma emissora FM carioca. As baladas, claro,
não poderiam ficar de fora de uma apresentação histórica como
esta, trazendo no setlist as belíssimas "No Surprises", "All I
Need", "How to disapear completely", "Street Spirit (Fade Out)"
e "Karma Police", tendo seus versos repetidos mesmo após seu
final, incentivando Thom Yorke a voltar e instigar a galera a
cantar o refrão mais um pouco.
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E como os shows do Radiohead tem mais dois momentos de bis, que
fazem valer a pena cada centavo investido, o grupo volta após
uma gigantesca ovação, trazendo "Paranoid Android", "You And
Whose Army?", em um momento de interação olho-no-olho entre
público e banda, mediado pelo telão. E após mais outras grandes
comoções, o Radiohead começa a se despedir, após Ed e Thom
terem pronunciado por vários momentos a palavra "obrigado" com
sorrisos estampados nos rostos. E quando a banda ameaça sair do
palco e vemos as coisas começarem a ser desmontadas, o grupo
retorna e explode o local com "Creep", seu primeiro e maior
hit, em uma verdadeira apoteose de emoções.
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Terminados os acordes de "Creep", resta-nos agora as lembranças e um certo vazio ao saber que momentos como este são para guardar na memória num lugar perto dos melhores dias de sua vida. Em pleno sambódromo, o Radiohead tirou NOTA 10 em todas as categorias. Parabéns, Radiohead!