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Maionese 5: Uma noite de boas surpresas e de novas caras em Maceió
Palavras: Jarmeson de Lima em 31.05.2009



Aparentemente, para mim e para boa parte das pessoas de fora, a cena musical de Maceió ficou estagnada em um hiato indefinido após os anos 90. Apesar de ser o berço de nomes que se destacaram pelo Brasil afora como Mopho e Wado, Maceió era uma incógnita pra mim até ontem, quando tive o prazer de presenciar o festival Maionese 5. Este evento, que já está em sua quinta edição reuniu 12 bandas do cenário independente nordestino. Com a bravura e a ousadia em querer tirar a cidade da inércia, o coletivo Popfuzz vem realizando desde 2005 o festival Maionese, que como indica o nome, acontece sempre nos meses de maio.

Movido pela curiosidade em revisitar a cidade (a última vez que passei por lá foi há quatro anos em meio a uma conexão aérea) e ver mais um show do Mellotrons, chamei mais uns amigos para ir até Maceió e ver o festival. A escalação do evento era uma completa surpresa para mim. Não conhecia nenhuma das bandas alagoanas que estavam ali se apresentando alternadamente nos palcos do Jaraguá Tênis Clube. A única que já tinha ouvido foi a The Lefts, que embarca numa boa onda "folk brasileira", com uma música que remete a Vanguart e Supercordas com o acréscimo de mais instrumentos e integrantes.

E visitando um festival como este que me surge como novidade, o que eu mais queria era realmente ser surpreendido positivamente. E foi isso que aconteceu! De uma escalação apenas com nomes de projeção local e três veteranas convidadas, o Maionese 5 conseguiu reunir um grupo de bandas com estilos diferentes entre si e que atraiu mais de mil pessoas ao local durante a noite de shows.


"Entre um intervalo de show e outro pude ver gente como o cantor Wado, que se fez presente para prestigiar o Maionese, que conseguiu conquistar a simpatia do público alagoano"

A primeira surpresa veio do palco aberto, montado fora do salão do clube, onde se apresentaram as locais Projeto Sonho e Dom Pedriota & as Tatuagens de Pipoca (foto). A primeira realiza um som instrumental que o apresentador do palco classificou como "post-rock mais pesado". Com influências de uma recente geração musical que passou a ouvir Tortoise e Mogwai com atenção, a Projeto Sonho lembra grupos nacionais como Fossil e ruido/mm, mas com a ausência de um baixo em sua formação que possui apenas três guitarristas e um baterista.

A segunda banda, que era formada basicamente por adolescentes vestidos em roupa de marinheiro, que bem que poderia ser uma farda de escola, seguia pela cartilha da boa surf-music. E se cada cidade tem (ou deveria ter) uma banda cool de surf-music, Maceió agora já tem esses garotos, que em show no Maionese conseguiram chamar atenção ainda pela inusitada presença de alguém com máscara de lutador mexicano dançando pelo palco e saciando a sede da platéia mais próxima com uns goles de bebida alcoólica. Vale ressaltar a expressiva presença de gente mais nova tanto no palco quanto na platéia. Se há algum tempo era difícil ver gente mais jovem em shows por lá, como relataram os organizadores, hoje já dá pra vislumbrar cenas de shows mais animados e com boa presença de público daqui a um tempo. O problema, claro, é a oferta de locais para fazer esses grupos autorais tocarem, mas deixemos esta discussão para uma outro momento.

Entre um show e outro era interessante ver que o público do festival ia crescendo ao longo da noite. Se em 2008, o festival tinha vendido poucos ingressos antecipadamente, neste ano já tinham conseguido vender mais de 400 antecipados com uma boa divulgação pela cidade e com matérias de capa nos cadernos de cultura dos jornais de Maceió. Mesmo a chuva que caiu por alguns minutos por volta das 23h, durante os shows do Radium e Jorg and the Cowbow Killers, não espantou o público, que se aglomerava entre a tenda do palco aberto e o salão dos principais shows. Entre um intervalo de show e outro pude ver gente como o cantor Wado, que se fez presente para prestigiar o Maionese, que conseguiu conquistar a simpatia do público alagoano, fazendo com que até gente de Arapiraca tenha viajado para ver os shows por lá.

Já passava de meia-noite quando a veterana Snooze subiu no palco principal do evento. Nesta mesma hora, a Neon Night Riders se apresentava no palco aberto, com dois shows simultâneos de estilos diferentes. Apresentada como uma banda de electro-pop, Neon Night Riders se mostrou muito mais "eclética" do que o rótulo poderia significar. Com dois guitarristas, um controlador-midi e um laptop com batidas programadas, a música eletrônica da banda era bem diversificada, passando por momentos dançantes e de ritmo ambient.

Na mesma hora em que o Mellotrons tocou no palco principal do Maionese, a Blueberry Babies apresentava seu show que lembrava muito o estilo dos recifenses em sua "primeira fase" com letras em inglês, pontuada por guitarras altas e distorções shoegazer. Quem sabe se daqui a algum tempo, estes garotos alagoanos sigam o exemplo dos Mellotrons e passem a fazer composições também em português e com outras tendências e influências. Em seu primeiro show em Maceió, o Mellotrons fez um apanhado de seus principais "indie-hits" em inglês e apresentou ao público local músicas mais recentes como "Mirante", "Conselheiro" e "Galáxia".

Encerrando a noite, a Mopho, em sua formação original, fez o público cantar junto, se emocionar e lotar o espaço do palco principal. A saudável nostalgia pelo retorno da banda e pela comemoração dos dez anos de lançamento de seu primeiro disco se mostrou bem oportuna. Num show como este, ficou evidente este interessante encontro de gerações. Assistimos a uma banda que nasceu e cresceu numa época mais difícil para sua cena local e que hoje em dia vê como o seu trabalho cresceu e serviu de motivação para outras pessoas formarem suas próprias bandas para tocar para gente de sua cidade em um evento com um público bem expressivo.

Ao final do evento, fiz questão de parabenizar a Talita Marques, uma das organizadoras do evento, e outras pessoas envolvidas na produção pela coragem de realizar um festival com uma aura de frescor e de novidade ao público de Maceió para provar principalmente que existe muito mais na capital de Alagoas do que belas praias ou feiras de artesanato para turistas. Nestas horas é bom ver que vale a pena se aventurar pelas irregulares pistas estaduais e federais que ligam Recife a Maceió para ter uma boa surpresa em uma noite de festivais e bandas novas. E que venha o Maionese 6, 7, 8 e tantos outros números quanto for possível.